sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Bruxa Aquática




Fernando Liguori


Publicado em Sothis, Vol. I, No. 5, 2005. Periódico da extinta Ordo Draco-Thelemae.


Quando nós idealizamos este veículo de comunicação ocultista, com o propósito de veicularmos informações de fácil assimilação para o público leigo, mas também que fornecesse informações para os pesquisadores profundos, acreditávamos estar mais uma vez contribuindo para uma exposição aberta dos Mistérios. Como sempre, o intuito é de melhorarmos nosso trabalho; mas como fazer uma exposição mais aprofundada dos Mistérios? A resposta para esta proposição foi encontrada: explorar, mais intensamente, os rincões do ocultismo experimental. Doravante, esta seção estará relatando casos com dois propósitos: a) esclarecimento e elucidação espiritual; e b) servir como um mosaico panorâmico à divulgação de sistemas espirituais efetivos e novas tendências que se encontram na vanguarda do ocultismo contemporâneo.

Muitas das experiências que aqui serão relatadas ocorreram nas cerimônias mágicas realizadas na Loja Nu-Isis, uma Célula dependente da O.T.O. a qual eu fundei para canalização de informações espirituais via um planeta transplutoniano chamado Isis, descoberto por Kenneth Grant. Ele fundou em 1955 uma Célula da O.T.O. chamada New Isis Lodge, fechada e finalizada em 1962. É a nossa intenção dar continuidade aos trabalhos que por ele foram iniciados.



Alex Elias (Alquimista) e Fernando Liguori (Asvk-Aivaz), por volta de 1999. Foto tirada no Templo do Alquimista, na ocasião de um ensaio para as invocações do ritual planejado para noite.


Desde que iniciamos os trabalhos espirituais da Loja Nu-Isis, um importante iniciado e artista, Alex Elias, conhecido nos meios ocultistas como o Alquimista, esteve presente. Como meu amigo pessoal, ele fabricou muitos instrumentos mágicos para Loja, desenhou inúmeros cenários para as operações e elaborou vários dos rituais por nós utilizados. Embora tenha uma órbita errática, não podendo ser definido como isso ou aquilo, sua principal linha de trabalho espiritual está vinculada a utilização de ayahuasca em ritos cerimoniais dos mais diferentes tipos: Goécia, Theurgia, Zos Kia etc., sendo ele um exímio Adepto na arte da sigilização. Um Adepto capaz de com um simples toque consagrar qualquer instrumento a qualquer entidade desejada.

Certo dia eu visitei o Alquimista; subi as escadas de seu apartamento e o segui até a cozinha. Ele havia acabado de completar um estudo sobre um desenho a pastel de minha ex-esposa o qual foi intitulado por ele como A Jovem Feiticeira. O nome leva inevitavelmente o sujeito da feitiçaria e suas experiências pessoais com o Culto das Bruxas. Ele relacionou o desenho a um incidente típico de muitas de suas experiências mágicas.

Passamos o dia inteiro juntos e a noite adentramos ao seu Templo para realizarmos algumas experiências mágicas. Lembro-me de que estávamos entretidos na formulação de um novo ritual e para isso tínhamos de nos certificar de que estávamos no caminho correto. O ritual mostrou-se muito potente.


Alex Elias (Alquimista) e Fernando Liguori (Asvk-Aivaz), por volta de 2004. Foto tirada na Loja Nu-Isis, na ocasião do ritual envolvendo Lucila (Adana Trynandara).


Após o ritual, com uma noite chuvosa, eu embarquei em um ônibus em direção a minha casa. Era domingo, bem tarde, e como estava chovendo muito, as ruas estavam desertas. O primeiro compartimento do ônibus estava vazio. Eu fui em direção do segundo compartimento a fim de folhear um livro que o Alquimista me emprestara. Me surpreendi ao encontrar o segundo compartimento do ônibus cheio de pessoas, quase lotado. Como já estava ali, encontrei um banco vazio, me sentei e rapidamente me abstraí. A chuva castigava fortemente as janelas; as ruas encharcadas ainda iluminadas pelos altos postes de luz não me pareciam familiares, na verdade, irreais. Eu olhei a minha volta e descobri que os passageiros que me rodeavam também pareciam irreais e – de alguma maneira que não podia definir – se encontravam fora da consciência normal, embora vividamente presentes na minha consciência interna. O ônibus não parou durante todo o trajeto e despertei de meu devaneio ao me aproximar do meu destino. Aí me dei conta de que não havia pagado a passagem. De alguma maneira o trocador também não me cobrou.

Eu experimentei um raro estado de pericoresi «interpenetração de dimensões» naquela noite; o que eu estava vendo, como o resultado do ritual que acabava de praticar, era uma congregação de bruxas indo a um Sabbath. Todos os passageiros fantasmas eram mulheres. Elas possuíam um interesse intenso, embora indireto, em mim, como que se estivessem me convidando para algum encontro secreto e profano. Eu observei determinados gestos misteriosos que me lembraram muito determinadas características do Alquimista quando o vi transfigurar-se pela primeira vez. Elas também estavam neste ponto de transfiguração, derretendo-se e transformando-se em formas estranhamente atraentes. O Alquimista havia sido instruído nos arcanos sabáticos que velavam técnicas para o estabelecimento de contatos com entidades extraterrestres, elementais autômatos, familiares intrusivos, capazes de dotar o feiticeiro com conhecimento e poder sobre-humano. Os Cristãos, que estão completamente alheios aos verdadeiros objetivos do Sabbath, fazem absurdas acusações contra os suspeitos participantes e os acréscimos de rumores e lendas que se acumularam durante os séculos têm sussitado as pessoas a suporem que o grande mal fora incubado e promulgado nos conclaves sabáticos.

O Sabbath não é nem negro e nem branco, mas um evento altamente colorido. O sexo é ali utilizado por todos os participantes como um veículo mágico para produzir um cone de poder através do qual se dará a ressurgência atávica. É a fórmula da postura da morte aplicada en masse; ao invés de ser ensaiado astralmente ele é representado fisicamente para a formulação e geração de grande poder. Este poder, quando liberado, é desviado de seu objetivo profano e direcionado para realização do desejo da massa. Este último varia, dependendo do objetivo pré-arranjado do coven ou assembléia. Ele não é meramente uma questão de satisfação erótica, embora isso possa ocorrer acidentalmente em alguns círculos. O magista se torna neutro e disciplinado até sua sublimação posterior e final. Todo seu treinamento é submisso e obediente até que ele possa transmutar, controlar e dirigir-se magicamente a qualquer propósito pela fria paixão amoral. As bruxas são ativas durante todo o processo, daí o vôo simbólico pelo cabo da vassoura.

As bruxas usualmente engajadas em tais rituais são velhas, grotescas e libidinosas, tão pouco sexualmente atraentes quanto os mortos; contudo, elas se tornam os únicos veículos de consumação. Isto é necessário para a transmutação da cultura estética pessoal. As bruxas jovens são constantemente treinadas na arte da transfiguração criando uma ponte ou elo entre o grotesco e a sublimação de maneira que já não haja diferença entre um e outro. Kenneth Grant discorre sobre o assunto em Aleister Crowley & o Deus Oculto.

A perversão também pode ser utilizada para superar os preconceitos morais e a conformidade instigada pela má educação ou uma sociedade perniciosa ao saudável desenvolvimento individual. A mente e o desejo devem se tornar amorais, concentrados e completamente aceitáveis, de forma que a Força da Vida esteja livre de inibições anteriores ao controle final, pois ela não é cega, nós é que somos!

O Sabbath é assim uma orgia sexual deliberada com o firme propósito de exteriorização de um desejo latente. É a grande realização da imagem autista; a extrusão científica do pensamento e sua incorporação como entidade objetiva, tátil e visual a todos os presentes. Em outras palavras, é a materialização do pensamento veleitário.

O Alquimista sempre cita Austin Osman Spare quando sustenta que as fórmulas tradicionais de cultura estética como o «valor», i.e. o critério, têm destruído afinidades mais afetivas do que qualquer outra crença, pois «aquele que transmuta o feio em uma nova estética possui algo que vai além do medo». Spare, O Livro do Prazer.

Para o ético pragmático, o Alquimista declara que os ritos sabáticos nunca lhe prejudicaram, porém, ao contrário, fortalecem sua autodisciplina e aumentam sua saúde, tornando-o mais tolerante, compreensivo e compassivo. Acima de tudo o Sabbath o dotou com inspiração criativa incorporando os fenômenos a sua realidade mágica.

O Alquimista transcreveu muitas fórmulas sabáticas em pinturas e desenhos mágicos para Loja Nu-Isis, os quais ele consagrou com um rito de feitiçaria sexual para propósitos determinados pelos quais eles eram desenhados. Ele também gravava seus desejos mágicos em placas, pires ou vasos em forma de graal a pedido de amigos que queriam artefatos mágicos para serem usados em determinadas operações. Aqui descrevo um caso particular que envolveu a Loja Nu-Isis.

Um de seus amigos (ou cliente) que solicitou este tipo de artefato foi Sérgio Maluff, que declarava ser um bruxo. Ele era sacerdote de um coven da linha de Gerald B. Gardner, um antigo membro da O.T.O. na Inglaterra que escreveu alguns livros sobre bruxaria e fundou o Museu de Bruxaria em Castletown, na Ilha de Man. Eu apresentei Sérgio Maluff ao Alquimista e ambos desempenharam um papel importante na Loja Nu-Isis. Isis é a deusa Egípcia da Natureza ou manifestação, e Nu, ou melhor, Nu-Isis (às vezes conhecida como a Isis Negra) é o símbolo do sangue, a base da manifestação. Seu tipo Hindu é a deusa Kālī, a Deusa do Tempo, a Deusa Negra que representa o ciclo dual da Duração e Destruição.

Em 2004 conheci uma mulher chamada Lucila, que havia pertencido, recentemente, a um coven de bruxas da linha de Gardner formado por Sérgio Maluff. Tendo falhado na sua busca espiritual como uma sacerdotisa do Mar e da Lua, ofício pelo qual ela havia se sentido instintivamente chamada, buscou e teve admissão a Loja Nu-Isis, onde ela esperava encontrar escopo para o desenvolvimento de seus poderes latentes.

Lucila era uma mulher alta de aparência curiosamente escameada, uma impressão transmitida por seu longo cabelo ondulado que se prendia a ela como alga marinha. Na noite do episódio em questão, ela deitou-se sobre um altar que se encontrava sob uma imagem de Nu-Isis desenhada por Austin Osman Spare, a qual nós havíamos colocado como tela de fundo no Templo da Loja.

Deve-se explicar que Sérgio Maluff havia feito exceção à deserção de Lucila de seu culto das bruxas e estava projetando uma corrente maligna de pensamentos em direção a Loja, em geral e a mim mesmo em particular. Ele chegara ao ponto de induzir um um grupo de ocultistas a publicar uma carta na qual ele expressava sua desaprovação acerca da Loja Nu-Isis e suas atividades. Por detrás das cenas, contudo, ele havia tomado providências mais drásticas se aproximando do Alquimista, a quem ele pediu para preparar um talismã para «restituir a propriedade furtada ao seu devido lugar».[1] O Alquimista, naturalmente, não tinha ideia de que Lucila era a propriedade furtada em questão. Ele estava sempre disposto a obsequiar seus colegas e no devido curso dos acontecimentos Maluff adquiriu seu talismã.


Lucila (Adana Trynandara) na Consagração da Isis Negra, ritual no qual a Loja Nu-Isis e seus membros foram atacados por uma criatura elemental.


Na noite em questão Lucila estava participando de um ritual secreto da Loja Nu-Isis; ela permaneceu inerte sobre o altar esperando encarnar o Espírito da Isis Negra. O ar estava espesso pela utilização de um incenso composto de gálbano, mirra, estoraque e olíbano, que formavam a base de um preparado especial que continha o suco da lua ou fluido menstrual. Ele se exalava em ondas aéreas não naturalmente aquecidas até o teto de cintilante de estrelas. Figuras vestidas em estolas violetas circumbulavam Lucila enquanto ela permanecia extasiada e foi durante este intervalo entre as invocações que um incidente não esperado ocorreu. Ao invés da descida mágica da Deusa ocorrer, outro fenômeno completamente diferente começou a se manifestar. Seu início foi percebido após a precipitada queda na temperatura. Lucila se encontrava sentada em postura completamente ereta enquanto olhava fixamente a janela na parede oeste do Templo, que ainda era ocultada por uma pesada cortina negra. Ela nos informou posteriormente que as cortinas se dispersaram em um gélido vento soprou em sua direção e com ele um pássaro sombrio precipitou-se no Templo e – com suas grandes garras palmadas – suspendeu-a no ar, através do teto noite adentro. Embaixo de seus pés ela viu tetos cobertos de neve. O voo continuou até que se aproximaram de uma estrutura parecida com um cais quando o pássaro começou a perder altitude. Ela lutava contra a criatura com toda força de sua vontade, e fora lançada de volta sobre o altar como uma pedra.

Na realidade Lucila não havia levitado fisicamente; a maior parte de sua terrificante experiência ocorreu no astral. Porém, o peitoral da janela no oeste misteriosamente se encontrava cheia de pedras de granizo e mostrava sinais inconfundíveis de marcas feitas por uma espécie de garras que arranharam a tinta negra da vidraça. Entre as pedras de granizo havia uma substância lodosa com um cheiro forte de maresia, pululante, como se estivesse respirando!

Quando eu descobri que o Alquimista havia confeccionado um talismã especialmente preparado para restituir a propriedade furtada ao seu devido lugar, eu reconheci as mãos de Maluff por trás da trama. Eu perguntei ao Alquimista a qual tipo de elemental ele havia consagrado o talismã e ele descreveu-o indiferentemente como um «tipo de coruja anfíbia com asas de morcego e as garras de uma águia».

Lucila pertencia indubitavelmente as grandes profundezas e todos os sinais sugeriam o fato: sua aparência – que lembrava uma sereia de maneira tanto obscura; sua convicção de que era uma sacerdotisa da lua e do mar e a substância salina depositada no peitoral da janela. O Alquimista havia infalivelmente convocado o elemento apropriado. Ele conhece o segredo para suscitar tais elementais através do desenvolvimento e aprimoramento um sistema utilizado por sua linhagem mágico-ancestral durante séculos. Comumente, ele visualiza determinadas formas animais e – sendo pictográfica a linguagem do subconsciente, não verbal – cada forma representa um poder correspondente no oculto mundo das causas. É necessário somente «plantar» um sigilo apropriado e de maneira apropriada para que ele desperte sua contraparte na psique. Ressurgindo das profundezas ele emerge, às vezes mascarado em alguma forma animal, para realizar a ordem do feiticeiro. Estas ou considerações similares subjazem aos contos de bruxas e seus espíritos familiares, os quais usualmente apareciam em formas bestiais e que são em efeito uma extensão do mágico poder das bruxas. A imagem popular da mulher decrépita e seu gato, rato ou coruja é a interpretação não-iniciada deste mecanismo oculto. Os sacerdotes-magistas do antigo Egito eram profundamente versados na ciência da ressurgência atávica. Suas deidades com cabeça de animal ou forças elementais eram símbolos sensientes usados para explorar e em última análise controlar mundos invisíveis: o Amenta, Hades ou Inferno. Em termos da psicologia moderna, o Subconsciente.



Vem aí uma narrativa do lado noturno: O Espírito Maligno da Empalha Cães. Trata-se da história de uma entidade qliphótica engendrada no plano físico, caminhando entre a legião dos vivos assombrando, vampirizando e aterrorizando a mente de incautos. Uma entidade capaz de sugar a energia psíquica de qualquer despreparado.




[1] Esta frase aparece nos antigos grimórios e era um motivo muito comum para o lançamento de feitiços.

Um comentário:

  1. Uma dúvida Fernando, o Elemental tem que completar sua missão para ser dissolvido? Nesse caso desconhecendo o desfecho da querela com o wicano e supondo que a origem da entidade seja desconhecida ela poderia ter saído do "controle" dele, tornando-se uma larva astral, sendo que o talismã foi confeccionado por terceiros etc?
    Desculpe qualquer imprecisão e confusão, sou um iniciante, mas seus escritos ajudam muito a esclarecer diversas questões, continue com o ótimo trabalho de divulgação!

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