domingo, 21 de setembro de 2014

Espíritos & Forças



Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori


A crença em espíritos e seres sobrenaturais, sob várias concepções, tem sido comum aos homens em todas as épocas e em todo o mundo: este artigo refere-se a essas entidades ou forças em termos da moderna teoria Ocultista. Entre os universalmente reconhecidos, e mais temidos, estão os espíritos dos mortos, e alguns Ocultistas acreditam que a primeira consciência de um mundo dos espíritos se deu quando o homem primitivo, um sensitivo natural, observou as aparições ou duplos dos mortos. Ele os temia e propiciava porque eles rondavam a Terra em busca de renovadas formas de vida. Sendo intangíveis, exigiam formas sutis de alimentação, como as emanações do sangue recém-derramado, onde ainda permanecia o elemento vital. Isso levou a uma antiga associação mental entre as idéias de espíritos, morte, sede de sangue e vampirismo.

Os espíritos dos mortos eram portanto propiciados com sacrifícios de sangue e a fumaça de oferendas queimadas. Que o sangue é a fonte da vida, ou espírito, é uma crença extremamente antiga e generalizada. Pode estar por trás do nome dado ao primeiro homem no Gênese, pois Adão pode ser literalmente interpretado como significando «terra vermelha», ou, na verdade, sangue coagulado, ou carne. Também segundo a tradição judaica, quando o Rei Salomão, o protótipo do Mago, expulsou os espíritos que invocara, eles fugiram para o Mar Vermelho e lá se afogaram, o que é uma forma de dizer que foram reabsorvidos em sua fonte.

No antigo Egito, a base da vida era representada pelo ankh, que tem a forma de um aro, nó ou laço, e tem-se conjeturado que se baseou na faixa de tecido com nós que formava a primeira roupa necessitada pela mulher após o início da puberdade. Foi a natureza feminina que deu origem ao signo ankh, quando o espírito foi igualado ao sangue gerador de vida da mãe, e nele baseado. O signo ainda sobrevive em forma estilizada como o signo astrológico de Vênus, deusa do amor e manifestação.

Um conceito diferente e posterior atribuiu o espírito ao ar, ou alento. No Gênese, por exemplo, Deus sopra em Adão para dar-lhe vida, e há paralelos em muitas outras tradições. A transição do sangue para o alento, ou, em termos simbólicos, da água para o ar como fonte de vida e veículo do espírito, está por baixo da mudança do sacrifício de sangue para a queima de incenso. Na China, até hoje, a fumaça do incenso é conhecida como o fragrante repasto dos espíritos.

A propiciação dos espíritos dos mortos evoluiu inevitavelmente para a adoração dos ancestrais. Depositavam-se oferendas nos túmulos, realizavam-se rituais e consultavam-se os espíritos ancestrais antes de atividades importantes. Esse culto dos mortos atingiu sua apoteose na religião do antigo Egito, onde os «mortos» eram julgados infinitamente mais vivos que os seres que povoavam a Terra. A múmia, longe de ser uma imagem de inércia última, era um símbolo de consciência eterna, do espírito que reside no Amenta, o submundo, ou a «terra da eternidade». No Amenta, ele se purgava de todo desejo de rondar a terra superior e seus prazeres, antes de ascender ao céu como um espírito glorificado, na presença de estrelas que nunca se põem, no «céu da eternidade».

Estas e algumas outras estrelas eram tipificadas na terra por pássaros, feras e répteis, que se acreditava possuírem poderes sobre-humanos. Eram esses poderes, e não os animais, que se deificavam e identificavam com determinados corpos celestes. Certas criaturas que «enxergam no escuro» — por exemplo, o chacal, o gato, a coruja — eram assimilados a determinadas estrelas e planetas, que então se concebiam como concentrando a influência representada pelo animal, e este era considerado como a «forma divina» ou o veículo de sua influência. Uma das formas divinas de Anúbis, que guiava as almas nas trevas do submundo, era o chacal, ou cão do deserto. Sua constelação era o conjunto de estrelas hoje conhecidas como Canis Major, e seu veículo planetário, Mercúrio.

A forma divina de Sekhmet, a deusa do prazer sexual e da bebida embriagante, era a leoa, típica do calor solar em sua fase feminina, que, como leão sem juba, ela representava. Sekhmet pode portanto ser interpretada como o poder do sol em seu aspecto de fermentação e estro, sendo seu aspecto mais delicado formulado como a deusa Bâst, cuja forma divina era o gato, e cuja imagem celeste era a lua. Quanto aos seus aspectos feroz e suave, Sekhmet e Bâst tinham em grande parte a mesma relação entre si, no Egito, que Kālī e Bhavanī na Índia.

Assunção de Formas Divinas

As orações ou invocações religiosas, não eram dirigidas ao animal, mas à divindade, ao poder especifico, que a criatura representava. Os Sacerdotes-Magos Egípcios buscavam adquirir esse poder, mesmo que temporariamente, simulando a forma da fera que o possuía. Faziam isso assumindo astralmente a forma divina deles, e usando fisicamente os chifres, pelos ou a pele do animal. O processo é conhecido para os iniciados como a Fórmula do Macaco Divino, porque a mímica ou macaqueamento do deus tinha profundo efeito sobre a psicologia do Mago, despertando poderes adormecidos vedados nas camadas pré-humanas da consciência.

O homem evoluiu dos animais, e portanto naturalmente, embora sem o saber, incorpora esses poderes. Uma das formas divinas de Thoth, a divindade egípcia da transformação, é o macaco, porque este é o elo entre o homem e o animal. Entre outras coisas, representa o Mundo do Poder Mágico, segundo a teoria de que as primeiras formas da expressão vocal humana se basearam em suas primitivas articulações.

A vaca era uma forma divina de Hator, a deusa da terra egípcia, cuja estrela, Sothis, anunciava a inundação anual do rio Nilo, que trazia fertilidade ao Egito. A deusa do céu, Nuit, era descrita como uma multidão de estrelas, consideradas elas próprias símbolos elementais dos espíritos humanos que tinham alcançado a beatitude. Mas há aqui implicações quando levamos em consideração O Livro da Lei. O assunto foge a necessidade deste texto. Hator e Nuit eram retratadas no interior dos esquifes que continham os mortos. Hator, no chão ou fundo do esquife, acolhia o espírito dos mortos no Amenta. Nuit, curvada sobre o cadáver na tampa do esquife, acolhia-o finalmente no paraíso último, simbolizado pelas estrelas circumpolares que nunca se punham ou morriam. A múmia, estendida horizontalmente, representava a sombra ou fantasma no Amenta, ainda presa por desejos à existência mundana. Quando a múmia era posta de pé, durante os ritos sagrados, representava o espírito despertado ou ressuscitado, exaltado até os céus.

Espíritos Guardiões

Dois componentes sutis do organismo humano, reconhecidos no Ocultismo, são representados pela múmia prostrada e a múmia de pé, respectivamente: a sombra astral e a inteligência espiritual. Esses mesmos componentes voltam a aparecer no antigo conceito do Demônio sedutor e do Sagrado Anjo Guardião que acompanham cada ser humano pela vida. O último é o Espírito de Luz, e o primeiro, sua Sombra e Gêmeo, o Espírito das Trevas. A sombra negra obcecava a imaginação primitiva e engendrou as lendas do lobisomem, do vampiro e do gênio do mal. O espírito luminoso gerou as crenças em anjos, «anjos da guarda», os gênios do bem que guiam a humanidade e inspiram suas mais louváveis criações.

O Sagrado Anjo Guardião era um conceito comum a todos os grandes cultos da Antiguidade. Os egípcios referem-se a ele como Asar-Un-Nefer «Eu mesmo sendo Perfeito»; os chineses chamam-no de a «Grande Pessoa»; os hindus conhecem-no como Īśṭadevatā ou «deidade escolhida»; os qabalistas chamam-no de Jechidah, o «Eu Superior»; os budistas o denominam Ādi-Buda, a «Raiz da Luz ou Iluminação»; os gnósticos referem-se a ele como o Augoeides, o «Eu Luminoso». Mais recentemente, os teósofos popularizaram a idéia do Sagrado Anjo Guardião como o Vigilante Mudo ou o Grande Mestre.

O culto do Sagrado Anjo Guardião atingiu sua apoteose na literatura mágica no «O Livro da Magia Sagrada que Deus deu a Moisés, Aarão, Davi, Salomão e outros Santos Patriarcas e Profetas». Esse Grimório, ou manual mágico, supostamente escrito por Abraão o Judeu e por ele entregue ao seu filho Lamech, em 1458, inspirou Bulwer Lytton, Éliphas Lévi e Aleister Crowley, entre outros. Crowley descreveu-o como «o melhor e mais perigoso livro já escrito» e acrescentou: «É de longe o mais convincente documento medieval mágico existente.» Foi traduzido para o inglês como O Livro da Magia Sagrada de Abramelin o Mago por MacGregor Mathers, um adepto da Golden Dawn.

Dion Fortune, que compartilhava da opinião de Crowley sobre o Livro, descreveu o sistema de magia de Abramelin como o «mais forte e completo que possuímos. O operador, após um prolongado período de purificação e preparação, evoca não apenas as forças angelicais, mas também as demoníacas.» E ela diz que muita gente queimou os dedos ao usá-lo.

Os quadrados mágicos, incluídos na terceira parte do livro, contêm as palavras de força e nomes de espíritos sombrios como Kobha, que aparece em forma de macaco; Alampis, que torna a pessoa invisível; Catan, que arranja adultérios; Qaqah, que destrói cidades. Os próprios quadrados, inteiramente à parte do seu uso pelo operador, são tidos como impregnados de uma vida demoníaca que atua através deles automaticamente. Segundo Crowley, os talismãs de Abramelin «são tão fáceis de explodir como iodeto de nitrogênio, e bem mais perigosos.» Ele cita o caso de um seu amigo, o Capitão J.F.C. Fuller, que certa vez marcou o lugar que estava lendo com a conta do açougueiro. Dois dias depois, o açougueiro estava trabalhando; a faca escorregou, trespassou-lhe a coxa e matou-o. Como Fuller observou na época: «Pode ter sido apenas coincidência, mas é igualmente ruim para o açougueiro!»

Philip Heseltine, compositor musical mais conhecido como Peter Warlock, evocou certa vez um Demônio de Abramelin para induzir sua esposa a voltar para ele. Fez isso desenhando o quadrado apropriado em seu braço. Foi simplesmente mais que eficaz; a mulher voltou e ele se suicidou logo depois.

O sistema de Abramelin só pode ser usado com segurança por um Adepto que tenha concluído com sucesso o curso preliminar de purificação espiritual que resulta na «obtenção do Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião». Em outras palavras, o duplo astral, a sombra negra, deve ter sido transformada e exaltada ao status de entidade espiritual.

Formas e Elementais

A capacidade de operar conscientemente no mundo espiritual é fruto de uma cultura mística concentrada, e de um autêntico «espiritismo» originado nas atividades dos mortos glorificados, que demonstraram imortalidade aparecendo a espíritos afins na Terra. Mas o termo «espiritismo» nem sempre é utilizado no sentido correto, e não há nada de muito espiritual em relação à maioria dos visitantes espectrais. A verdadeira ciência dos espíritos deve portanto ser diferenciada do tráfico com as simples formas físicas dos mortos. Estas incluem-se no folclore qabalístico num grupo de entidades conhecidas como Qliphoth; suas aparições são enganosas e suas palavras falsas; estão diretamente relacionadas com espíritos demoníacos que, como o vampiro, se alimentam da decrescente substância vital que permanece nos mortos recentes. Como as sombras dos que acabam de morrer estão em decomposição, atraem os habitantes larvães dos Qliphoth; portanto, não é bom despertar essas sombras do torpor em que seu processo de corrupção as imerge, a não ser por um Adepto treinado na arte da necromancia, própia ao que chamamos no Ocultismo de Túneis de Seth, uma rede de túneis interconectados nas costas da Árvore da Vida.

Agir conscientemente na sombra, ou corpo astral, é uma das mais antigas práticas mágicas, e os primeiros médiuns foram aqueles que conseguiram controlar e projetar o corpo sutil. Tais pessoas eram – e em algumas sociedades primitivas ainda são – grandemente reverenciadas por sua capacidade de comunicar-se com espíritos e com elementais, ou espíritos não-humanos.

Os elementais, na teoria Ocultista, são de várias espécies, das quais três particularmente importantes. A primeira são os espíritos ou essências sutis dos elementos água, ar, terra e fogo. Esses espíritos foram classificados como ondinas, sílfides, gnomos e salamandras. A segunda são os espíritos elementais das árvores e bosques, «driades», lagos e poços «naiades», montanhas e cavernas «ctonianos», e outras características naturais. O terceiro grupo, e talvez o mais importante do ponto de vista da magia prática, são as energias da mente subconsciente, que adquirem forma sensível quando adequadamente evocadas. Representam os poderes da consciência em épocas anteriores à sua incorporação em forma humana. Pertencem, portanto, à natureza dos Atavismos, e são conjuradas por Adeptos que desejam exercer atividades sobre-humanas; são então conhecidas como servidores, famuli ou espíritos familiares.

Os elementais não devem ser confundidos com os elementares, que Madame Blavatsky descreveu como as «almas desmaterializadas dos depravados; essas almas tendo em algum momento anterior à morte se separado de seus espíritos divinos, e desse modo perdido a chance de imortalidade.» Os elementares representam a sombra negra divorciada de sua contraparte de luz ou Angélica.

Formas Mentais

A supressão do instinto natural imposta pelas tendências ascéticas na Europa medieval deu origem a um lúgubre complexo de idéias sobre monstruosidades astrais. Íncubos e súcubos, ou demônios sexualmente insaciáveis, gerados por poluçôes noturnas, obcecavam os moradores de comunidades religiosas e atacavam sexualmente devotas insatisfeitas. Paracelso menciona vários grupos desses demônios, um dos quais consiste de elementares, ou almas de pessoas mortas que têm relações sexuais com homens ou mulheres amorosamente dispostos. Paracelso afirmava que feiticeiras e bruxas podiam gerar íncubos e súcubos, ou projetar de si os organismos necessários ao gozo consciente do prazer sexual com seres humanos adormecidos de qualquer um dos sexos. O último tipo de demônio, que ele chama de aquastor, é criado manipulando-se na imaginação a substância astral para que assuma várias formas mágicas: um elemental para contatos sobre-humanos, um íncubo ou súcubo para o prazer sexual, um vampiro para a satisfação da sede de sangue, e assim por diante. Segundo Franz Hartmann, em seu A Vida de Paracelso, «essas formas imaginárias, mas apesar disso reais, podem obter vida da pessoa em cuja imaginação são criadas, e em certas circunstâncias podem mesmo tomar-se visíveis e tangíveis.»

A vontade humana aliada a uma imaginação brilhante e controlada, ou faculdade de criar imagens, pode engendrar vários tipos de formas mentais. Alguns ocultistas afirmam que toda idéia possui uma forma característica própria. Mas embora se exija muito pouco esforço mental para sugerir idéias ou pensamentos a outras pessoas, sem o uso de um meio físico é preciso uma grande capacidade de concentração para transferir uma verdadeira forma mental à mente de outra pessoa.

Annie Besant e C.W. Leadbeater, dois teósofos infatigáveis, colaboraram num livro intitulado Formas Mentais, no qual sustentam que todo tipo de pensamento tem sua cor característica e seu modelo linear, dependendo do raio de vibração que a informa. Pensamentos lascivos, raivosos, amorosos, ambiciosos, avarentos, idealistas têm cada um seu próprio veículo ou forma mental. O problema do Mago é como animar essas formas mentais e projetá-las nas mentes de outras pessoas para causar os resultados desejados. A resposta com certeza está na mesma direção que a da animação das formas divinas praticada pelos antigos Egípcios.

Um dos mais curiosos tipos de força oculta é o fenômeno conhecido como poltergeist, palavra alemã que significa um «fantasma barulhento». O poltergeist é tido como responsável por violentos distúrbios como móveis que voam, queda repentina e inexplicável de espelhos, quebra de janelas, despedaçamento de porcelanas; tudo sem qualquer agente ou propósito evidentes. Em muitos dos casos extensamente documentados, entre os moradores afligidos há um adolescente, o que sugere ser o poltergeist um reflexo dinâmico de energia sexual supérflua.

Essas forças invisíveis às vezes se manifestam sob a forma de ectoplasma expelido pelo corpo humano. É em geral emitido de indivíduos de constituição peculiar, quando em estado de transe ou em outra condição anormal. O ectoplasma é uma substância semelhante a um vapor gelatinoso, repelente à visão e ao toque. Supõe-se que os espíritos o usam como base para a materialização, e sem dúvida às vezes o fazem, e os resultados foram fotografados. Essas fotografias têm sido apresentadas como prova da existência de espíritos desmaterializados, mas como a imagem impressa do plasma tem forma humana, pode simplesmente significar a existência do duplo astral quando não de alguma forma mental projetada e materializada do médium ou de um de seus clientes.

Por outro lado, forças sub-humanas ás vezes projetam suas emanações no ambiente da humanidade através de ectoplasma, caso em que a substância expele um odor de esgoto mal-cheiroso. Arthur Machen, que tinha profunda compreensão das fases mais escuras do Ocultismo, descreve em sua história de horror, O Romance do Selo Negro, a intrusão na vida quotidiana de forças ocultas que se manifestam através das emanações ectoplasmáticas de um idiota.

Demônios

Trata-se de uma questão bastante diferente da verdadeira possessão, cujos exemplos ocorrem no Vodu, na Umbanda e em sociedades primitivas de outras partes do mundo. Na Europa medieval, atribuía-se em geral as perturbações mentais à possessão por demônios, e a cura era um trabalho de exorcismo. A crença em demônios e bruxas era disseminada, e o destino reservado aos acusados de bruxaria ou tráfico com demônios era serem queimados na fogueira, como no caso de Joana d’Arc, que se negou a admitir que seus contatos espirituais eram demoníacos. Ao mesmo tempo, os mistérios da demonologia foram explorados, seus territórios mapeados, e seus habitantes explicitamente identificados.

A palavra «demônio» passou a significar uma entidade malévola, inclinada à destruição, ou no mínimo ao molestamento da humanidade. Mas a palavra vem do grego daimorn, que significava qualquer espírito, bom ou mau, e alguns dos celebrados manuais de demonologia tratam de espíritos bons e maus igualmente.

Muitos dos Grimórios, ou manuais de magia, contêm extensas listas de espíritos, que se referem a distintas hierarquias de reis, duques, príncipes, prelados, marqueses, e assim por diante. O Lemegeton ou Chave Menor de Salomão, relaciona os nomes, funções e aparência visível dos setenta e dois espíritos que o Rei Salomão trancou dentro de um vaso por causa do desmedido orgulho deles. Segundo uma tradição, ele depositou o vaso num profundo lago na antiga Babilônia, e logo depois os babilônios, pensando ter descoberto um tesouro, retiraram o vaso, quebrando o lacre. Os espíritos voaram para fora, com suas legiões atrás. Todos recuperaram suas moradas originais no mundo espiritual, com exceção de Belial, que entrou numa certa imagem e recitava oráculos todas as vezes que se ofereciam sacrifícios a ele.

Logo se descobriu que os demônios obedecem a leis tão definidas quanto as que governam as ações humanas. Os Magos diziam compreender essas leis e passaram a criar rituais de acordo com elas. Em um certo sentido, o iniciado Mago medieval era um cientista; seu laboratório era um Círculo Mágico; seus aparelhos, Instrumentos Mágicos que ele modelara segundo normas de um cânone preciso, derivado do constante intercurso com habitantes de esferas transmundanas.

Nenhum demônio podia ser evocado com segurança se não estivesse confinado no «Triângulo da Arte», traçado fora do Círculo Mágico que protegia o Mago. Ele só pisava fora dali por sua conta e risco. Se por vaidade ou promessa de satisfação de desejos terrestres, era convencido a abandonar o círculo, a consequência era a obsessão ou a morte repentina. Assim que as palavras malévolas do demônio funcionavam, a forma atraente desfazia-se, e em seu lugar, zombando do Mago, surgia a forma externa da fraqueza que causara sua desgraça.

Essa crença em que o demônio objetivava algumas qualidades internas do operador nos possibilita reconhecer a verdadeira natureza desse tipo de Magia — um sistema de controle da consciência. A pesquisa moderna mostrou que o cérebro se divide em regiões específicas, que governam formas de atividade especializadas. O estímulo de uma determinada zona produz experiências e sensações específicas. Quando a fórmula mágica dos Grimórios é compreendida nessa luz, surge um método lógico para evocar poderes latentes da consciência, que são transmitidos através de obscuras regiões do cérebro. Por um habilidoso uso de odores, sons, cores, e outros estimulantes sensoriais, os Magos conseguiram canalizar essas regiões. Os símbolos, selos e monogramas pessoais dos demônios, que os Grimórios fornecem, não são meros desenhos decorativos, mas vetores de potente força oculta para animar as entidades que eles representam.


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