domingo, 21 de setembro de 2014

Universo Tifoniano




Fernando Liguori


Na busca por uma definição sobre a Tradição Tifoniana, muitas vezes nos encontramos enredados em uma urdidura de conceitos equivalentes, parecidos e na maioria das vezes consideravelmente antagônicos. No Séc. XIX, o homem que primeiro trouxe alguma luz sobre a tradição foi o exímio egiptólogo Gerald Massey. Ele demonstrou a evolução e o declínio da Tradição Tifoniana, precisamente nas tribos aborígenes pré-dinásticas e nas dinastias negras do Egito antigo. No Séc. XX, o famoso ocultista Kenneth Gtant (1924-2011), eminente discípulo do mago inglês Aleister Crowley (1875-1947), se encarregou de encontrar vestígios da tradição nos mais variados cultos ao redor do globo. Seu maior trabalho foi, quem sabe, reestabelecer a conexão entre a tradição tântrica e a Ordo Templi Orientis (O.T.O.), ordem mágico-espiritual liderada por ele até o fim de seus dias. Sob seu comando os graus superiores da ordem foram reestruturados e seu sistema de magia sexual completamente revisado para que estivesse em concordância com aquilo que ele denominava ensinamentos do círculo kaula. Por este termo, Kenneth Grant se referia a um comentário tântrico feito por um destacado membro da ordem, David Curwen, sobre a Saundarya-laharī. Trata-se de uma obra monumental de adoração a Deusa, escrita por Śaṅkarācārya, na luta contra um trabalho de magia negra.[1]

Ao que tudo indica, Curwen, um iniciado do Soberano Santuário da Gnose, era adepto da tradição do Śrī Vidyā. Seu comentário foi estritamente esotérico, sem margem ao pañca-makāra,[2] destacando a utilização da sacerdotisa apenas no rito, durante o catamênio, sem nenhuma interação sexual. Estas instruções tântricas foram preciosas a Grant, que viu nelas a oportunidade de corrigir os erros de seu mestre, Crowley, concernentes ao XIº O.T.O. Ao elaborar a estrutura sexual do VIIº, VIIIº e IXº O.T.O., Grant se baseou largamente nos ensinamentos da tradição Krama. Essa tradição lida com o que é considerado a mais secreta prática e doutrina do Śaivismo da Caxemira, i.e. a adoração de Kālī. Baseando-se nos conceitos já dsenvolvidos nos Tantras originais e nas tradições orais associadas, o Śaivismo Krama da Caxemira elevou a adoração de Kālī em um nível além do ritual externo. O ritual passa a ser compreendido como um processo interno de iniciação através do qual o iniciado descobre sua real identidade com Kālī quem é o fluxo (krama) do poder da consciência através das polaridades do sujeito, objeto e os meios de conhecimento em consonância com seu caminho de subida e descida em cada ato de percepção. Esta experiência culmina no processo de despertar o potencial espiritual humano (kuṇḍalinī) e a expansão da consciência que acompanha a prática mais esotérica do Śaivismo da Caxemira. A característica Kaula desta escola é evidente pelo fato de advogar o ritual de consumo de carne (māṃsa), vinho (madya) e intercurso (maithunā) como um meio de desenvolvimento da consciência.[3]

Na visão de Grant, o universo theriônico – quer dizer, a cosmogonia d’O Livro da Lei – com o qual havia sido educado se encaixava perfeitamente com a tradição anuttara-trika-kula, i.e. o Śaivismo tântrico da Caxemira,[4] embora fosse ele um ardoroso adepto do advaita-vedānta de Śaṅkara. No entanto, isso não foi explorado por ele e no presente nos encontramos em uma lacuna: conforme vimos em outros escritos,5 a Tradição Tifoniana fez parte ou esteve presente de alguma maneira nos primórdios de todos os cultos da antiguidade. Mas qual o contexto filosófico no qual essa tradição se encaixa para que ela pudesse ser universalmente utilizada na formação destes cultos? Por ser universalmente aceita, a tradição é tântrica, em essência. O modo ou estilo de vida Tifoniano é tântrico em essência. Não existe distinção entre aquilo que é espiritual, divino e o que não é. A vida, em todos os seus aspectos, é espiritual, pura e divina. Ao contrário do que postula o Vedānta de Śaṅkara, o mundo não é uma superimposição, uma miragem ou ilusão (māyā) a Real identidade de Brahma. Para o Tifoniano, o que existe é Consciência pura. Ele identifica essa Consciência pura, imaculada, com um ponto, um princípio prístino conhecido como Hadit. É o princípio contínuo da Consciência e ele pulsa (spanda) em cada átomo da criação. No Śaivismo da Caxemira, este ponto infinitesimal é Śiva. O Tifoniano, portanto, se estabelece no seu centro, no seu āsana, e como regente de sua Consciência atuante, observa o universo do seu trono, estático.

Ao contrário da algumas filosofias nada úteis, a Tradição Tifoniana postula que o sādhanā, a prática espiritual, é o melhor atalho a experiência real da identidade com Hadit ou Set. O Tantra nos diz que Śiva sem Śakti é śava (cadáver). Quer dizer, sem o princípio dinâmico da Consciência (Śakti), Śiva é incapaz de se estabelecer no seu centro a fim de dar inicio a criação. Da mesma maneira, Hadit é incompleto sem Nuit, pois sua referência, o centro estático da Consciência, só é identificada pela circunferência que o cerca, Nuit. O Tifoniano traz isso para prática, tanto no ritual externo quanto na meditação interior.

Da interação entre Śiva e Śakti o universo, i.e. o indivíduo, é consolidado. É a tríade (trika):

1.  Śiva (o Ser), Śakti (a Energia) e Nara (o indivíduo limitado);
2.  Pati (o Senhor Supremo), Paśu (o indivíduo limitado) e Pāśa (o encarceramento, a prisão).
3.  Śiva (o Ser), Śakti (a Energia) e Au (o indivíduo limitado).

Nos termos theriônicos d’O Livro da Lei: Hadit (o Ser), Nuit (a Energia) e Ra-Hoor-Khuit (o indivíduo limitado). Penso que o mais importante significado desta tríade para o Tifoniano seja Śiva-jīva-sādhanā que pode ser chamada de tríade Consciência-aprisionamento-yoga. O termo assim designa três pontos a serem explorados: 1. a natureza da Consciência (i.e. o Absoluto) e a criação do universo dentro da Consciência; 2. o aprisionamento, a contração da Consciência e a experiência limitada e; 3. o sādhanā, a prática espiritual que livra o adepto da condição de aprisionamento. Portanto, a Tradição Tifoniana coloca ênfase na prática ou aspecto prático da tradição.

A Tradição Tifoniana postula que o estofo básico do universo é consciência pura, e não matéria. Isso pode ser comparado à experiência onírica no qual a consciência do sonhador é o substrato fundamental de tudo o que se apresenta no sonho. A Consciência que subjaz o universo pode ser chamada de Deus. Aqui me refiro a Deus como o Absoluto, além de qualquer forma específica.

Por razões apenas conhecidas a Ele, Deus decide criar o universo e se transforma em muitos. Pelo Seu Poder, que é personificado como Seu aspecto feminino, Ele cria o universo em seu próprio Ser, Ele mesmo se torna uma alma individual pelo processo de contração. Embora ele apareça na Consciência, o mundo criado é real. O universo é na verdade a Consciência que vibra em diferentes frequências, se transformando mais material e grosseiro na medida em que se densifica.

A conexão do ponto ou Hadit, no que concerne a criação, é encontrado nos tantra-śāstras na doutrina do bindu. O bindu é considerado a origem da criação ou o ponto onde a unidade primeiro se divide para produzir o mundo das formas individuais. Este aspecto do bindu pode ser verificado pela raiz sânscrita bind, que significa para dividir ou dividir.

Bindu significa um ponto sem dimensão, um centro adimensional. Em alguns textos sânscritos, ele é denominado como chidghana, que tem as suas raízes na consciência ilimitada. Bindu é considerado a porta de entrada para o śūnya, o estado de vazio. Este vazio não deve ser interpretado como um estado de nada. Pelo contrário, é o estado de não-matéria, o estado de pureza absoluta e indiferenciada consciência. O bindu é misterioso. É um inefável ponto focal dentro do qual os dois opostos, infinito e zero, plenitude e nada, coexistem.

Dentro do bindu está contido o potencial evolutivo para todos os objetos e miríades do universo. Contém o plano de criação. Evolução aqui refere-se ao vertical, processo transcendental pelo qual a vida, os objetos e os organismos resultam do subjacente substrato de existência. A evolução não é o mesmo que o conceito científico de evolução darwinista. Isto é apenas um vestígio histórico das mudanças ao longo de um período de tempo em forma, função ou aparência das manifestações especiais da individualidade, como as espécies de plantas ou de animais. Esta evolução é um registro histórico ao longo do tempo, enquanto a evolução e a dissolução da consciência para dentro e para fora da individualidade está no reino do atemporal.

Existe um princípio de individualização que gera as miríades de objetos no universo. Em sânscrito é chamado de kāla, o que faz com que o potencial inerente da consciência subjacente se acumulem no bindu. A partir deste ponto, ou semente, um objeto, um animal, um ser humano, seja lá o que for, pode surgir e se manifestar. Todo e cada objeto tem um bindu como sua base. Aquilo que anteriormente era amorfo assume forma através do bindu, e sua natureza é fixada pelo bindu também. O bindu é tanto o meio de expressão de consciência e também o meio de limitação.

Alguns dos centros de manifestação do bindu possuem consciência, como o homem. No entanto, a maioria dos centros estão inconscientes, tais como os elementos, pedras, e assim por diante. O potencial para ser consciente ou inconsciente depende apenas da natureza e da estrutura da cada objeto, e isto também é determinado pelo bindu. O homem tem o instrumento que lhe permite ser um centro consciente.

Cada objeto, consciente ou inconsciente, está ligado à essência subjacente da consciência por intermédio do bindu. Cada objeto evolui em existência material através do bindu e cada objeto retorna de volta para a fonte também através do bindu. O bindu é um alçapão com abertura nos dois sentidos. É o meio através do qual os centros conscientes como o homem podem perceber a totalidade do sahasrāra-cakra.

Existem essencialmente dois tipos de seres humanos: os que estão no caminho de pravṛtti e aqueles que estão no caminho de nivṛtti. Um adepto de pravṛtti (o caminho exterior), parece de longe o bindu, pois ele é quase exclusivamente motivado pelos eventos externos. Este é o caminho da maioria das pessoas de hoje e ele as afasta do autoconhecimento mantendo-as em um cativeiro. O outro caminho, nivṛtti (o caminho interno), é o caminho espiritual, o caminho da sabedoria. Nesta trajetória o indivíduo começa a se defrontar com o bindu, tornando-o a fonte de seu ser. Este caminho conduz à liberdade. O caminho da evolução é o caminho de pravṛtti, da manifestação e extroversão. O caminho da involução leva de volta ao longo do caminho que tem produzido seu ser individual. Ele leva de volta através do bindu para o sahasrāra. Na verdade, toda a prática de Yoga tem a finalidade de contribuir para a sensibilização direta de seu caminho ao longo da involução.

Existe enorme poder encerrado dentro do ponto infinitesimal. Por exemplo, uma teoria sobre a origem do universo sugere que um ponto infinitamente denso de matéria explodiu em um big bang para formar a totalidade do cosmos. Do mesmo modo, a investigação em Física subatômica revelou que grandes quantidades de energia encontram-se concentradas em inumeráveis e diferentes partículas subatômicas existentes no espaço-tempo continuum. A Física está se movendo para os reinos do inefável bindu.

Na Biologia molecular, a essência do bindu pode ser encontrada nas moléculas de DNA e RNA, cada uma das quais contém o modelo genético completo para todo o organismo. Este é outro exemplo da grande inteligência e do potencial que pode ser condensado e expresso no interior de um pequeno ponto. De fato, quanto mais à ciência se aprofunda e sonda a natureza e a estrutura do Universo, maior é o poder e a complexidade que ela descobre. Dentro da pequena dimensão destes pontos, grandes potenciais de significado estão contidos.

O poder do ponto ou bindu foi conhecido por místicos ao longo da história da humanidade. No Tantra, cada bindu, cada partícula de existência manifestada é considerado como um centro de poder ou Śakti. Esta Śakti é uma expressão do substrato subjacente da consciência estática. O objetivo do sistema tântrico é provocar uma fusão entre Śakti (a manifestação individual do poder), com Śiva (manifestação passiva da consciência universal subjacente).

Dentre todas as suas manifestações, a Tradição Tifoniana foi melhor preservada na tradição tântrica, principalmente na doutrina dos cakras e kuṇḍalinī. O que se segue é uma prática de concentração (dhāraṇā) nos cakras ao longo da estrutura astral. Foi dimensionada para o aperfeiçoamento do Tifoniano, que pode praticada tanto dentro de uma estrutura ritualística como em um contexto místico. É uma das primeiras práticas da Ordo Tifoniana Occulta.

Antes de iniciar a prática, siga os passos seguintes:

1.  De frente ao altar Tifoniano, execute um ritual de banimento. Pode ser qualquer um a sua escolha, mas preferivelmente o Rirual da Estrela Nu-Ísis ou o Ritual da Estrela de Fogo.
2.  Em seguida, execute a invocação preliminar do Não-Nascido.
3.  Faça uma invocação a Lam e durante quinze minutos entoe o mantra: aumng-talam-malat.
4.  Por quinze minutos, execute nāḍī-śodhana-prāṇāyāma.
5.  Execute cakra-śakti-dhāraṇā.
6.  Após o fim do dhāraṇā, finalize com o mantra: aumng-talam-malat (3x).


Cakra Śakti Dhāraṇā
Concentração nas Devīs dos Centros Psíquicos

Estágio 1: Preparação
Sente-se em uma confortável postura meditativa.
Mantenha suas costas eretas, a cabeça no prolongamento da coluna e conscientemente relaxe os ombros, os músculos do umbigo e os músculos da face.
Descanse as mãos sobre os joelhos em cin ou jñāna-mudrā.
Cheque a posição do corpo e faça os últimos ajustes na postura.
Mantenha o corpo bem relaxado e sinta o equilíbrio, a estabilidade e a firmeza da postura.
Se concentre na estabilidade e na firmeza do corpo.
Você está completamente imóvel na postura. Repita para si mesmo: Durante toda prática, mantenho meu corpo estável e imóvel como uma estátua. Durante toda prática, permaneço completamente consciente e alerta (pausa).
Estágio 2: Consciência respiratória
Mude sua consciência do corpo para respiração (pausa).
Respire vagarosamente e profundamente.
Na medida em que inspira, conte até cinco. Na medida em que expira, conte até cinco (pausa).
Concentre-se na respiração na região da garganta. Quando inspirar e expirar, sinta a respiração se movendo através da garganta. Na medida em que se concentra na respiração rítmica na garganta, gradualmente sentirá a estabilidade da mente e do corpo como um todo (pausa).
Observe a atividade respiratória com cuidado sem perder a consciência de uma única inspiração, sem perder a consciência de uma única expiração (pausa).
Estário 3: Ujjāyī-prāṇāyāma
Transfira a consciência para garganta.
Sinta o ar entrando e saindo através da garganta e não pelas narinas, como se a respiração estivesse acontecendo através de uma pequena abertura na garganta (pausa).
À medida que a respiração se torna mais lenta e profunda, contraia a glote suavemente de forma que um suave ruído, como um bebê dormindo, seja produzido na garganta. Se isso for executado com perfeição, haverá uma contração simultânea no abdômen. Isso ocorre sem que nenhum esforço seja feito (pausa).
Tanto a inspiração quanto a expiração devem ser longas, profundas e controladas.
Faça respiração yogī, concentrando-se no som produzido na garganta.
O som da respiração não deve ser muito alto. Apenas você deve escutá-lo (pausa).
Estágio 4: Mūlādhāra śakti dhāraṇā
Agora, transfira sua consciência para o mūlādhāra-cakra, mantendo ujjāyī-prāṇāyāma.
Visualize suas pernas se afundando na terra. Sinta-se firme, sólido, seguro. Visualize uma energia dourada saindo da ponta dos dedos dos pés, subindo as pernas e tocando, na região do períneo, o mūlādhāra-cakra. Neste momento, o lótus de quatro pétalas se abre, deixando transbordar para todo seu corpo uma inebriante energia avermelhada, enquanto você vocaliza o mantra laṃ durante sete fôlegos: laṃ, laṃ, laṃ, laṃ, laṃ, laṃ, laṃ (pausa).
Dento do mūlādhāra você vê Dākinī, a devī deste cakra. Ela é jovem, muito bela e de corpo escultural. Sua cor é vermelha. Está vestida com a pele de um antílope negro e ornamentada com inúmeras jóias. Leva em suas duas mãos direitas uma lança e um tridente, que simboliza a combinação das forças do criador, preservador e destruídor; em suas mãos esquerdas ela leva uma espada e um crânio, que indica o afastamento do medo da morte. Ela é feroz, tem os olhos vermelhos e arregalados, seus dentes também são vermelhos e estão a mostra. Ela agita o terror no coração dos ignorantes (pausa).
Estágio 5: Swādhisṭhāna śakti dhāraṇā
A partir de agora, a luz dourada continua seu fluxo de ascensão por dentro da suṣumṇā-nāḍī, até o svādhisṭhāna-cakra, na medida em que atinge a região sexual. Aqui, o lótus de seis pétalas se abre, distribuindo por todo seu corpo uma luz alaranjada e, na medida em que você vocaliza o mantra vaṃ durante sete fôlegos, dilua-se na água, sinta coragem, criatividade, vitalidade e domínio sobre as paixões: vaṃ, vaṃ, vaṃ, vaṃ, vaṃ, vaṃ, vaṃ (pausa).
Dentro do svādhisṭhāna você vê Rākinī, a devī deste cakra. Ela é jovem, muito bela e de corpo escultural. Sua cor é azul, tem quatro braços e leva em suas mãos direitas uma flecha, atirada do arco de Kama, o senhor do amor erótico. Esta é a flecha dos sentimentos e emoções que causam dor e prazer na medida em que se vive na dualidade. Na outra mão direita ela leva um crânio, que simboliza a natureza do romântico que leva a cabeça em sua mão, com as emoções governando seu comportamento. Nas mãos esquerdas ela leva um tambor que representa a vibração rítmica deste cakra e um machado, que simboliza o poder de destruição aos obstáculos neste cakra. Seus três olhos são vermelhos, seus dentes revelam ferocidade e de suas narinas escorre um fino fluxo de sangue (pausa).
Estágio 6: Maṇipūra śakti dhāraṇā
A luz dourada continua ascendendo até a região do umbigo por dentro da suṣumṇā-nāḍī, no maṇipūra-cakra. Aqui o lótus de dez pétalas se abre, distribuindo por todo seu corpo uma lúcida luz amarela e, na medida em que você vocaliza o mantra raṃ durante sete fôlegos, seu corpo se dissolve no fogo crepitante, você sente a consciência de si mesmo, confiança, o impulso pelo autoconhecimento e o discernimento: raṃ, raṃ, raṃ, raṃ, raṃ, raṃ, raṃ (pausa).
Dentro do maṇipūra você vê Lākinī, a devī deste cakra. Ela é de cor azul escuro, tem o corpo coberto por tecidos amarelos e é ornamentada com muitas jóias. Possui três rostos, com três olhos cada e de dentes bem salientes, demonstrando ferocidade. Com seus quatro braços, sustenta em suas mãos um raio, o que indica a energia elétrica do fogo e uma flecha, disparada pelo arco de Kama e que representa o ímpeto para o movimento ascendente da kuṇḍalinī. Com as duas outras mãos ela realiza as mudrās da intrepidez concedida e dissipação do temor. Ela ama carne de animais e seu peito está coberto de sangue e gordura que caem de sua boca (pausa).
Estágio 7: Anāhata śakti dhāraṇā
A energia dourada ascende da região do umbigo até o centro do peito, a região do anāhata-cakra por dentro da suṣumṇā-nāḍī. Aqui o lótus de doze pétalas se abre, distribuindo por todo corpo uma leve luz esverdeada e, na medida em que você vocaliza o mantra yaṃ durante sete fôlegos, seu corpo se dissolve no ar e você levita, flutua enquanto sente um profundo amor por toda humanidade, uma tocante compaixão por todos os seres, uma generosidade e uma alegria abundante: yaṃ, yaṃ, yaṃ, yaṃ, yaṃ, yaṃ, yaṃ (pausa).
Dentro do maṇipūra você vê Kākinī, a devī deste cakra. Ela é de cor dourada e está vestida com tecidos amarelos. Carrega variadas jóias e uma grinalda de ossos. Possui três olhos, quatro braços e carrega em suas mãos a espada que corta os obstáculos que bloqueiam o fluxo ascendente da kuṇḍalinī, o escudo que protege o adepto contra as condições mundanas exteriores, o crânio que demonstra o afastamento da falsa identificação com o corpo e o tridente que simboliza o equilíbrio entre as três forças iḍā, piṅgalā e suṣumṇā-nāḍīs. Ela é bem feitora e doadora do radiante prazer. Seu coração está apaziguado pois ela bebe o néctar oferecido por Iśa, o Senhor Śiva (pausa).
Estágio 8: Viśuddhi śakti dhāraṇā
A luz dourada deixa o centro do peito e vai até a região da garganta, o viśuddhi-cakra por dentro da suṣumṇā-nāḍī. Aqui o lótus de dezesseis pétalas se abre e distribui por todo o corpo uma luz prateada; na medida em que você vocaliza o mantra haṃ durante sete fôlegos, seu corpo se dissolve no espaço completamente e você sente uma profunda receptividade do universo, criatividade, intuição e uma íntima comunicação com seu inconsciente: haṃ, haṃ, haṃ, haṃ, haṃ, haṃ, haṃ (pausa).
Dentro do viśuddhi você vê Sākinī, a devī deste cakra. Ela é branca e fria como o oceano de néctar. Cada um de seus cinco belos rostos brilha com seus três olhos. Tem quatro braços e leva em suas mãos um arco e flecha, símbolo da transcendência espiritual; um ankuṣa, gancho utilizado para domar elefantes, que representam o poder do intelecto excessivamente independente, conduzindo sua própria intoxicação de conhecimento; carrega também um crânio, que simboliza o afastamento do mundo ilusório das percepções sensoriais e com a outra mão realiza a jñāna-mudrā, o gesto do conhecimento, diante do coração. Está vestida com sedas de cor amarela, singelamente ornamentada, completamente excitada com o néctar que Śiva lhe oferece. Ela é aquela que distrai os ignorantes (pausa).
Estágio 9: Ājñā śakti dhāraṇā
A luz dourada passa da região da garganta ascendendo ao topo da espinha dorsal, o ājñā-cakra, por dentro da suṣumṇā-nāḍī. O lótus de duas pétalas se abre e o corpo é tomado por uma luz branca e dourado; na medida em que você vocaliza o mantra śāṃ durante sete fôlegos, sinta uma profunda compreensão, determinação, perdão e bem-aventurança: śāṃ, śāṃ, śāṃ, śāṃ, śāṃ, śāṃ, śāṃ (pausa).
Dentro do ājñā você vê Hākinī, a devī deste cakra. Ela é branca, tem seis rostos com três olhos cada. Tem seis braços e em suas mãos carrega uma mālā representando a mente unidirecionada; o damaru, tambor de Śiva que representa o constante poder da vontade que conduz o aspirante a meta final; porta também um crânio, representando o total afastamento da ilusão proporcionada pelos sentidos; uma escritura, simbolizando o poder da visão dos planos mais elevados de consciência e a mudrās de doação e dissipação do temor. Sua mente é pura e se exalta com a divina bebida, o amṛta do rei dos deuses, o Senhor Śiva. Ela transmite a erudição e o conhecimento (pausa).
Estágio 10: Sahasrāra śakti dhāraṇā
Finalmente, a luz dourada toca o topo da cabeça, por dentro da suṣumṇā-nāḍī, a região do sahasrāra-cakra. O lótus de mil pétalas se abre e uma energia dourada de plenitude e bem-aventurança perpassa todo seu ser; na medida em que você vocaliza o mantra oṃ durante sete fôlegos, sinta a transcendência do amor universal, o impulso de evolução do universo, a criação e a ordem cósmica, sinta o dharma: oṃ, oṃ, oṃ, oṃ, oṃ, oṃ, oṃ (pausa).
Dentro do sahasrāra você vê Yākinī, a devī deste cakra. Ela é da cor da mescla de todas as cores, tem faces direcionadas para todos os lados e centenas de braços. Carrega em suas mãos todos os tipos de armas e é servida por uma hoste de śaktis. Ela reside na lua branca do pericárpio do cakra.
Estágio 11: Fim da prática
Desfaça a concentração nas devīs e nos cakras.
Desfaça ujjāyī-prāṇāyāma.
Retome a consciência do corpo e do ambiente ao seu redor.
Vagarosamente vá movimentando seu corpo.
Quando estiver completamente desperto, abra os olhos.




[1] Śaṅkarācārya é considerado um dos homens mais santos da Índia. Através de seus esforços, o Budismo foi expulso da Índia e o culto vêdico reestruturado segundo a tradição que promulgou, o advaita-vedānta. Embora seja o pai do vedānta, quando se viu enfermo por um trabalho de magia negra feito contra ele, compôs o Saundarya-laharī, obra de louvor a grande Deusa que se destaca por seu prayoga, uma seleção de yantras e mantras a serem utilizados para as mais distintas finalidades na vida. Alguns estudiosos do fenômeno ocultismo hindu ou hinduísmo esotérico vêm este prayoga como um sistema de feitiçaria tântrica.
[2] Conhecido como o ritual dos 5Ms: o consumo de carne (māṃsa), vinho (madya), a cópula sexual orientada (maithuna), grãos tostados (mudrā) e peixe (matsya).
[3] Por este fato Grant associa a tradição Krama a tradição Kaula, se enganando muitas vezes quando cita a tradição Kaula para dar embasamento as suas teorias. Se por um lado ele se baseou no kaulismo dakṣṇācāra do Śri Vidyā para refinar o trabalho do XIº O.T.O., por outro lado ele se baseou no kaulismo vāmācāra para refinar o trabalho dos outros graus do Soberano Santuário, principalmente o IXº.
[4] Veja sua coleção de ensaios: At the Feet of the Guru. Starfire, 2004.

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