sábado, 18 de outubro de 2014

O Vinho Sabbático e o Graal do Diabo



Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Aleister Crowley and the Hidden God, Capítulo 7. Skoob Books, 1992.


DE ACORDO COM a sabedoria oculta antiga, o microcosmo é uma réplica do macrocosmo, que é o repositório de todo poder cósmico. Estas casas de poder podem ser exploradas quando a Kundalini está no centro apropriado ou campo de força do organismo humano.

Existem muito mais destes campos de força do que os shatcakras bem conhecidos. A Serpente de Fogo alterna seu foco e concentra diferentes tipos de energia em planos variados de consciência, e isso lança correspondentes padrões de objetividade na tela da consciência. P.e. é possível que um ser de Saturno difira de um habitante da terra (animal, vegetal ou mineral) meramente pela virtude da Kundalini estar ativa em um centro corporal diferente daquele através do qual ela opera em entidades terrestres. Eu uso a expressão “terrestre” embora naturalmente seja a Deusa quem produza na consciência a ilusão da terra, assim como ela produz a ilusão de qualquer outro planeta, estrela ou corpo celestial. É, afinal, a Kundalini que cria a ilusão do corpo humano, o microcosmo de onde é dito estar contido o macrocosmo. Entidades não-humanas nas quais a Kundalini é parcialmente desperta (parcialmente, embora permanentemente em relação a um ciclo de vida específico) possuem diferentes anatomias e tipos de inteligência daqueles nos quais ela permanece adormecida. Os próprios planetas são uma expressão da Kundalini em níveis particulares. É portanto possível equacionar os campos de força (a Kundalini nos cakras) com as forças planetárias e estelares. Como então nós estamos conscientes de tais planetas e etc., se a Serpente de Fogo não despertou em nós mesmos nas zonas de poder microcósmica correspondente? A resposta é que nós estamos vagamente conscientes da sua existência externa, embora não de sua real natureza e poder, da mesma maneira que estamos vagamente conscientes da existência de um caramujo, uma pedra, o oceano, sol, lua e estrelas, sem sermos capazes de realizar nossa identidade com a natureza essencial deles; sem, de fato, sermos capazes de compartilhar seus estados de consciência. Nós não podemos nos identificar com estes estados até que a Kundalini nos una através dos apropriados campos de força.

A Kundalini pode ser excitada e às vezes completamente desperta por qualquer um dos seguintes métodos:

(1) Concentração total e absorção da mente em sua fonte, realizado por intenso estudo ou pesquisa, ou por absoluta introversão; ou por algum estado de quiescência mental, ou concentração unidirigida da energia mental em um símbolo mágico ou sigilo.
(2) Drogas e álcool: “Para reverenciar-me tomai vinho e estranhas drogas, das quais eu direi ao meu profeta, & embriagai-vos destes.”1
(3) Choque (na forma de surpresa intensa, desgosto, êxtase e etc.); qualquer liberação súbita da energia subconsciente afeta a Kundalini.
(4) Êxtase induzido por música: jazz, kirtans, tambores rítmicos, mantra.
(5) Velocidade, que tenha tendência de “deslocar” o corpo astral e assim tornar possível um influxo voluntário da energia cósmica. A rodopiante dança dos Dervishes e os frenéticos giros dos praticantes de Vodu induzem a uma condição similar de receptividade as influências cósmicas; isso age diretamente na Serpente de Fogo.
(6) Atividade sexual magicamente controlada da qual a Kundalini é o objetivo imediato. Este é um método perigoso e demanda um alto grau de iniciação do praticante. Conforme o Kularnava Tantra declara: “Atinge-se o Céu pelos métodos que se leva ao Inferno”.
(7) Compaixão absoluta por todas as coisas criadas. Esta é a fórmula Budista par excellence; ela leva aos mais altos transes pela prática do Sahaja Samadhi, ou estado de auto-realização natural e permanente alcançado pelos Advaitas.
(8) Êxtase estético ou impessoal induzido pela contemplação da arte suprema.
(9) Entusiasmo religioso induzido pela devoção total ao Absoluto concebido sob a forma de uma deidade pessoal. A obsessão resultante leva a transcendência da individualidade e capta a energia cósmica. O devoto é apanhado no “céu” de seu “deus”.
(10) Violência realizada a intensidade de frenesi, seja masoquista ou o reverso. Isso trás à tona atavismos primevos, a resurgência que leva ao mais antigo (i.e. o original) estado de consciência que, sendo puro, é cósmico, ilimitado.

Uma vez que a Kundalini está desperta ela força seu caminho para cima pela sushumnanadi2 e, na medida em que ela o faz, seu progresso é marcado por visões maravilhosas e a aquisição de – até aqui – desconhecidos poderes, desde que os cakras estejam devidamente selados. O perigo deste tipo de Yoga é que se pode despertar o Poder Primevo antes que o devido equilíbrio tenha sido alcançado; uma descarga ocorre em alguma direção errada e o resultado é a obsessão.

É possível canalizar a energia estelar ou trans-mundana usando o organismo humano como um condensador. Isso é alcançado explorando-se as zonas de poder apropriadas, após a Kundalini ter sido animada e magnetizada. Um Magus pode, se ele assim desejar, desenvolver uma raça de entidades capazes de alcançar – mesmo por meios mundanos tais como o foguete – as estrelas e os planetas. A energia cósmica permanece adormecida na entidade até que ela seja lançada, seja magicamente ou mecanicamente, na atmosfera de uma estrela cuja energia ela representa e condensa. Tal entidade não terá interesse em, ou ponto de contato com, preocupações mundanas além daquelas que são essenciais para sua existência física. Ela pode até sentir intensa apatia ou inércia e, ao meso tempo, uma profunda nostalgia por um “paraíso perdido” vagamente sentido. Isso o imbui de um ímpeto irresistível de abandonar a terra e buscar o seu verdadeiro lar nas estrelas. Uma situação análoga ocorre entre os homens quando o artista sacrifica tudo pelo seu ideal de beleza, quando o devoto “morre” em nome de seu “deus” a fim de desfrutar da beatitude eterna na presença divina.

As partículas de substâncias que parecem areia fina no ajnacakra3 são permeadas com energia radiante da Kundalini. Trazendo a vontade em direto alinhamento com este centro, a Serpente de Fogo é desperta e induzida a ascender. Nas secretas Escolas de Mistérios do Oriente, discos magnéticos de metal são colocados sobre os cakras intervenientes com o propósito de coletar as energias liberadas pela ascensão da Serpente de Fogo. Essas energias são conservadas em recipientes hermeticamente lacrados e mais tarde infundidas nos ojas do Sacerdote que as desperta. A Mulher Escarlate é então inseminada com o fluído carregado com estes ojas. Ela eventualmente dá a luz a uma “criança” capaz de existir em uma estrela particular que é a carapaça exterior da alma a qual a criança incorpora.

A anatomia astral do homem é construída ao redor dos marmas e sandhis que agem como estações receptoras que canalizam e transmitem emanações de outros planos, outras dimensões; eles são portais através dos quais os kalas são transmitidos para o sistema endócrino para sua distribuição na rede sutil de nadis. Esta rede altamente complexa é formada por junções ou contra-correntes de energia que, vistas clarividentemente, constituem um mapa de vibrações magnéticas lampejando como raios contínuos. A lua é o pivô deste sistema e seus raios iluminam todas as zonas de poder do sistema solar. O Macrocosmo de Vitruvius4 é uma interpretação Ocidental parcial desta ciência secreta do Shri Vidya, mas o sistema completo se encontra oculto exclusivamente em uma figura mística – o Shri Cakra dos Tantras Hindus.

A bruxaria, como usualmente compreendida (ou incompreendida), é uma degradação e uma abominação desta ciência que em épocas remotas fora utilizada por grandes Iniciados. Ela é agora conhecida e praticada somente nos retiros mais ocultos da Ásia e da América do Sul, onde a ciência foi preservada intacta sob a máscara da bruxaria Africana que havia se degenerado – exteriormente – no Voduísmo, assim como sua contra-parte Européia se degenerou em mera feitiçaria misturada com uma inversão dos ritos Cristãos ortodoxos.

O uso do sangue menstrual e a urina das prostitutas nos ritos Sabáticos originaram-se da má interpretação da real natureza da Corrente lunar e sua confusão com as práticas sexuais caóticas que, ao longo dos séculos, infiltraram-se em alguns círculos tântricos menores gerando a repulsa e a detestação dos Iniciados.

Uma certa tradição fortemente guardada de origem Peruana que nunca fora divulgada na forma escrita, descreve a ascensão da Serpente de Fogo através da estimulação eletromagnética dos marmas, as zonas de detumescência no corpo da Mulher Escarlate. Finos discos de metal, previamente carregados com energia eletromagnética por exposição à radiação estelar, são colocados sobre o corpo da mulher, o qual foi previamente consagrado com ojas líquidos.i Os Peruanos, como os Egípcios, não mediam o tempo somente através de hastes piramidais; eles também recebiam os raios estelares através de discos especialmente moldados – da finura de uma hóstia ou até transparentes – em bacias preenchidas com ojas líquidos. Os discos de ouro e quadrados inscritos com hieróglifos e utilizados como talismãs5 eram meros ecos de sua utilização infinitamente mais antiga quando eles eram na verdade poderosos talismãs imbuídos com as emanações vivas da “deusa”; suas vibrações vaginais eram cultuadas no amuleto, cujos selos representavam as mudras (posturas, atitudes) assumidas pela Mulher Escarlate durante a transmissão da energia cósmica através da bateria de seu corpo.

Os Adeptos Orientais (Árabes e Indianos particularmente) apresentaram este saber. Eles mapearam os marmas corpóreos através dos quais os kalas são transmitidos dos céus6 e descarregados na corrente sanguínea via as glândulas endócrinas. A astrologia, originalmente, era a ciência da interação das energias micro e macrocosmicas. A verdadeira ciência se perdeu para o Ocidente, mas em certos santuários ocultos do Oriente a ciência mais antiga do fogo-estelar intercósmico é ainda conhecida e praticada. Nesta ciência, conhecida aos tântricos do Sul da Índia como Chandra Kala, a Lua (chandra) é de importância fundamental. Ela é o prisma – como a Mulher Escarlate, seu análogo terrestre – através do qual todos os kalas cósmicos passam. Os yantras sagrados7 são padrões criados por vetores de energia fluindo através dos marmas e sandhis quando o influxo dos kalas infringe sobre eles. Inversamente, dharana8 em um yantra particular invoca o influxo cósmico e o leva a operar. O ocultista conseqüentemente utiliza o yantra como um foco em seu esforço para invocar qualquer força requerida ou para penetrar em qualquer aethyr desejado.

É provável que o Adepto Árabe Solomon bem Aifa, tenha introduzido Karl Kellner9 em alguns destes Mistérios. Deve ser lembrado que Crowley recebeu estes ensinamentos via Theodor Reuss que, de acordo com seu próprio grau de alcance e habilidade em traduzi-los nos termos da Tradição Hermética Ocidental, havia os incorporado em suas lições, as quais estavam sendo preparadas para os Graus mais avançados da O.T.O. Aqui se encontra uma grande pedra de tropeço para uma total compreensão do trabalho de Crowley na esfera da magick sexual.

Nos interesses do conhecimento mágico, portanto, deve-se declarar que nem Reuss e nem Kellner provaram-se capazes de transmitir sem distorção esta ciência excessivamente sutil. Crowley reconheceu a deficiência no sistema conforme apresentado a ele por Reuss, mas não foi até que mais tarde em sua própria vida que ele tornou-se consciente da suprema fórmula que Kellner e Reuss haviam compreendido somente com relevância ao processo sexual, o aspecto mais material da Serpente de Fogo.

Em um precioso Comentário contemporâneo sobre um texto do Vama Marga que faz uma especial referência ao Shri Vidya em sua revisão do Chandra Kala,10 Crowley é mencionado como tendo falhado em compreender a natureza real das técnicas psico-sexuais as quais ele recebeu do Iniciado Árabe via Kellner e Reuss. Em uma nota de rodapé a uma cópia datilografada deste Comentário, Crowley nega a acusação de falha e adiciona que o comentador “não viu meu manuscrito sobre o assunto”. É uma mera conjectura hipotética a qual manuscrito Crowley se refere; que ele pode ter pós-datado seu ensaio sobre o Elixir da Vida (escrito em Cefalù) parece certo, pois nenhum de seus registros de operações mágico-sexuais inclui quaisquer referências aos kalas, exceto em sua forma mais densa. Contudo Crowley reconheceu a natureza altamente esotérica das secreções referidas no AL. Isso pode ser provado pelas suas observações em uma carta a Norman Mudd (Frater O.P.V.) datada de 30 de Outubro de 1923: “Eu duvido se a palavra ‘secreto’ é usada no AL em seu sentido vulgar. Eu a assimilo em idéias a secreção.” Isto, e certas referências aos processos Alquímicos mostram que desde 1923 Crowley estava alerta a real importância destes “segredos”.

Concernente a estes kalas, o Comentário Tântrico observa:

O que não é (geralmente) conhecido é que estas secreções não são meras excreções, mas fluidos valiosos que contém em si mesmos as secreções das glândulas endócrinas em uma forma muito mais pura, e mais adequada para utilização humana do que os extratos de glândulas e produtos de glândulas dessecadas da organoterapia dos dias atuais. Deve ser lembrado que os extratos das glândulas endócrinas, quimicamente produzidos, são tirados de glândulas de animais mortos; estes extratos carecem de substâncias e certas essências que existem somente nos seres vivos; também, eles são diferentes em seres humanos e animais. As secreções femininas são produzidas no laboratório da Deidade, o Templo da Mãe, e elas suprem justamente o que é necessário para o ser humano em proporção exata.

De acordo com Arthur Avalon,11 Kamrup12 é uma tirtha terrestre ou zona de poder que é representada pela yoni da Deusa: “Aqui, em Seu Santuário, a menstruação da terra [...] é dita manifestar-se”. Em outras palavras, Kamrup concentra as essências vaginais em seu aspecto lunar. Este lugar é o assento do Tantra, daquela manifestação contínua e cíclica do poder cósmico representado no microcosmo como o calor periódico da fêmea humana, o período que divide13 o caos do cosmos. Ele tipifica o costume, ritu, ou rito, um emblema do tempo “noturno” do congresso sexual ou criativo.

Existe certo Templo secreto em Assam no qual um fogo sempre crepitante, remanescente da luz sempre acesa dos Rosacruzes, bruxuleia ante a imagem da Kundalini ornamentada em metais condensados a partir de vibrações do espaço exterior. É na forma de uma entidade tendo mamas de electrum magicum14 e um corpo de ojas vitrificados. A partir de sua yoni fluem ondas contínuas de energia que mudam de cor quinze vezes durante uma meia lunação. Esta imagem primordial da Deusa, ou Mulher Escarlate, é o tipo de todos aqueles glifos ocultos simbólicos da Serpente de Fogo, a Kundalini em sua fase escorpiônica de regeneração através da corrupção. As múltiplas matizes ou raios de luz iridescentes são às vezes vistas pelos yogis durante a meditação. Elas são à base do simbolismo do arco-íris representado na hermenêutica Cristã em conexão com o ameaçador dilúvio de águas (caos), interpretado como uma promessa que um tal dilúvio não soterrará completamente a humanidade.

O nome do arco-íris, qesheth ou qashed, é qabalísticamente idêntico com o Qadosh místico conhecido aos Iniciados Judeus. Esta fora uma forma de magick sexual frequentemente praticada por Crowley quando a “lua” estava cheia.15

O simbolismo do leque-de-muitas-matizes ou yoni é refletido em um rito antigo dos Tantras Hindus onde ele era glifado pela “yoni salpicada por flores” da Deusa.16 Em um Culto anterior, o rabo em forma de leque do pavão, adorado pelos Yezidis da Mesopotâmia, era um símbolo cognato.

No saber Alquímico medieval a fórmula da corrupção era representada pelo estágio do elixir caracterizado por uma certa iridescência remanescente do simbolismo do arco-íris do dilúvio da tradição bíblica.17 A fórmula essencial da corrupção era tipificada pelos Cristãos pela figura da Prostituta da Babilônia, a Mulher Escarlate do Apocalipse. Mas eles falharam em compreender que isso era somente uma referência simbólica, e como certos Hindus, eles viam as particulares manifestações femininas como fecais e sujas.

O Iniciado, ao contrario, considera estas essências como vivas, não mortas, matéria, a própria matriz dos elixires vitais utilizados nos ritos místicos da regeneração. Somente o mal informado vê estas substâncias como sujas. Tais pessoas perderam ou nunca tiveram contato com a tradição mágica primordial; elas são levadas pelo sentimento de culpa engendrada por conflitos internos e complexos psíquicos não-resolvidos. Tais atitudes têm sido incutidas na psique por sacerdotes de cultos paternalistas dos quais o mais recente Judaísmo e o Cristianismo histórico são exemplos típicos. Vistos sob luz de uma fórmula natural e portanto mágica – pois não existe nada por completo sobrenatural, nada que esteja fora ou além da natureza – os kalas multicoloridos da Deusa, o simbolismo do arco-íris conectado com o dilúvio e as luzes iridescentes que lampejam e brilham durante a performance da Grande Obra são – cada uma de sua forma – manifestações de um estágio idêntico da Obra: o da corrupção, decomposição, e dissolução definitiva tipificada nos Tantras pelo smashanam ou terreno de cremação, o altar supremo de Kali onde os desejos multitudinários de um devoto são queimados a escuridão (Kali) na pira funerária.

A negra fase18 é representada Alquimicamete pelo dragão negro e astronomicamente por Escorpião, o glifo da Mulher Escarlate e da Serpente de Fogo. [Glifo de Virgem] (a virgem) se torna [glifo de Escorpião] (a prostituta), no seu caminho para se tornar Capricórnio (Pã – o Todo). Esta é a tripla fórmula de Babalon, cujo Cálice é o repositório de vibrações cósmicas; este também é o significado mágico da Fórmula de IAO (Isis-Apófis-Osíris), uma chave fundamental para o sistema de Crowley. Nós não podemos, no presente contexto, omitir aqui sua explicação.19

“I” (yod),20 o Eremita do Tarot, é a semente solitária atribuída a [glifo de Virgem] representada pela Virgem. “A” é Apófis, a serpente do “mal” (glifo de Escorpião) de corrupção e dissolução, representada pela Prostituta. “O” é o verdadeiro “olho”, ayin ou yoni atribuído a [glifo de Capricórnio]; i.e. a Mulher Escarlate representada pela lua cheia – a Deusa Quinze – na qual a concentração de toda cor ou kala alcança sua apoteose. Este é o significado secreto de IAO, que oculta a fórmula que tem sido praticada por longas eras pelos Adeptos que trabalhavam a Corrente Draconiana em lugares tão distantes um do outro quanto Khem (Egito), Suméria, Assam, Mongólia e Peru, para mencionar poucos dos mais antigos assentos deste poder.

Crowley desenvolveu a Fórmula IAO em FIAOF,21 trazendo em linha com, e assumindo-a, como a Cabeça-Divina de Thelema – Ra-Hoor-Khuit. Enfatizando dessa maneira a Criança (“F” = vau, “V”, o Filho), ele estabeleceu o Culto do Amor sob Vontade como uma expressão dinâmica da fórmula original. Isso capacita o magista a encarnar a “criança” de sua Vontade; esta é a criança-vontade da Besta para criança-amor de Babalon. O epíteto “coroado e conquistador” conforme aplicado a esta criança indica a soberania da vontade no Culto de Crowley.

Em Liber Aleph Crowley refere-se à criança como a “vontade-botão”, e esta é a mola mestra do processo de controle onírico previamente explicado. A criança é formulada em níveis astrais de consciência e reificada em Assiah (o mundo material) pela fórmula da magick sexual.

Os catamitas sagrados, frequentadores dos Templos da antiga Índia, eram treinados especialmente na ate de controlar a descarga periódica dos kalas utilizados como um mênstruo para a encarnação da “criança”, o objeto específico pelo qual o círculo mágico (cakra) foi formado. O rito era desempenhado no período da lua cheia, i.e. quando ambas as luas celeste e fisiológica, no macrocosmo e no microcosmo respectivamente, coincidiam.

Crowley frequentemente tentava materializar ouro ou atrair riquezas por meio do elixir rubeus, o fluido vermelho. É por isso que a parceira utilizada no rito é conhecida como Mulher “Escarlate”. Crowley, no período de sua utilização mais frequente desta Corrente lunar, parece ter estado inconsciente que a natureza iridescente do ciclo como um todo torna alguns dos kalas (ou cores) invisíveis; e que vários Círculos de 7, 14, 28, etc. (diferentes mulheres no antigo sistema Kaula) eram necessários pelo fato que cada suvasini representava um digito ou dia do ciclo lunar completo em ambas suas fases, negra e clara. Os Adeptos do Sul da Índia, particularmente, catalogaram com cuidado a natureza precisa dos fenômenos astrais ou oníricos que era possível reificar em cada dia das quinzenas negras e claras.

A escrita mais próxima desta complexa ciência dos kalas nos escritos ainda existentes de Adeptos Ocidentais aparece em um Comentário do segredo da O.T.O. Trabalhos que Crowley revisou de acordo com suas próprias pesquisas.22 Ele, neste particular contexto, se refere à utilização da Corrente lunar como se segue:

Diz-se que a segunda pessoa é inútil, até mesmo perigosa, quando a influência da lua mostra-se; mas no segundo dia e depois, embora talvez não no último dia, o sacramento seja mais eficaz do que em outros momentos, como figurado por nossos antepassados, os Alquimistas, em sua preferência pela tintura vermelha ao invés da branca. Nisso nós acreditamos, embora queiramos deixar claro que não é provado.23

Crowley também parece ter estado inconsciente que a função real do Qadeshim24 relacionava-se não a técnica homossexual, mas sim a fórmula aqui discutida. Gerald Massey, antes de Crowley, corretamente avaliou a natureza desta prática em sua elucidação monumental das fases ocultas do pensamento humano em The Natural Genesis, publicado em 1883. Parece portanto altamente provável que a fórmula do Qadeshim envolvia o uso do “vazo impronunciável” que Crowley mal interpretou como o ânus e ao qual ele se referia frequentemente, em conexão com as Operações Mágicas, como p.v.n.25

Esta é uma fonte de erro que poderia levar a confusão sem fim se os ocultistas não tivessem em mente a etimologia mágica dos termos empregados. I.e., como sempre, uma chave infalível à natureza dos elementos envolvidos. Considere p.e. a palavra Qesheth, um arco, e Qadosh, aquele que é sagrado ou secreto, i.e. secreção. O arco é um símbolo de Nuit. No O Livro de Thoth ele é atribuído ao Caminho de Gimel, que por sua vez é atribuída à lua. O título do atu é A Sacerdotisa da Estrela de Prata. Ela é descrita com o arco entre suas coxas. O arco é também o arco-íris, aquela mistura iridescente de kalas que anuncia o dilúvio. Esses são os secretos kalas que o Qadeshim ou as “Prostitutas do Templo” secretam durante as fases de manifestação cíclica. A fórmula era às vezes ideografada como o Olho de Set. Essa era a Estrela de Prata, Sothis, a Estrela da Anunciação. Sua aparição anunciava a inundação do Nilo, o rio cuja rica lama vermelha aluviana literalmente depositava, ou reificava, a terra de Khem (Egito).

Este simbolismo fora explicado em O Renascer da Magia; aqui é necessário somente enfatizar a conexão entre a fase lunar da fórmula e o Olho de Set, conhecido nesta fase como o Horus “cego”, i.e. Horus na escuridão do submundo (Amenta), Horus em níveis astrais, o Deus que “se manifesta no glamour do transtorno fisiológico”.

O antigo saber testemunha a supremacia do p.v.n., não em um sentido anal, mas naquele sentido no qual o Olho de Set é representado pelo kala lunar26 de Nuit em suas fases materiais de manifestação como a Mulher Escarlate. Esta fórmula é à base do XIº O.T.O., distinta da prática sodomita com ambos os sexos que – em sua inversão de toda criatividade – relembra as práticas da bruxaria em suas formas mais recentes e degradadas. O genuíno Caminho da Mão Esquerda ou Caminho Retrógrado não envolve práticas não-naturaisii tais como aquelas que ocasionaram a degeneração dos Mistérios Gregos, mas a utilização da corrente estelar primordial: para consecução mística pela introversão dos sentidos; para consecução mágica pela materialização da vontade-botão formulada em níveis astrais e encarnada no plano de Assiah. Esta é a fórmula do Deus Oculto, Ra-Hoor-Khuit, a Criança Horus cuja manifestação é tornada possível pela fórmula complementar de Hoor-paar-Kraat, o Horus “cego” cujo poder, ShT (Set), está oculto no veneno da serpente (glifo de Escorpião), e cujo acesso causa a morte instantânea.

É através da Mulher Escarlate (glifo de Escorpião), “N”, Nun,27 cujo glifo é o peixe, que Set28 vibra sua palavra.

A correta interpretação do Rito do Arco-Íris (QShT) e do Rito de Qadosh (QDSh) – i.e. o Olho de Set conforme distinto do Olho de Horus – deve ser buscada neste simbolismo. Existe uma Deusa Asiática chamada Katesh, Qatesh. Ela é representada de pé sobre uma leoa, carregando em sua mão direita um laço com flores, e em sua mão esquerda duas serpentes. A leoa é Sekhet, típica do calor sexual, representada pelas letras Shin e Teth (ShT); o laço ou anel, as flores e serpentes, são ideogramas da letra Qoph que significa literalmente “a parte de trás da cabeça”, que é a sede das energias sexuais no homem. Qoph é atribuída a Chave do Tarot intitulada A Lua; é o aspecto lunar da energia sexual que é representada pelo QTSh ou Qatesh, a Deusa cujo nome retoma sua natureza mística.

Este simbolismo revela a fórmula do XI° O.T.O., que é o reverso e complemento do rito do IX°. Ela não envolve a utilização sodomita do sexo, conforme Crowley supôs, mas o uso da Corrente lunar como indicado em seus Diários Mágicos pela frase El. Rub. (Elixir Rubeus).

Os antigos Mistérios Draconianos do Egito sobre os quais o Culto de Shaitan-Aiwass é em última análise baseado mantêm silêncio em relação a qualquer fórmula sodomita exceto como uma perversão da prática mágica. Nesta Tradição – a mais antiga do mundo – Horus e Set originalmente representavam o Norte e o Sul; o calor de Set era simbolizado pelo escurecimento ou o crepúsculo do poder do sol no sul, também por Sothis, a Estrela que anunciava a inundação periódica do Nilo, misticamente representado como um fenômeno dos Mistérios Femininos. A lama vermelha, a inundação, o Horus “cego”, o Osíris envolto em ataduras, o sol chorando ou eclipsado, todos eram igualmente simbólicos do ciclo periódico da natureza feminina. Set, como o assento, não simbolizava a fundação literal, mas a fundação no sentido lunar e Yesódico do fluxo fisiológico que é a verdadeira base da manifestação e estabilidade. Similarmente, o simbolismo retrógrado da paródia medieval destes Mistérios antigos, com os assim chamados Sabbath das Bruxas e os obscaenum, era uma referencia ainda possível de se interpretar a fórmula lunar. A má-interpretação destes Mistérios em termos anais, é para o iniciado, tanto uma perversão da doutrina (e como tal, uma blasfêmia sacramental) quanto o recitar de trás para frente o Pai Nosso e a violação ou profanação do sacramento do Cristianismo ortodoxo.

Uma prova mais além da antiguidade e origem pré-solar do rito da Mulher Escarlate pode ser encontrada na imagem do gato que presidia o Sabbath. O gato, uma outra forma da leoa, simboliza a Corrente lunar; seu nome supre o nome-tipo vulgar para o corte vaginal ou fissura, e as Sacerdotisas (i.e. as Kadeshim) que serviam a Missa da Deusa eram catamitas, treinadas – como eram as suvasinis Indianas – no controle mágico do gato ou fluxo catamenial periódico que matava, eclipsava ou absorvia a luz solar. Como tal, o Gato é o “vaso impronunciável”, e ele era uma má interpretação do simbolismo que fez com que Crowley o confundisse com o ânus.

Isso não quer dizer que a utilização sodomita do sexo para propósitos mágicos não seja uma fórmula válida.28 Ela é assim de uma forma destrutiva e é somente legitimamente empregada em certos tipos de Operações. Ela foi condenada como uma fórmula em ambos o Egito antigo e os Mistérios Indianos mais recentes, onde seu uso foi associado quase invariavelmente com feitiçarias malignas. De acordo com Dion Fortune29 fora o abuso desta fórmula que levou a dissolução da Tradição Esotérica Grega. É significativo que os Gregos, que eram incapazes de penetrar nos verdadeiros significados dos Mistérios, se tornaram, como Gerald Massey os descreveu, “meros mistificadores” tendo perdido contato com a gnose fisiológica sobre a qual os Mistérios foram baseados:

Os Gregos não podiam dominar o sistema da mitologia Egípcia, e os hieróglifos eram para eles a letra morta de uma linguagem morta [...].

O que Heródoto sabia sobre os mistérios ele mantinha religiosamente oculto [...] o que Platão havia aprendido o tornou ciumento das alegorias para as quais ele não possuía pista. Fora de seus próprios mistérios os Gregos permaneciam por completo fora da matéria. Eles, como seus escritores alegam, haviam herdado sua mitologia e os nomes das divindades, sem saber sua origem ou significado. Eles supriram suas próprias versões livres para histórias as quais eles nunca possuíram a chave. Sempre que encontravam qualquer coisa que não compreendiam, eles a interpretavam de maneira mais eficiente de acordo com seu próprio conhecimento [...].

Nada poderia ser mais fatal do que tentar ler ou interpretar os pensamentos do passado mais remoto através dos próprios olhos [...] A reprodução dos mitos primitivos do estágio Ariano da linguagem na Grécia é comparável com a fabricação moderna de antigos Mestres levados a diante em Roma.

O caminho do engano no qual a física Egípcia foi convertida por Platão e seus seguidores da metafísica Grega, torna o platonismo somente em outro nome para impostura. Philo reclama que os Gregos haviam trazido uma névoa sobre o aprendizado, o que tornava impossível descobrir a verdade. A mesma acusação pode ser substancializada sobre outras formas contra seus próprios conterrâneos. Na Índia os mitos vaporizaram [...]. Nos Vedas as formas estão no processo de desretratação e sendo evaporadas em abstrações doutrinárias; os dados completos da terra estão se tornando aspectos desvanecentes de uma ilha da fantasia. A decadência da mitologia deve ser encontrada na poetização Grega, no eufemismo Hebreu, na vagdão Védica. O que os mitos têm para nos dizer depende de sua preservação da forma antiga.30

Diodorus Siculus confirma estas observações; ele observou que os Egípcios viam os Gregos como impostores que “reeditaram a antiga mitologia como sua própria história”.31 Se por “mitologia” nestas citações nós substituirmos a palavra “mistérios” será observado quão importante é aderir às fases anteriores dos Cultos Egípcios conforme representado pelas tradições estelar e lunar (i.e. todas as tradições pré-solares), as quais é um dos objetivos deste livro elucidar. São Paulo, naquelas poucas passagens com as quais seus inimigos não se intrometeram, também inclui este testemunho: “Este não é o primeiro espiritual, mas sim aquele que é natural; e depois aquele que é espiritual.”32

Outra forma na qual a fórmula da Mulher Escarlate é lembrada no simbolismo do culto da bruxaria medieval, ainda que de forma distorcida, é na velha decrépita e seu gato ou espírito familiar. A decrépita, velha ou avó é a antiga ou primeira mãe, a Adikalika ou kala primordial, personalizada nos Tantras Hindus como a Deusa Kali. Ela é a adishakti, o poder primordial que mostra para ela as cores ou kalas, periodicamente, quando o sol está eclipsado. O gato, seu espírito familiar, cerca aquele crepúsculo total em uma forma de escuridão que é a matiz típica de Kali. Esta é a Noite do Tempo na qual estão ocultos os esplendores radiantes do sol nascente, ou filho, sua criança. É assim que Set ou Sut,33 abre seu “olho” e projeta o sol, a criança da lua – “ele que aparece como o dia”.

As implicações práticas de ambas as fórmulas de Set e da Mulher Escarlate se equiparam: a produção de Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada e Conquistadora que coloca seu selo de soberania sobre a magick mais exaltada de Thelema, pois amor (Babalon) é a lei,34 amor sob vontade (Horus, Hadit). Assim é a Mulher Escarlate capaz de alcançar Hadit pela lei da Besta.35



Notas

1. Pesquisa sobre os mistérios do AL (do qual este verso é tirado, AL II:22) torna duvidoso se as drogas e vinhos referidos são intoxicantes conforme usualmente compreendido. São referências aos kalas ou vibrações vaginais cuja alusão previamente já foi feita.

2. O canal central representado pela espinha no homem e o Pilar do Meio no sistema qabalístico representado pela Árvore da Vida.

3. Veja O Renascer da Magia, Capítulo 2.

4. Veja Magick onde o Macrocosmo de Vitruvius é descrito em um desenho adequado para o topo do altar.

5. Como no prayoga ou seção mágica do celebrado Saudarya-Lahari (Oceano de Bem-Aventurança), o Hino a Suprema Deusa e textos cognatos.

6. Particularmente o céu-noturno simbolizado por Nuit.

7. Especialmente o grande Shri Yantra e a Yoni de Dakshinakalika. Veja Figuras 2 e 4.

8. Neste contexto, concentração mental.

9. Dr. Karl Kellner, um Adepto Austríaco que remodelou a O.T.O. em 1895 ao longo das linhas conhecidas a Crowley quando ele assumiu o lugar de Reuss, finalmente, em 1922. Kellner morreu sob misteriosas circunstâncias em 1905.

10. I.e. em sua aplicação ao papel da Mulher Escarlate.

11. Hinos a Deusa (Avalon), introdução, pp. 11.

12. Literalmente, a forma ou imagem do desejo. Kamrup foi à antiga capital de Assam.

13. Compare AL I:29: “Pois Eu estou dividida pela causa do amor, durante a chance de união.”

14. Uma mescla de sete “metais” planetários ou kalas solidificados.

15. Veja The Magical Record of the Beast 666, especialmente a seção intitulada Rex de Arte Regia.

16. Karpuradistotra (Hino a Kali), verso 17.

17. A história de José e seu “casaco colorido” reflete uma fórmula similar.

18. Ela também encontra expressão na vida espiritual do devoto. Veja Magick, Capítulo 20.

19. Veja também Magick, Capítulo 5.

20. A letra Hebraica Yod significa “uma mão”; ela é simbólica da força ativa ou moldante e assim equipara-se com o simbolismo sexual por analogia.

21. Veja Magick, Capítulo 5.

22. Existem algumas alusões veladas a esta ciência nas instruções privadamente circuladas na Loja Fraternitas Saturni dirigida por Eugen Groshe.

23. A seção intitulada “Sobre o Curso da Lua e Sua Influência” do escrito intitulado De Arte Magica, Secundum Ritum Gradus Nonae O.T.O.

24. Tradicionalmente traduzido como “Sacralidade face ao Senhor”.

25. I.e. per vas nefandum: “através do vaso impronunciável”. Veja The Magical Record of Beast 666.

26. Em uma tradição anterior ele fora representado pelo kala do Fogo-Estelar ou kala estelar de Nuit.

27. Nun significa “um peixe”. Ela é atribuída ao signo zodiacal de Escorpião, o dragão das profundezas.

28. I.e Sh (Espírito), T (Matéria): as letras Shin e Teth dos alfabetos Caldeu e Hebraico.

29. Seu abuso, i.e. seu uso para propósitos meramente profanos e sem intenção mágica, é descrito por Crowley como “uma abominação”.

30. Auto Defesa Psíquica, Pensamento – São Paulo.

31. The Natural Gênesis, Vol. II.

32. Idem, p. 186.

33. I Cor. XV: 46.

34. O Negro.

35. I.e. a lei da periodicidade e dos ciclos recorrentes.

26. AL III: 45.



Notas de Fernando Liguori

i. Existe ainda uma prática onde tais discos metálicos são fervidos em ojas líquidos antes de serrem colocados sobre o corpo da Mulher Escarlate. Esta técnica me fora transmitida diretamente por um Mestre peruano iniciado nos xamânicos Cultos Ofidianos da América Latina.

ii. A prática do IXº(-) de congresso não-natural para Operações de Zumbeísmo ou Postura da Morte para o controle onírico não envolve as técnicas do XI°. Práticas de congresso não-natural servem para Operações com o 24° kāla associado ao gênio qliphótico Niantiel. O IXº(-) envolve a energia solar-fálica operando em Amenta. Niantiel é o Guardião do 24o Túnel de Seth. Este é o caminho da sodomia, o reverso de Tiphereth, o Sol infernal em Amenta, o falo no ânus, como distinto do Sol Interior. O escorpião e o besouro são glifos do “sol negro”. Os mistérios que este túnel presentificam são aqueles da magick sexual e a morte mágica, bem como a magia negra e o vodu. Veja O Lado Noturno do Éden, Kenneth Grant.


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