segunda-feira, 29 de setembro de 2014



Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Cults of the Shadow, Capítulo 5. Frederick Muller, 1975


OS MANUAIS TÂNTRICOS Shaktas estão repletos de textos que descrevem as qualidades requeridas pelas três classes de suvasini descritas no capítulo anterior. Os quatro elementos lhes são atribuídos junto a sua faculdade correspondente sensitiva. As Akarshanis são treinadas para conquistar o sentido do olfato, atribuído ao ar; os incensos e perfumes são empregados e seu organismo é saturado com as fragrâncias particulares que deverão ser emitidas durante o ritual. As Sparsha Akarshanis são escolhidas por sua conquista sobre o tato ou a sensação, faculdade atribuída ao elemento terra. É tamanha sua sensibilidade que o mais suave toque masculino lhe causa detumescência. As Rasa Akarshanis cujos fluídos menstruais são tão potencialmente energizados ao ponto de congelar o mercúrio, são empregadas pelo sadhaka para conquistar o sentido do paladar, atribuído ao elemento água; mediante a absorção de sua urina pura que é de grande valor mágico. A conquista do sentido da visão, relacionada ao elemento fogo, só pode ser efetivada por meio da Suprema Suvasini, a Grã-Sacerdotisa do Círculo que é a verdadeira encarnação da Serpente de Fogo durante o decorrer do ritual. A retroversão da visão, refletida em um sutil seguimento de apanga que manifesta a mirada oblíqua dos olhos femininos, ocorre quando ela entra em transe profundo induzido pela ascensão da Kundalini. Um mestre magista ou sumo sacerdote somente tem o poder de magnetizar o corpo da suvasini até o pico mais elevado de sua concentração para que a visão cósmica seja superior à visão humana e se manifeste a fase oracular.

A elevação da Serpente de Fogo gera o que nos manuais Tântricos é conhecido como chaaya ou sombra. Essa expressão é assinalada aos Cultos que utilizam a Corrente Ofidiana em sua fase psico-sexual para energizar esta sombra bem como no sentido de sua auréola ou duplo que resplandece como um nimbo ao redor da ascensão da Serpente de Fogo. As radiações da Serpente de Fogo são tão intensas que este resplendor ainda que seja ‘tão brilhante como um milhão de luas’, aparece como uma penumbra junto a ela. É esta aura que protege o magista contra o influxo de forças psíquicas que a Serpente de Fogo atrai como lepidópteros em uma fogueira. Também é a luz que mantém controlados os habitantes dos qliphoth que são atraídos a este vasto manancial de energia cósmica da qual uma fagulha lhes conferiria imortalidade e sustento.[1]

Em termos de fenômenos mediúnicos, a chaaya é o fantasma sombrio da mente subjetiva que assume as formas impressas sobre ela pelos membros do Círculo. Paracelso, entre outros, descreveu os efeitos enfermos causados pelas fendas nesta aura protetora.[2] Dion Fortune que fora atacada por forças qliphóticas que atravessaram sua aura, perdera tanta energia vital que esteve perigosamente enferma e somente foi salva da morte graças a Cerimônia de Iniciação em que foi admitida na Golden Dawn.[3]

No não iniciado como também no Adepto, a sombra freqüentemente assume formas sedutoras. As tentações sexuais experimentadas pelos ascetas Cristãos ocorriam devido à pesada carga sexual psico-magnética da sombra ativada pelas contorções da Serpente de Fogo, a qual se outorga alguns de seus ardores a imagens engendradas, é poderosa para criar sedutores súcubos. Ocultistas competentes já sucumbiram aos lisonjeios destes sedutores súcubos. No oriente estas sombras são conhecidas como houris; os métodos de sua evocação são laboriosamente evitados por todos exceto pelos magistas negros ou pessoas completamente escravizadas por suas tendências animais. Em seu livro Yoga Tântrico o Marquès-Rivière escreve exaustivamente a respeito dos Vamacharins, como uma das maiores autoridades ocidentais.[4] Entretanto, em uma nota de rodapé de página ele se refere a uma classe de praticantes que seriam indubitavelmente repudiados pela genuína Tradição do Caminho da Mão Esquerda: “Fui capaz de conhecer pessoalmente a absoluta depravação e os anormais apetites sexuais destes falsos yogin s. O método utilizado chama-se Prayoga, mediante o qual é possível visualizar e animar certas entidades femininas que são chamadas de súcubos.” O renomado Sir John Woodroffe em sua introdução para o The Serpente Power,[5] descreve que “Aqueles que praticam esta magia operam somente no centro mais inferior, i.e. o muladharacakra, recorrem ao Prayoga que conduz ao Nayika Sidhi, porque se produz o tráfego com espíritos femininos e outros.”

Durante o processo de ascensão da Serpente de Fogo, a sombra ou chaaya assume várias formas, a mais usualmente conhecida se assemelha ao conceito medieval de súcubo. Elas são conhecidas pelos Tântricos como apsaras dentre os quais o apsara tillotama é o supremo. Os apsaras se manifestam em um cintilante púrpura e geram uma imagem voluptuosa que acompanham os sonhos. Estas visões, sem dúvida, não podem afetar o magista cuja chaaya foi impregnada mediante alguns processos mágicos análogos ao Rito da Estrela Flamejante.[6] Outros perturbadores e sedutores da prática do yoga são os Rambha, uma incessante ‘trama’ de sonhos reverberantes que se fundem uns aos outros; o Corvashi (ou Urvashi), que são os desejos sexuais subconscientes que se exibem como lascivas houris; e a Menaka, uma deusa da fantasia e do sonho desperto de natureza exclusivamente sexual. Estes nomes são o significativo para Sombra ou Duplo, conhecida como chaaya em Sânscrito, como Urvan pelos Persas e como Corvashi nos Puranas. Ou em última referência, houri.

A sombra sobrevive à morte física do indivíduo por um tempo comparativamente longo. Vivem como os pitris ou manes, espíritos ancestrais que respondem a evocação mágica. Se a sombra é poderosamente desenvolvida e está sob o controle de um magista negro, pode ser projetada dentro da aura de uma pessoa que se encontra dormindo e obsedia-la com fantasias sexuais que podem conduzi-la a loucura ou ao suicídio. É logo retirada pelo vampiro que a dissolve e que se nutre da energia que a sombra ‘coletou’. Como esta energia é de uma natureza predominantemente sexual o vampiro chega a estar tão sobrecarregado com obsessões sexuais que o levam a sua inevitável destruição. Mas sua vida pode ser prolongada muitos anos além do lapso de uma vida normal, se convertendo após a morte em uma grande ameaça, uma vez que sua sombra já não está encerrada por muito tempo em um veículo físico.

A Kundalini participa do elemento fogo quando é despertada no centro da base. Quando se eleva através do sushumnanadi até alcançar a região da garganta, se identifica com o Sol e da garganta para cima com a Lua. Seu lugar de descanso final é o sahasraracakra, o lótus de mil pétalas na coroa da cabeça.

A profunda meditação sobre a ascensão da Serpente de Fogo induz a uma forma inebriante já que é concomitante a obter o soma desde a região lunar. O Livro da Lei, um Tantra Ocidental, dá o procedimento preciso:

Eu sou a Cobra que confere Conhecimento & Deleite e resplandecente glória, e excito os corações dos homens com embriaguez. Para reverenciar-me tomai vinho e estranhas drogas, das quais eu direi ao meu profeta, & embriagai-vos destes. Eles não deverão fazer-vos mal absolutamente. Isto é uma mentira, esta tolice contra vós mesmos. O aspecto de inocência é uma mentira. Seja forte, ó homem! deseje, desfrute todas as coisas do sentido e êxtase: não receie que qualquer Deus deverá renegar a ti por isto.

E, em outro local no mesmo texto:

Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para saltar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se Eu inclino para baixo minha cabeça, e verto veneno, em seguida é arrebatado da terra, e Eu e a terra somos um.[7]

O madya ou o vinho que intoxica é liberado quando a Serpente de Fogo obtém sua apoteose na esfera lunar.[8] O néctar é jogado para cima, inundando e permeando todo o organismo mediante o persistente uso do akunchanan. Este licor é conhecido como amrita (a ambrósia dos deuses). Segundo os Tantras, aqueles que bebem qualquer vinho exceto este são meros bêbados. Esta é a substância do Elixir da Vida que flui desde os pés da Deusa, i.e. desde o orifício genital da mulher eleita para representá-la. Este fluido está carregado com poder somente quando o akunchanam é praticado, quando a Serpente de Fogo relampeia para trás e para cima entre a região prostática e o cérebro, i.e. entre o Muladhara e o Brahmarandra.

O seguinte relato do despertar da Serpente de Fogo foi extraído do Diário Mágico de Frater Iadnamad, um membro da Ordo Templi Orientis, uma Ordem Mágica que utiliza O Livro da Lei e Liber HHH[9] como grimórios ou manuais magico-sexuais.

Depois da leitura de vários fragmentos do ‘Templo do Rei Salomão’[10] fui para cama. Imediatamente notei que as vozes dos nadis[11] eram extremamente altas e havia um ruído de fundo nada familiar sobre elas que pareciam uma combinação de focas se comunicando e o belo canto das gaivotas venezuelanas. Eu me encontrava envolvido no êxtase destes cânticos – concentrei-me neles. Eles se tornavam palpitantes e rotativos na medida em que as vibrações se elevavam e todo meu corpo foi envolvido por uma frenética explosão de prana [...].
De repente, uma chuva de fogo líquido me alcançou onde fiquei imerso em um mar de bem-aventurança. Meu corpo sutil se dobrou na postura fetal. Dhyana!![12] – o orgasmo foi e regressou inflando-me como um touro louco. Gritei em voz alta o nome de HERU-PAR-KRATH! Novamente fui estraçalhado pelas mandíbulas do êxtase. Não pude suportar e intencionalmente desci. Curiosamente não houve alucinações astrais [...]. Envolvi-me pelos meus braços e novamente o processo começou. Coloco meu Corpo de Fogo em posição ereta quando a chuva de bem-aventurança cai sobre minhas pálpebras. Com êxtase vocalizo o HAM-SA elevando a Kundalini através da espinha [...]. Eu consegui contar cinco Dhyanas desta vez [...] e o êxtase é tão intenso que a fadiga é facilmente vencida. Minha mente atordoada vacila entre o sonho. Havia algo [...] concernente a um ponto particular do cérebro que eu controlava. Estava abaixo do ponto mais alto da sutura craniana.
Em seguida, como parece ser de praxe depois de cada êxito oculto, entrei em um período de extrema dissociação e agonia.
{22 de Novembro}: Comentário SSS:[13] Excelente. Elevei a Serpente pelo Caminho de Tau. Uma grande quantidade de energia criativa fora liberada aniquilando Apep [...].[14] O corpo se estremeceu e houve violentos espasmos musculares. A energia liberada é extremamente quente e elétrica [...] uma gentil brisa de prana acariciou meu corpo.
{28 de Novembro}: O volume do nadi [vibração] foi aumentando até ser completamente ensurdecedor. Minha atenção fora deveras atraída, pois estas vibrações pareciam ser emanadas do ajnachackra e os sons foram de todos os tipos: o estridente cantar de um pássaro desesperado e uma espécie de reverberação nasal.
Introduzo no ajnacakra a forma divina de HPK[15] e contemplei um vasto e luminoso Sol.
Estava em plena harmonia da corrente que fluía através de mim. Podia sentir de maneira muito viva todos os meus cakras e o sushumnanadi.
{29 de Novembro}: Pela manha exercitei novamente SSS, pránáyáma e uddiyana bhanda.[16] No sonho ocorreu o que se segue:
Despertei pela energia da Kundalini. Desta vez era a mais violenta desde todas até agora; parecia durar horas e encontrei, chegando estar cada vez mais exausto, uma limitação interminável e uma incapacidade de parar o processo. Eu estava inerte a toda classe de experimentos ali. Simplesmente entreguei o meu corpo, já não era dono de minhas ações mesmo! Foi quando penetrei em reinos jamais vistos. Era uma viagem intensa para dentro de mim mesmo. Cada vértebra era um Grau Iniciático; cada cakra era uma catedral de iniciação a ser desvendada. Eu estava prestes a passar pela grande iniciação. Ela era a primeira das sete, mas era a mais esplendorosa visão que eu podia perceber. Era uma iniciação cósmica. Um calor extremo esquentava meu peito, minha garganta, minha cabeça parecia estar do tamanho do universo.
Tais eram as sensações mais vivas e nítidas:
a. Intensa atividade no ajnacakra.
b. O sushumnanadi incandescente.
c. Memórias nítidas de visões através do ajnacakra;
d. Ananda extremo.
e. Projeção astral com intensa clareza.
{Comentário SSS}: Um agudo espasmo de ananda em sete vértebras adjacentes no meio das costas. A sensação vívida era a de uma potente carga de energia que vinha desde o sahararacakra enquanto que o prana da inalação subia desde o muladharacakra. Isso ocorreu vagarosamente, na verdade parecia a eternidade, até que ambas as sensações se encontraram no meio das costas na direção do anahatacakra produzindo uma explosão de ardência no centro do tórax. A intensa atividade do sahararacakra e do muladharacakra aumentava a cada instante.
{1 de Dezembro}: Comentário SSS: Vibrações na parte superior do sushumnanadi. A prática constante deste exercício faz com que estes espasmos aconteçam durante todo o dia. Hoje fui capaz de contar 65 espasmos durante o dia todo.
{3 de Dezembro}: Comentário SSS: Mula Bhanda[17] espontâneo e violenta radiação de energia em todo o organismo. O muladharacakra chegou a irritar-se e o falo estava o dia todo muito ereto. Mula Bhanda correspondeu a uma sensação similar ao orgasmo. Muitas contrações musculares devido à intensa atividade no períneo e na próstata. As costas estavam quentes o dia todo.
{5-29 de Dezembro}: Comentário SSS: Durante a prática vi o ajnacakra como um sol alaranjado. A ‘realidade’ não chega a sua veracidade. Muladharacakra completamente ativo e cada vez que ele pulsa uma onda de bem-aventurança inunda meu corpo. Começa com uma pequena brasa e logo se transforma em uma chama escarlate [...].
Elevei a Kundalini até a região sacra e o manipuracakra respondeu como um tiro.
Obtive uma visão melhor do centro anal. Uma nebulosa vermelha com uma chama escarlate no meio. Quando me concentro o escarlate se expande e toma conta de todo o lótus.
Elevei a Kundalini por todo o sushumnanadi (exceto pela união com Nuit) e podia sentir cada vértebra. Sentia cada cakra, especialmente o muladharacakra e o suaddhistanacakra. O visuddhacakra pulsava ondas de bem-aventurança. As vozes dos nadis eram de três classes:
a. As campanhias.
b. Os grilos.
c. Os tambores.
{31 de Dezembro}: Comentário SSS: Encontrei muita dificuldade para elevar a Serpente através do sacro, mas depois que consegui, o exercício ficou mais fácil. Consegui elevá-la dezenas de vezes. Uma característica interessante que notei é que hoje, acima do anahatacakra ela parecia fazer uma curva. Minha concentração fora tão intensa que descuidei de minha ásana. Isso prova que a ascensão da Kundalini nesta prática não é mera imaginação. Esse é um grande erro, temos de ser sinceros com nós mesmos [...].
Note que os espasmos de Mula Bhanda ocorrem só quando a Kundalini está na zona sacra. Isso ocorre provavelmente pela alta temperatura do muladharacakra.
Ascendi a Kundalini pelo sushumnanadi vértebra por vértebra sentindo a individualidade de cada uma como um Templo distinto. Ouço as vozes dos nadis:
1. O Grilo – vários grilos gritando muito.
2. O Tambor – as batidas do tambor como nas cerimônias Vodu.
3. A Campanhia – uma extrema intensificação de vários sinos.
4. A Gaivota – ocorre sempre no ascenso da Kundalini e na projeção astral.
5. ShT – este é um som bastante parecido com as ondas do mar. Ocorre com a meditação profunda e está diretamente relacionado com a aniquilação do ego.
{2 de Janeiro}: Comentário SSS: No princípio me pareceu impossível. O Sushumnanadi estava congestionado (pelo menos assim parece) e tive de visualizar a Kundalini subir e descer várias vezes para desobstruir o canal. A região sacra é um jogo de crianças. Há sem dúvida algumas áreas, três ou quatro vértebras em extensão, que são quase impossíveis de serem ultrapassadas e para que isso seja feito é exigida uma intensa concentração. Isso geralmente ocorre porque algumas ásanas mal feitas podem ocasionar lesões na coluna e bloqueios energéticos nos nadis. Entretanto a verdadeira energia da Serpente de Fogo resolve o problema. Constantemente eu sinto que a energia fohática da Kundalini bate com tanta intensidade em algum bloqueio na região lombar que volto a sentir sua subida somente no tórax. Uma analogia seria a de uma locomotiva entrando e saindo de um túnel.
Algumas vértebras respondem mais do que outras.
Se há algum tipo de stress ou melancolia isso causa uma de reação fisiológica na região do manipuracakra. Isso gera uma obstrução energética muito ruim de ser resolvida. Quando uma vértebra é absorvida pela subida da Serpente de Fogo há um orgasmo controlável.
{25 de Janeiro}: Na noite passada [...] a Kundalini se levou. Eu estava praticando na cama por algum tempo. Quando me encontrava no limiar do sonho ela despertou. O nadi, enquanto eu tentava dormir, estava se mostrando extremamente energisado. O ajnachacka começou a girar com tamanha intensidade que imediatamente tive visões dos planos internos. Assumi a forma de HPK. Neste momento as vibrações energéticas se multiplicaram. Não houve nenhum desconforto, somente extremo prazer.
{29, 30 de Janeiro}: As vozes do sushumnanadi são constantes e mais fortes.
{2 de Fevereiro}: Na noite passada a Kundalini foi remetida ao mais alto Céu voluntariamente. (Aqui houve um terrível período de dissociação durante o qual o trabalho regular foi estupidamente abandonado.)
{27 de Fevereiro}: Na noite passada inúmeras coisas aconteceram. Dormi assumindo a forma divina de HPK. Os nadis estavam energisados e emitiam uma irradiação clara.
A memória do que realmente aconteceu quase não existe, todavia, quando me esqueço do que ocorreu durante uma prática mágica é porque Dhyana foi alcançada. Tudo o que recordo é a Luz infinita de intolerável brilho; me encontrava submerso nessa Luz; na verdade eu era a Luz. Houve uma ‘elevação nos planos’ macrocosmicos em uma velocidade muito acelerada.[18] Além dessas vagas lembranças não há nada, somente o vazio do vácuo de Nuit.
Seguindo esta entrada houve outro período de impotência; um desânimo no trabalho mágico seguido de dissociação e esterilidade até 20 de Março quando minha Sadhana Kundalini foi coroada com êxito. Neste período o trabalho veio a ser constante, mas com uma aridez agonizante.[19]
{20 de Março}: Na cama esta manha a Companhia, o Tambor e o ShT estavam muito fortes e nítidos. Após a queda no sono, rapidamente acordei com vibrações de alta freqüência – a Kundalini subia pelo sushumnanadi! Assumi a forma de HPK e as vibrações aumentaram de maneira que os fenômenos auditivos eram tão grandes que podia escutar os passos de uma formiga. Essa era a manifestação mais forte de clariaudiência em toda minha vida. Um milhão de círculos concêntricos ressonando na água se intercalando e se mesclando como uma orgia de serpentes copulando. Rajadas de trovões ressoavam enquanto a Rainha se elevava pelos 33 templos de minha alma. Como Dionísio, a procissão sagrada me levava adiante.
Cada vértebra foi um orgasmo. Eu rasgava os sete véus e adentrava nas sete catedrais sagradas, as dimensões ou portais pelos quais eu tinha acesso aquele mundo de verdades que somente eu conheço.
A Serpente alada batia na base do crânio e isso me dava inúmeras dores de cabeça. Entretanto, nos dias que se seguiram, eu experimentava o samadhi[20] por longos períodos [...].

Há um total de três Grandes Fogos que são conhecidos nos Tantras como Fogo, Sol e Lua. Estes três fogos se manifestam (a) como a força digestiva, o calor e a oxidação ou metabolismo; (b) a experiência conhecida como Fogo Solar; e (c) como o fresco Fogo Lunar. O Cristãos chamam estes fogos corpóreos como as ‘Glórias do Sol, da Lua e das Estrelas’ que simbolizam as diversas etapas da ascensão da Serpente de Fogo. As diversas experiências que acompanham estas fases no iniciado em seu mundo interior ativam o ajnacakra e este revela os espaços interiores ou dimensões da imensidão cósmica que transcendem o espaço e o tempo fenomenal. Estas visões concedem o estado de ‘disponibilidade’ necessária para o ‘fluir’ do Supremo Elixir, aquele que carrega os fluídos psico-sexuais da suvasini com o potencial mágico.

Quando a Serpente de Fogo chega ao reino da Lua, as vibrações energéticas do fluído cérebro-espinhal acalmam todas as febres e elimina todas as toxinas, robustecendo desta maneira o corpo físico e refrescando todo o sistema nervoso. Este é um resultado que é obtido também pela absorção da urina.[21] Durante séculos os Tântricos utilizavam estes métodos de assistência para a ascensão da Serpente de Fogo, uma vez que conheciam o valor mágico da urina e as essências vaginais que estavam carregadas de vitalidade pois continham as secreções das glândulas endócrinas. O pránáyáma e o akunchanam afetam o sistema endócrino e estimulam os sutis centros nervosos ou cakras que formam a ramificada rede de zonas de poder que atuam como condutores para energias cósmicas.

Os Kaulas asseguram que “O pújá só é real quando é oferecido aos pés da Mãe (i.e. a Deusa) sendo eles imaginados na coroa da cabeça ou sendo Ela elevada na glândula coccídea, como quando Ela é – por akunchanam; ou no conus medullaris, quando Ela chega ao ponto de despertar.”[22] Isso significa que em qualquer zona de poder que repouse a Serpente de Fogo, Ela emite o supremo eflúvio que se manifesta no orifício genital da suvasini. Os Adeptos Kaula ao invés de dirigirem sua ‘adoração’ a coroa da cabeça ou na região da garganta, preferem oferecê-la na vulva, de onde flui toda carga de poder cósmico através dos fluídos vaginais magicamente carregados. No Círculo Kaula a fonte sagrada deste Elixir não é manejada pelo Sacerdote, mas sim por um depositório de bhurja que é depositado abaixo da suvasini para receber os elixires mágicos. Se a suvasini é tocada ou afligida durante este estado transcendental, os fluídos se obscurecem a ponto de se transformarem em veneno. Estes venenosos elixires são utilizados em ritos negros com o propósito de recoletarem poções mortais destes fluídos. Sendo a suvasini acalentada de alguma forma, as secreções são similarmente afetadas. Portanto é fundamental que ela esteja em um estado de transe profundamente tranqüilo.

As três gunas,[23] Sattva, Rajas e Tamas equivalem a tranqüilidade do vinho prateado da Lua;[24] o vinho vermelho-sangue dos ferozes fluídos Rajas; e os ‘resíduos espessos de vinho tinto’[25] ou lava negra dos Qliphoth. Existem vários versos a respeito destes três ‘vinhos’ nos Tantras dos Siddhas Tamil. Sobre o plano da Serpente de Fogo, Tamas ou Noite, caracteriza sua primeira fase: o caos negro da ‘Noite dos Tempos’ e a ‘Serpente do Limo’. Quando a Serpente de Fogo se agita (i.e. é despertada) verte seus perfumes que são normalmente associados com Rajas. Este é o fluído da Mãe que se manifesta nos eflúvios menstruais no segundo e terceiro dia de seu fluxo periódico. Finalmente, Ela obtém a pureza serena de Sua essência lunar-sattvica quando alcança o cérebro, acima da zona de poder do visuddhacakra. Em sua viagem retrógrada[26] Ela junta estas essências em um Elixir Supremo e a descarrega através do Olho Secreto da Sacerdotisa em um apanga final. A Lua Cheia, portanto, representa a Deusa 15 – uma lunação – já que ela é o simbolismo do ponto de regressão, criando, como assim o faz, os 16 kalas ou Dígitos do Elixir Supremo: o Parakala.

Rajas, Tamas e Satvva são representados na Tradição Oculta Ocidental pelos princípios alquímicos do Enxofre, o Sal e o Mercúrio e é improvável que a arte da Alquimia tivesse outros metais tão importantes que sempre preocuparam os místicos e magistas, ou seja: o logro da consciência cósmica através dos Mistérios psico-sexuais da Serpente de Fogo. Esta trindade, Rajas, Tamas e Sattva, ou Enxofre, Sal e Mercúrio, aparecem nos Tantras como o tribindu[27] (kamakala: literalmente, a flor ou essência do desejo). Segundo o Varivasya Rahasya, estas três essências são conhecidas como shanti, shakti e shambu, paz, poder e plenitude, e fluem desde os pés da Deusa. Isso se dá dessa maneira porque o tribindu está situado, dia-gramaticamente, no trikona ou triângulo (yoni) que simboliza Kali. Sattva, Rajas e Tamas são portanto as três gunas ou princípio representando cada um o vértice do triângulo pelas letras do alfabeto Sânscrito que contêm as vibrações raízes de suas relevantes potências. De acordo com a específica orientação do Culto, um ou outro das três gunas é exaltado e na prática a disposição das três letras não cria diferença. É a coleta das essências dos pés da Deusa que deram o nome a Vama Marga ou o Caminho da Mão Esquerda, já que neste contexto vama significa gerar e emitir.[28] Os praticantes deste Caminho estão comprometidos com as secreções que fluem das genitálias femininas e não com a mera pronuncia verbal das letras do alfabeto no tangente que parte de seu uso mântrico serve para carregar e dirigir os fluídos. Se observados somente por este aspecto, são de pouco valor mágico.

Os mantras que formam o cinto e o colar da Deusa, a sagrada guirlanda das letras que formam os nomes secretos são conhecidos somente por Iniciados. Fora dito que os mantras, originalmente, foram palavras ou sons pronunciados pela suvasini em transe, e todo cuidado fora tomado para anotar exatamente o que escapava dos lábios da suvasini durante os estágios críticos do rito. Era ímpio comunicar a qualquer profano o oráculo pronunciado dentro do Cakra. Não foram somente suas palavras mais casuais consideradas mântricas, mas seus gestos também foram considerados como mudras sagrados indicativos do poder dentro dela e do estado de intumescência em que ela se encontrava. O observador qualificado poderia dizer com clareza que os fluidos estariam disponíveis, simplesmente observando os mudras que ela estivesse assumindo. Durante o período de ‘possessão’ precauções eram tomadas para que a suvasini não dormisse antes do tempo e que nem buscasse alívio das enormes tensões interiores terminando o rito com um congresso sexual com um dos participantes. Tal erro por sua parte destruiria todo o rito. Quando tal situação aparecia – e não era usual que isso ocorresse – ela era rapidamente advertida. Quando isso não fazia efeito, sem dúvida, o rito por completo tinha de ser recomeçado e desenvolvido paulatinamente novamente. Um trabalho, possivelmente, de várias semanas.

O procedimento completo, do principio ao fim, é visto e interpretado como um lila (jogo divino) de Energia Cósmica dentro do corpo da sacerdotisa. As esculturas dos templos e as talhas exibem a dança estática de shakti em várias de suas fases. As esculturas têm sido observadas como mero exemplo da arte erótica dentro de um vago e ambíguo conceito religioso. Mas não são; elas representam fases precisas de um dos ritos místicos mais complicados uma vez já idealizado – o Kaula Cakra do Vama Marga.

A proeminência dada às mamas, nas esculturas tântricas, deve-se ao fato delas simbolizarem o tatanka, um termo que indica o sol e a lua como marcadores do tempo. Estes são chamados de ‘Peitos da Mãe’. Ainda, muitos iniciados dizem que o tatanka é representado pelos olhos. Por isto o neófito é instruído a meditar sobre o fluxo periódico do tempo como é manifestado na suvasini, e sua atenção é dirigida – através dos olhos virados para cima (apanga) – até as áreas cerebrais onde a glândula pineal se entrelaça com os ouvidos e olhos mais além do quinto ventrículo do cérebro. O sol e a lua controlam o fluxo de fluídos vitais no corpo da suvasini, onde o pulso rítmico se manifesta em diversas zonas erógenas: principalmente na genitália, mamas e olhos.

Os Siddhas Tamil têm dado diretrizes precisas para obtenção dos fluídos vitais na culminação do rito. Três principais prastaras[29] são adotadas pela suvasini: o Bhu Prastara[30] quando a suvasini está situada sobre o solo com a bhurja em sua posição para receber o amrita; o Meru Prastara quando ela está sentada sobre a tarima no Círculo representando assim o Monte Meru; e o Kailasa Prastara quando ela está dilatada e a técnica do viparîta karani é utilizada para dirigir seus níveis.[31]

A Serpente de Fogo em seu estado de latência equivale a quinzena escura (krishna paksha) ou a fase mensal da lua nova. O shukla paksha (quinzena brilhante) é a lua cheia, e é durante esta quinzena que a Serpente de Fogo pode ser desperta com êxito.

Os tântricos têm traçado um plano de ascensão da Serpente de Fogo em relação a estas fases luni-solares. No cakra básico (muladharacakra), a Kundalini é conhecida como Amavasya (lua nova), já que neste lócus o sol e a lua estão unidos; por isso o muladharacakra é uma zona de poder escura. O centro seguinte, o svuadhisthanacakra, está rodeado com raios solares, por isso é sua energia crepuscular, i.e. as luzes solares e lunares mescladas. A terceira zona de poder, o manipuracakra, é também de uma natureza mista. Ao conseguir o estado de Anahata na região do coração, a Kundalini é banhada de um tipo de resplendor ofuscante até que alcance sua morada na lua (visuddhacakra), o centro de Qoph.[32] O ajnacakra, que representa a Kundalini em exaltação, é o Palácio Puro de Brilhante Serenidade. Assim a ascensão ocorre desde a escuridão através do crepúsculo até a luz do sol; finalmente chega a fria região lunar dos eternos níveis que banham a perpétua radiação do Shri Cakra.

Aplicado ao yantra, este sistema de classificação iguala o trikona da Deusa com o muladharacakra; os oito triângulos com o svuadhisthanacakra; os dez triângulos com o manipuracakra e o anahatacakra; a zona circundante com o visuddhacakra; enquanto as duas pétalas e o duplo círculo triplo – conhecidos como os Cakras de Shiva – equivalem a zona de poder do ajnacakra.

O ajnacakra é a sede dos Quinze Kalas e da sombra do décimo sexto. Há um total de 16 kalas lunares. O Sol possui 24, o Fogo possui 10, que juntos aos 16 da Lua totalizam 50 – o número de vibrações representadas pelas 50 letras do alfabeto Sânscrito.

A ciência do Shri Vidya[33] demanda uma intensa busca dentro do pulso periódico que se manifesta na suvasini. Cada dia das quinzenas de luz e escuridão correspondem a certas fases ou ‘dígitos’ da lua. A cuidadosa disposição das cadeias de letras aparentemente sem sentido nos triângulos dos complicados yantras, não são simples crucigramas. Pelo contrário, são cifras secretas, indicações das vibrações psico-sexuais que se manifestam no corpo humano de acordo com a lei cósmica. Esses Mistérios não foram abandonados pelos ocidentais somente por serem considerados grafias e diagramas elaborados como fatigosos retrocessos de uma era de ‘magia’ e superstição. Os orientais também, em sua maioria, perderam contato com as raízes de suas próprias Tradições de Mistérios, exceto aqueles aderentes das Tradições Iniciáticas do Kaula Marga da Anuttara Amnaya.

Estes mistérios de linha, ângulo e nome não chegam a possuir sentido a menos que seja compreendido que o diagrama conhecido como Shri Cakra[34] é indecifrável quando não se leva em consideração as referências ao complexo corpo-mente do qual ele é um mapa. Confundir a realidade simbolizada por este diagrama é como confundir a Árvore da Vida com a árvore real da natureza. Que os 16 kalas foram conhecidos por toda Índia é demonstrado por sua menção ao famoso manual de yoga sexual composto por Nandikeshvari no segundo ou terceiro século d.C. Ainda que este manual não revele a localização de todos eles, revela um conhecimento geral de sua existência.

Em alguns cultos do Shri Yantra é adorado como um diagrama, mas sempre com o corpo da Deusa em mente. Assim, ainda que a adoração seja real ou imaginária, a mulher provê o poder básico de motivação e o padrão dos mecanismos do rito. Mas qualquer rito não é efetivo e nem gera a corrente vital imbuída com os kalas mágicos no corpo de uma representação viva da Deusa. É a mulher, não o diagrama, a verdadeira imagem do Círculo Supremo ou Maha Cakra.

A ciência ocidental[35] já conseguiu mapear 14 dos 16 kalas criados pela fêmea humana. Estes kalas diferem-se em sua composição química segundo as fases do ciclo feminino, a idade e condição de cada mulher, bem como a influência das fases lunares. Evidentemente, a informação mapeada ou classificada concernente aos kalas somente pode ser adquirida por cada pújári[36] individual durante os rituais que ele dirige e dentro dos limites do material que dispõe. Tão complexa é esta ciência que não pode se descrever as maravilhas que um Adepto como Aleister Crowley, vivendo nas modernas condições ocidentais, pode lograr com êxito surpreendente. Uma atenção especial sobre esse aspecto de seu trabalho é traçado em minha obra Aleister Crowley & o Deus Oculto (capítulos 7 e 11). No Oeste, a ciência do Shri Vidya, conhecida sob vários nomes, caiu em desuso com o aparecimento da Cristandade, ainda que haja indícios de que fora conhecida e praticada por seitas Gnósticas e pelos primeiros Padres Cristãos que velaram seu conhecimento sob a simbologia de seu ágape (banquetes de amor). Os Árabes estavam familiarizados com estes segredos e Mohammed conservava aos seus cuidados quatro esposas expressamente treinadas para propósitos shaktas.

O segredo mais zelosamente guardado do Culto Kaula é, quem sabe, o mantra de quinze letras que realiza a gradual liberação do 16° kala que é gerado e acrescentado durante os ritos Tântricos. Este kala bissexualia os Adeptos que o absorvem e é por este motivo que os deuses dos cultos shaktas são representados de forma andrógena. Como o Baphomet dos Cavaleiros Templários e a razão pela qual Crowley identificou a si mesmo com este conceito freqüentemente assumindo esta forma divina durante seus ritos mágico-sexuais. O mantra de quinze letras contém uma letra ou vibração por kala, sendo o 16° pronunciado em silêncio criativo que segue a sua detumescência.

Segundo os Tantras, a Serpente de Fogo é em si mesma o mantra criativo OM. A reverberação deste mantra, como ensinada no Culto Kaula, ilumina o poder enrodilhado na base da espinha produzindo a elevação e inundação do corpo com luz. O segredo é ocultado ao profano (ainda que revelado abertamente a todos aqueles que conseguem interpretar o simbolismo) no ardhamantra que se localiza acima do glifo do mantra OM – representando o número 30 – que quando unidos representam o 39 ou a realização do ciclo.[37] Assim o sol e a lua, em relação a este ciclo, dispões o signo do maha mantra que é o glifo da suprema Criação Cósmica - \.

É a maneira mágica de se vibrar o mantra OM que constitui o segredo real do pránáyáma, inadequadamente traduzido como ‘controle do alento’. O alento aqui é a força vital, não o elemento do ar, mas os fluídos magicamente carregados que circundam o corpo da suvasini.

Os Upanishads descrevem a disposição das ‘três luzes’ ou fogos em relação ao corpo. Bindu, como a lua, é igualada com o orifício esquerdo do nariz[38] e Ravi, como sol, com o orifício direito[39] enquanto que o fogo do sushumnanadi é gerado pela fusão destes poderes. O Tripura Upanishad iguala a Lua com a semente criativa, o Sol com os fluídos menstruais e a terceira luz com a Serpente de Fogo, já que ela combina todas as três luzes em suas ascensão. O uso do pránáyáma em seu sentido usualmente aceitado refere-se ao processo onde o fogo é soprado para ser aceso. O tema por completo tende a ser confuso porque a terminologia e seus equivalentes simbólicos variam em cada seita, inclusive dentro do Culto Kaula do Vama Marga. Somente o Iniciado é completamente competente para compreender com profundidade os diferentes significados e aplicar corretamente os símbolos adequados no emprego das práticas tântricas. A grande falácia destes Mistérios é aceitar somente uma interpretação de algum processo específico, seja do pránáyáma, do sol e da lua e sua relação com os nadis, as fossas nasais direita e esquerda, os fluídos masculinos e femininos e etc. É sobretudo importante recordar que estas interpretações que freqüentemente entram em conflito entre si são concernentes a teoria, uma vez que quando o Sadhaka está realmente trabalhando no Círculo com a suvasini como a Deusa ante ele, não há dúvidas em sua mente da real aplicabilidade destes processos em relação as diversas fases do rito.

Nos é assegurado que a ciência dos Bhairavas é a única ciência que pode revelar o segredo do Samarasa, o néctar que não só bissexualiza o organismo humano, mas que também adapta o veículo para que as forças cósmicas passem através dele. A palavra Bhairava dá uma pista de seu significado esotérico; significa ‘sem temor’ e sua forma divina é o cão. No antigo Egito o cão ou chacal era o guia das almas no Amenta (i.e. almas dos ‘mortos’), e a Estrela-Cão ou Estrela de Set foi seu análogo celestial. O cão como um símbolo é análogo ao chacal e a raposa que são cognatos e possuem somente um nome em Hebraico – ShGL (Shugal) – que significa ‘o ladrador’. O número de Shugal é 333, que também é o número de Choronzon.[40] O modo de congresso sexual associado com o cão é parecido com o viparita maithuna (coito invertido) que implica na retroversão da sexualidade. De forma similar, a Lua Cheia – associada à bruxaria e aos uivos dos lobos – significa ponto de regresso. Liber AL contém um verso que é diretamente aplicado a estes mistérios: ‘Está um Deus a viver em um cão? Não! mas os altíssimos são nossos.’ O curioso sentido implicado pela inversão da palavra ‘god’ como ‘dog’, é a chave não só da fórmula,[41] mas do modo operativo. Um Comentador Kaula descreve os Bhairavas como:

[...] as deificações da Cabeça do Cão que ocorrem desde o Egito antigo com a valorização dos excrementos do cão [...].
A ciência dos Bhairavas trata do organismo genital e de suas secreções; valorizam o que o mundo não valoriza – a urina e os fluídos menstruais [...].[42]
A urina é de grande valor por seus efeitos sobre o prana e a Kundalini; somente a prática persistente com estas substâncias e outras consideradas ‘sujas’ podem consumar o segredo da abertura da porta no conus medullaris, como magia, o imediato kalpa introduzido no sistema; o verdadeiro kalpa[43] é manufaturado no corpo do homem que pratica a Bhairava Yoga no qual as mulheres, orifício genital e as secreções são de extremo valor [...].

A passagem da Serpente de Fogo e a precipitação na suvasini das diversas secreções têm seus análogos nos tattvas (elementos) que são discerníveis a visão clarividente. Segundo a classificação normal – Terra, Água, Fogo, Ar e Espírito – as secreções são correspondentemente sólidas, aquosas, quentes, gasosas, e em algumas vezes uma leve fragrância ou perfume, e – quando a Serpente de Fogo alcança o ajanacakra – o equivalente sutil do pensamento – um tipo de vibração muito tênue que é discernível como um brilho ofuscante ocorre.

Comentando sobre este aspecto da Obra, Frater 165 U (VII° O.T.O., U.S.A.), escreve: “Uma das coisas interessantes que observei com respeito à elevação da Serpente de Poder em uma mulher tântrica, é o fogo que usa a água de seu corpo ocasionando uma considerável perda de peso; minha própria shakti[44] perdera em uma noite de ritual cerca de três a quatro kilos e isso ocorreu com outras que eu conheço. Posso dizer – ‘o produto final da Água é o Fogo’.”[45]

Na inversão, a absorção dos fluídos da suvasini ajuda a compensar o calor abrasador da Serpente de Fogo no corpo do sadhaka quando a Kundalini se eleva pelo sushumnanadi. O perigo de consumir todo o fluído do corpo é em conseqüência evitado nesta fase crítica do rito.

A adoração do fogo no coração do altar, mencionado nos Vedas e em outros textos religiosos, é o emblema do Fogo na zona de poder vaginal da suvasini. Este cakra tem uma função dual no tangente que pode receber e transmitir vibrações que destroem ou criam, de acordo com a influência atraída sobre ele. Esta é a razão pela qual há uma extrema gentileza com a suvasini no rito. Ela é coberta com flores e óleos frios adequados aos marmas para que permaneça fria e receptiva. Se está irritada, tanto física como mentalmente, ela chega a agitar-se e a vagina emite emanações venenosas; é por conseqüência extremamente perigoso ter contato com ela através de lábios ou língua.

Os Tântricos Kaula periodicamente adoram a Serpente de Fogo na zona de poder basal que é de dois tipos: I. o triângulo do diagrama do Shri Cakra; II. A vagina da mulher escolhida para atuar como suvasini. O primeiro é adorado pelos purvas kaulas, o segundo pelos uttara kaulas. Ambos os tipos de adoração são externos. Na zona de poder basal, a Serpente de Fogo é conhecida e adorada como Kundalini. Aqui é dito que a adoração é negra ou escura. Quando Ela é desperta pela adoração, o Adepto é imediatamente liberado de se sujeitar à existência fenomenal. Desta maneira ele consegue o que chamamos de mukti (salvação); por este motivo os Kaulas deste Culto são conhecidos como Kshanika Muktas – ‘liberados deste instante’.

O Culto dos Kaulas está caracterizado principalmente pelo fato de seus devotos adorarem a Serpente de Fogo na zona de poder representada pelo diagrama do triângulo invertido com o bindu no centro; os Digambaras e Kahakanas, pelo contrário, adoram o diagrama do triângulo para cima com o bindu no centro. As diferenças não são essenciais, mas consistem nos modos diferentes de aproximação da suvasini, modos estes adotados segundo a preferência e facilidade para coletar os kalas carregados vitalmente. No Samaya Marga, onde a adoração está confinada no ‘ideal’ ou na interpretação metafísica dos símbolos não os tratando como essências vivas, a Serpente de Fogo é visualizada ascendendo ao canal medular e é identificada sucessivamente com as zonas de poder desde o muladharacakra até o ajanacakra. Nesta adoração, a semente vital ou vibração raiz está localizada no trikoma do Shri Cakra. Sem dúvida, os verdadeiros Adeptos, os Kaulas, mukti é uma realidade imediata, instantânea; com somente um ato de akunchanam a Serpente de Fogo sobe pelo sushumnanadi até encima e se une com seu Senhor Shiva no lótus de mil pétalas. Não há paradas no caminho.





[1] Michael Bertiaux descreve isso como a manifestação cósmica de um escudo protetor. Veja Capítulo 9, infra.
[2] Veja Franz Hartmann, A Vida de Paracelso, Ed. Pensamento, 1992.
[3] Veja o prefácio de Auto Defesa Psíquica de Dion Fortune, Ed. Pensamento, 1995.
[4] Com a notável exceção de Sir John Woodroff. Veja especialmente a coleção de leituras intitulada Shakti and Shakta (Londres, 1929).
[5] Londres/Madras, 1950.
[6] Também conhecido como RMP – Ritual Menor do Pentagrama. Ele foi exaustivamente utilizado pelos magistas da Golden Dawn. Aleister Crowley o revisou em concordância com os requisitos mágicos do Novo Aeon. Veja Magick em Teoria & Prática.
[7] AL, cap. II, versos 22 & 26.
[8] I.e. a zona de poder além do visuddhachakra.
[9] Liber HHH contem a seção SSS, que resume a prática da elevação da Serpente de Fogo.
[10] Um relato do progresso mágico de Aleister Crowley na Golden Dawn. Ele foi publicado em série periodicamente no The Equinox.
[11] Os centros nervosos sutis do corpo astral. Eles emitem vibrações audíveis ao iniciado durante o processo aqui descrito.
[12] Um estado elevado de consciência em que o pensamento é dissolvido em puro NADA.
[13] Frater Iadnamad aqui comenta sobre a prática com a Serpente de Fogo como proposta em Liber HHH seção SSS.
[14] O período de agonia representada pela Serpente Apep ou Apófis.
[15] I.e. Hoor-paar-Kraat (Harpocrates): O Sinal do Silêncio.
[16] Veja Woodroff, The Serpente Power, Figuras XI e XII.
[17] Veja Woodroffe, The Serpente Power, Figura XIV.
[18] Uma prática desenvolvida por membros da Golden Dawn para ascensão dos planos na Árvore da Vida no plano astral explorando as regiões sutis das diversas zonas de poder. Veja The Equinox vol. I, no. 2.
[19] Um estado de esterilidade mental e aridez espiritual.
[20] Um exaltado estado de transe onde a mente é dissolvida em completa liberdade de Consciência. Existem diversos tipos e graus de samadhi.
[21] A urina masculina tem este efeito sobre a mulher e vice versa.
[22] Comentário Tântrico Kaula.
[23] Os princípios sutis que equivalem aos elementos alquímicos do Mercúrio, Enxofre e Sal.
[24] A ‘prata’ da Lua e as características Mercuriais estão resumidas no glifo do Andrógeno, o Baphomet Mercurial que é equivalente a Set ou Sat (tva).
[25] AL III:23.
[26] A fase viparita de translação no conceito de tempo.
[27] Tri=três; bindu=semente. O tribindu é a tripla semente do kamakala ou raio do Desejo. Este triplo esquema é às vezes representado como Iccha (Vontade), Jnana (Conhecimento) e Kriya (Ação).
[28] Cp. a palavra ‘vômito’ para ejetar ou emitir.
[29] Posturas rituais.
[30] Postura da Terra.
[31] O monte Kailas é a morada de Shiva, a Suprema Felicidade; em terra é uma montanha coroada de neve perto dos limites do Tibet, adorado como a residência mundana de Shiva.
[32] Veja Capítulo 1.
[33] Ramo tântrico mais influente e que permanece ativo hoje em dia. Ele contém muitos aspectos do Círculo Kaula mas também inclui escolas e Mestres conservadores.
[34] Para o diagrama do Shri Cakra (ou Shri Yantra, como é às vezes chamado) veja Aleister Crowley & o Deus Oculto, Figura 2.
[35] Veja Estudos da Psicologia do Sexo (Havelock Ellis).
[36] Sacerdote que dirige o pújá ou adoração.
[37] Veja Capítulo 1.
[38] O idanadi.
[39] O pingalanadi.
[40] Veja Capítulo 9.
[41] A fórmula conhecida como p.v.n. Veja The Magical Record of The Beast 666. Veja também Aleister Crowley & o Deus Oculto onde o simbolismo desta fórmula é descrito em detalhes.
[42] Cp. a Matéria Prima dos Alquimistas da qual se diz que é uma substância comum depreciada pela humanidade e que contém o ouro essencial, i.e. a perfeição.
[43] Medicina ou bálsamo.
[44] Neste contexto, o termo shakti denota uma assistente feminina ou parceira mágica.
[45] Carta privada datada de 12 de janeiro de 1974 e.v.

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