segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Significado da Doutrina da Mão-Esquerda ou Kaulamārga




Fernando Liguori


Como um corolário lógico para a segunda característica comum a todas as formas de tantrismo, i.e. a atitude positiva em relação à vida e ao mundo, assim como a filosofia de se transformar o gozo mundano «bhoga» em um meio de auto-realização, o que se segue é uma introdução – em palavras claras – ao que denominou-se doutrina Kaula da mão-esquerda «vāma-sādhanā»,[1] no qual os aspirantes espirituais fazem uso do Ritual dos 5Ms ou pañca-makāra: o consumo de carne «māṃsa», vinho «madya», a cópula sexual orientada «maithuna», grãos tostados «mudrā» e peixe «matsya» com o objetivo de mudar sua atitude para com estas substâncias e realizar o sāmarasya[2] de Śiva e Śakti no interior de cada kaulika.[3] Aquilo que é falso e egoisticamente tido como profano e portanto ignorado pela ortodoxia hindu, é utilizado na prática espiritual da Tradição Kaula «kaula-sādhanā» como objeto de adoração. O Tantra ofereceu esta prática para o propósito especial de libertar a mente do aspirante «sādhaka» das falsas distinções de bem e mal artificialmente criadas pela sociedade.

O Tantra enfatiza não a utilização física dos 5Ms, mas a mudança de atitude perante os elementos que compõem o ritual. Por exemplo, os praticantes da tradição dakṣṇācāra, que seguem a linha rājasika-sādhanā, substituem as cinco coisas proibidas – ou 5Ms – por outros elementos.[4] Portanto, uma pessoa pode mudar sua atitude para com estes assim chamados elementos profanos sem mesmo utilizá-los, seja no contexto ritualístico ou não. De fato, a utilização dos 5Ms é expressamente proibida – segundo a tradição – ao paśu «homem ordinário dominado pela rotina e pela cobiça» que ainda não mudou sua atitude perante eles. O Kulārṇava-tantra (II: 124) diz: A pessoa ignorante «paśu» não deveria cheirar, ver, tocar ou beber vinho e carne; o uso [destas substâncias] é eficaz apenas aos kaula-sādhakas.

Entre os 5Ms do caminho da mão-esquerda, o sādhanā que envolve a união sexual «maithuna» é o mais significante, pois a transformação ou transmutação da energia sexual desempenha o papel mais importante no desenvolvimento saudável das faculdades internas do sādhaka. Este sādhanā muito mal compreendido – e muito usurpado – requer um espaço considerável para uma explanação plena de seu significado. Eu discuti detalhadamente esse sādhanā em meu artigo Kaula Sādhanā & a Sublimação Sexual. Aqui, uma breve referência a este aspecto da prática será suficiente. De acordo com o Tantra, desejo «kāma» é a principal forma de energia «śakti» nos seres humanos. Não é possível, muito menos desejável, destruir essa energia. A energia libidinosa «kāma-śakti», sublimada ou canalizada de forma a fluir para canais mais elevados, pode ser direcionada para mais alta expressão de amor, criatividade estética e auto-realização. Portanto, o Tantra, conforme exposto pela doutrina Kaula, apresenta um método ou yoga para sublimação deliberada da energia sexual.

Este yoga tântrico capaz de sublimar as energias sexuais, resumidamente, consiste de dois princípios. Primeiro, o sādhaka deve cultivar uma atitude saudável em relação à atividade sexual que, para ele, deve ser algo sagrado e divino. Esta mesma atitude deve ser cultivada em relação a sua parceira sexual «sādhika, nāyikā, dūtī, dombī, suvasini etc.) e seu órgão sexual «yoni». Em outras palavras, o sādhaka deveria ver sua parceira como a encarnação divina da Śakti; a sādhika, por sua vez, deveria ver seu parceiro como a encarnação divina de Śiva. A adoração fálica do śaivismo – a adoração do linga como um símbolo divino – também se destina a cultivar esta atitude. Essa mudança de comportamento em relação ao sexo serve como um antídoto para neutralizar a sensação venenosa de que o sexo é pecaminoso e perigoso. Este é um passo essencial no processo de sublimação sexual. Segundo, o sādhaka deve sentir um intenso amor por sua parceira sexual e executar o coito «maithuna» como uma expressão deste amor, e não uma atividade sexual com gozo deliberadamente sensual «bhoga». Através da prática ritualística contínua, é possível separar a atividade sexual de sua sensualidade instintiva e torná-la um veículo da verdadeira e mais elevada expressão do amor. Isso, por um lado, aumenta a alegria sexual e por outro, transforma o sexo em amor. A prática do amor em direção ao parceiro sexual é um meio de se dominar o sexo por sublimação.

Os tântricos vaiṣṇavas, contudo, utilizam apenas o maituna, o intercurso sexual, evitando os outros makāras, especialmente a carne e o vinho em suas práticas. Eu me refiro a Tradição Sahajiyā. Isso se dá ao fato de que a tradição vaiṣṇava é inclinada a conduta puritana, associando o consumo de carne ao conceito de ahiṃsā «não-violência». Neste sentido, sua conduta também inclui alimentação pura «sattivica», evitando alimentos impuros «tamasicos». Vinho e carne são um exemplo. Por um lado, enquanto o adepto vaiṣṇava se encontra inclinado ao ideal de pureza sexual e celibato no usual sentido dado ao termo, não retirando o sexo da lista puritana, como estamos acostumados a ver, por outro, o tântrico vaiṣṇava não está capacitado a adotar a utilização de carne e vinho, muito provavelmente porque ele ainda se encontra condicionado pelas proibições vaiṣṇavas. Esta atitude discriminativa adotada pelos tântricos vaiṣṇavas pode obstruir o processo de ascensão completa acima das barreiras egoístas e artificiais do bem e mal. Os sādhakas das tradições tântricas cuja orientação é śaiva-śakta não possuem esta desvantagem ao utilizarem todos os cinco makāras.

A utilização dos quatro makāras, i.e. o consumo de carne (que simboliza o controle da palavra), vinho (que simboliza o conhecimento intoxicante), grãos tostados (que representam à conquista do estado de concentração e o domínio sobre a mente) e peixe (que simboliza o controle das correntes vitais – vāyus – que fluem pelas nāḍīs do sādhaka) cumprem a função de eliminar a distinção artificial e egoísta entre o divino e o profano, entre o bem e o mal. Mas a cópula sexual (que representa a conquista das vibrações primordiais do ato de criação), além de ser benéfica acima de qualquer caminho, cumpre a tarefa de sublimar as energias sexuais dinamizadas pelos outros makāras. Os ṛṣis[5] tântricos perceberam que, sendo a energia sexual sublimada, maravilhas poderiam ser feitas e é por isso que o tantrismo vāmācāra – e em especial a Escola Śrīkulācāra[6] – coloca ênfase neste aspecto especial do sādhanā. Portanto, em relação aos outros makāras, o maithuna tem especial relevância.

Abhinavagupta (975 – 1025 d.C.), um dos maiores adeptos tântricos da Índia, fez uma considerável modificação nas práticas da Tradição Kaula, retirando o consumo de peixe e grãos tostados do maior ritual desta escola, denominado cakra-pūjā, dando ênfase ao consumo de carne, vinho e a cópula orientada.





[1] Vāma significa esquerda. Sādhanā significa prática espiritual. Portanto, pratica espiritual do caminho da mão-esquerda. A Tradição Kaula (que encontra-se no ápice das escolas tântricas) foi genericamente denominada como doutrina da mão-esquerda porque o termo vāmā tanto significa mulher quanto vāma significa esquerda, uma clara referencia a posição da mulher a esquerda do homem na hora do ritual.
[2] O equilíbrio de Śiva e Śakti, os princípios masculino e feminino. No Budismo, upāya e prajñā. Frequentemente este equilíbrio é concebido em termos sexuais, mas ele é sentido dentro do próprio kaulika. A tradição tântrica ensina que a completa compreensão deste equilíbrio leva a não-dualidade.
[3] Adepto Kaula. Para uma descrição das características dos adeptos Kaulas veja Mahānirvāna-tantra, XI e Kulārṇava-tantra, II: 17.
[4] O vinho é substituído por água de coco, a carne por gengibre, os grãos torrados por arroz ou trigo, o peixe por incenso e o coito por duas espécies de flores: keravī, símbolo do linga «falo» e aparājitā, símbolo da yoni «vulva».
[5] literalmente, aquele que vê.
[6] A mais celebrada Escola Kaula ativa até os dias de hoje.

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