sábado, 25 de outubro de 2014

Uma Nota sobre Seth-Tifon



Fernando Liguori


Extrato do texto «A Redescoberta da Tradição Sumeriana», no prelo.


O Liber XXXVI[1] de Crowley contém a formula para estabelecer o contato com os Antigos[2] através da invocação de Set, filho de Ísis e irmão de Hórus.

Kenneth Grant, Beyond the Mauve Zone, p. 123


Como é conhecido, o foco de Grant por toda sua obra, assim como a construção e organização da O.T.O. Tifoniana,[3] sempre foi à figura composta de Seth-Tifon. Seth é o deus egípcio associado ao caos, o deserto, as tempestades, estrangeiros e terras estrangeiras – quer dizer, «alienígenas» –, com a morte de Osíris e a luta eterna com Hórus, filho de Osíris. Tifon, por outro lado, é um deus grego com muitos dos mesmos atributos que o deus da escuridão, tempestades e caos. Tifon, como Seth, nasceu anormalmente de sua mãe e, como Seth, é o inimigo do panteão. Foram os gregos que identificaram Seth como uma versão de seu próprio Tifon, formando o Seth-Tifon que aterrorizou o Mediterrâneo. Existe muita especulação nos círculos acadêmicos acerca das lendas que envolvem Tifon, principalmente se ele é uma versão grega mais moderna do deus adorado na antiga Suméria, especificamente no épico babilônico sobre a criação, Enûma Eliš, no episódio da monstruosa serpente Tiamat, que foi morta por Marduk na grande batalha. Em suas trilogias, Grant identifica Seth-Tifon com Aiwass, com quem Crowley manteve contatos supramundanos, assim como o Shaitan dos Yezidis, conectando todos a Suméria.

Estranhamente, contudo, Crowley não deu ênfase a Seth-Tifon da mesma maneira que seu discípulo, exceto como um tipo de Hórus duplo, como vimos anteriormente.[4] Crowley preferiu dar mais atenção a Hórus em várias de suas formas como Hoor-paar-Kraat e seu composto, Ra-Hoor-Khuit. Crowley se identificou com o que ele chamou de natureza «fálico-solar» de Osíris e Hórus. Seth-Tifon ou o próprio Seth eram figuras importantes no panteão egípcio da Golden Dawn – onde Seth aparece como a personificação do mal nos rituais associado à ideia do Limiar, representando as Sephiroth avessas ou Qliphoth.[5] Neste caso, Seth não era identificado como uma deidade que pudesse receber adorações. Se um membro da Golden Dawn construísse rituais na intenção de se invocar ou evocar Seth, isso seria considerado um ato de magia negra, quer dizer, uma ação nociva e totalmente negativa.

Para Kenneth Grant, no entanto, o caráter de Seth reside no fato de ser um símbolo rico, de importância cósmica. No seu sistema Tifoniano, Seth ultrapassa Hórus e Osíris em relevância na doutrina de Thelema. Enquanto que Osíris e Hórus representam o aspecto solar da religião egípcia, Seth ou Seth-Tifon representa o aspecto estelar. Osíris e Hórus podem ser identificados com o sol que nasce e se põe – e portando com o leste e o oeste respectivamente –, mas Seth é identificado com as estrelas circumpolares, em particular com a Grande Ursa e o norte, a direção do nadir do sol embaixo da terra ou no reino do Amenta: a Morada dos Mortos. A Ursa Maior foi identificada com Seth já no O Livro dos Mortos, especialmente com a «coxa» de Seth em uma parte crucial da cerimônia, a Abertura da Boca. A Grande Ursa também é um asterismo crucial na Gnose do Necronomicon como o Portal entre este mundo e os reinos transdimensionais e ele é aberto quando a Grande Ursa pende de sua cauda no céu.[6]

Kenneth Grant descobriu uma associação muito próxima entre Seth e o Necronomicom, o que reforçou sua teoria acerca dos Túneis de Seth. Estes túneis são caminhos ocultos no Lado Noturno da Árvore da Vida – conhecido aos qabalístas como Sitra Ahra ou o «Outro Lado» – que ele associa aos Qliphoth, os cascões de criações prévias destruídos devido ao desequilíbrio resultante de Sephiroth despedaçadas, especialmente a Sephira Geburah ou «Severidade». Estes cacos de uma Criação Antiga percorrem o cosmos como espíritos malignos ou forças demoníacas. Para Grant isso é apenas um juízo de valor declarado por devotos monoteístas que ignoram a verdadeira natureza deste conhecimento.

Mas em Seth reside outro valor em importância para nós. Um exame profundo das características de Seth e sua importância no Egito antigo revela uma relação próxima entre o entendimento egípcio de Seth e o processo de iniciação na O.T.O., seja através dos rituais entregues por Crowley ou a doutrina Tifoniana promulgada por Grant.

Hoje em dia há muita discussão nos meios acadêmicos acerca da natureza e identidade de Seth. Este estudo não abrange somente o campo da egiptologia, mas o estudo do Gnosticismo e da Qabalah. Seth permanece uma figura enigmática, um estranho na religião egípcia. O «animal» identificado com Seth – a criatura totêmica ou o zootipo com o qual Seth é identificado nos hieróglifos – permanece sem identificação e até a etimologia do nome Seth é motivo de controvérsias. Portanto, não a como ir muito além do que já existe. No entanto, ao avaliarmos o conceito extenso de Seth proposto por Crowley, Grant e a gnose do Necronomicon, novas possibilidades de um entendimento completo surgem. Veremos isso a seguir.





[1] Também conhecido como A Safira Estrela. Veja Beyond the Mauve Zone, Kenneth Grant. Starfire, 1999.
[2] Old Ones.
[3] Hoje rebatizada com o nome de Ordem Tifoniana. Atualmente, em período de silêncio.
[4] Sobre esse assunto, falaremos mais acerca do Liber 36 como uma reformulação do Ritual do Hexagrama da Golden Dawn adiante.
[5] Veja particularmente a instrução «Z-1: A Entrada no Limiar» da Golden Dawn. Trata-se da análise do ritual de iniciação do Neófito. Seth-Tifon ocupa uma das Estações Invisíveis no ritual, onde ele é descrito como Omo-Satã, Tifon, Apófis, Seth. Esta persona maligna é uma figura composta dos poderes que surgem dos Qliphoth. As outras duas Estações neste Caminho – o do Pilar do Meio na Árvore da Vida, conhecido como Samekh – são Hathor e Harparkrat. Às vezes Hathor é considerada a consorte e parceira de Seth em seus deleites alcoólicos. Por sua vez, Harparkrat (Harpocrates ou Hoor-paar-Kraat, a forma criança de Hórus), junto com Seth e Hathor, representam a verdadeira natureza do Aeon de Hórus. Veja A Aurora Dourada de Israel Regardie, Madras, 2010.
[6] Veja O Necronomicon, editado e anotado por Donald Tyson, Madras, 2007.

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