domingo, 21 de setembro de 2014

A Dupla Voz por trás de Liber AL




O Livro da Lei transmite diversas vozes ou doutrinas, às vezes distintas, mas mais frequentemente equivocas, disputando-se umas com as outras por trás da máscara do Hórus cabeça de falcão.

No Liber AL pode-se traçar três mitos idênticos competindo por expressão e a voz resultante permanecerá confusa e manchada a não ser que sua linguagem seja compreendida em relação aos estratos de mitos específicos de onde ela originou. Eu mostrei em livros anteriores que as deidades mencionadas no AL – Had, Hadit, Ra-Hoor-Khuit, Hrumachis, Hoor-paar-Kraat, Heru-ra-ha etc., – são formas da criança Seth, a primeira divindade masculina reconhecida e que fora tipificada como a Estrela-Cão. Embora primeiro como macho, ele era o oitavo no corpo das deidades estelares representadas pela Deusa das Sete Estrelas. Seth formou a culminação, o mais elevado ou oitavo em relação à Mãe estelar, Tifon (posteriormente Nuit) representada pelas sete estrelas da Grande Ursa. Este simbolismo é primordial e fundamental para todos os ciclos de mitos conhecidos pelo homem e não há como fugir do fato que no antigo Egito – onde o mito original foi preservado monumentalmente em sua forma mais pura – Seth fora o primeiro Deus verdadeiro (distinto da deusa) a ter sido adorado.

Os cultos de Seth supriam os tipos míticos sobre os quais AL foi fundado. Crowley, com sua ênfase no aspecto solar deste deus, um aspecto que emergiu em um período posterior nos ciclos dos mitos da antiguidade, obscureceu consideravelmente as questões reais levantadas pelo livro.

A voz predominante no AL é a voz de Har, o filho da mãe, a deusa Tifoniana das sete estrelas que alcançou no Har sua apoteose ou elevação; pois como o manifestador dos sete, ele era o oito ou o mais elevado e o «um em oito»,[1] a estrela no sul[2] que anunciava os Sete Great Ones no norte. No simbolismo teológico ele veio para tipificar a deidade masculina primordial nos céus porque como o deus do sul ele representava a dianteira do Espaço, assim como Tifon-Nuit, sua mãe, representava a deusa do norte. Crowley, cuja psicologia o dispôs para aceitar somente este último, o aspecto solar do culto, estava no início inadequado para o cultivo de uma doutrina que se relacionava primariamente ao deus pré-monumental dos Shus-en-Har. Em um sentido estritamente mágico os Shus-en-Har, ou devotos de Har, eram os «servos da Estrela & da Cobra»,[3] i.e. da Corrente Ofidiana em sua fase estelar e pré-solar.


Kenneth Grant
Outer Gateways, Capítulo 4. Skoob Books, 1994.



[1] «Eu sou oito, e um em oito». AL II: 15.
[2] A Estrela-Cão.
[3] AL II: 21.

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