quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Controle Onírico pela Magick Sexual




Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Aleister Crowley and the Hidden God, Capítulo 6. Skoob Books, 1992.


Nós alcançamos um estágio em nossa investigação onde, tendo explicado o sistema de magick peculiar de Crowley como um desenvolvimento dos métodos ocultos representados por e nos Tantras (particularmente os Lingacaras e os Yonicaras), nós podemos ir a frente para examinar seu significado como um método conscientemente aplicado de controle onírico pela magick sexual.

É necessário explicar que o estado de sonho não abrange somente os sonhos que ocorrem durante o sono, mas também delírios ou ilusões, devaneios, fantasias, alucinações, visões e o mundo da mente em geral. O estado de sonho (swapna) abrange a vasta gama de atividade mental e astral que está confinada por um lado pelo vazio livre de pensamento do sono sem sonho (sushupti) e por outro lado pelas atividades do corpo no estado de vigília (jagrat). Todas estas atividades têm sua origem no estado de sonho, quer elas se manifestem como reflexos instintivos ou atos volitivos por assim dizer.

Dion Fortune enfatizava a importância do sonho-desperto conscientemente controlado.1 Baseando suas práticas em aspectos dos Exercícios Espirituais do Santo Inácio de Loyola, ela demonstrava o valor mágico do “sonho real”, uma expressão derivada do famoso romance de George du Maurier, Peter Ibbetson. A teoria é que se um homem compuser uma visão com suficiente intensidade ela induz uma abstração tão total dos sentidos que o sonhador se funde com um sonho desperto, onde ele é o criador e mestre de suas próprias fantasias. Se poderosamente formulado, ele concretiza, reifica, e assume uma realidade equivalente em grau – e frequentemente até mais – do que aquele que é experienciado no estado de vigília comum. As vantagens de se ser capaz de induzir tal estado são evidentes, particularmente se forem estudados sob o prisma da psicoterapia. As limitações, de um ponto de vista mágico, são também evidentes.

Crowley inverteu o processo criando o caminho para uma forma de controle onírico que capacita o sonhador a fazer infinitamente mais do que abstrair seus complexos no nível swapnico, pois o sonho com intenção é uma atuação consciente no plano astral. Meramente traduzir as fantasias de alguém para o pano astral, contudo, é uma experiência regressiva que, embora possa ela ser tão lúcida quanto um sonho induzido por drogas, é contudo não mais uma admissão de falha de ligar a terra ao sonho e influenciar o mundo objetivo. Embora elementos externos sejam em última análise ilusórios, eles são não menos do que os resultados de desejos obscuros e impulsos que existem nos níveis astrais. O verdadeiro controle onírico, portanto, não somente requer a satisfação do desejo (i.e. a realização da vontade) em um estado de sonho, mas, como observado por Austin Spare, requer a representação viva dele agora na total consciência de vigília no mundo desperto.

É pouco provável que Spare e Fortune praticassem algum tipo de controle onírico que tenha tornado possível para eles, em suas respectivas esferas, colher o benefício total de uma prática deste nível. Parece que Fortune não foi bem sucedida na real-ização de seu sonho, e Spare traduziu suas vívidas experiências internas em uma quantidade massiva de arte que o mundo ainda não avaliou apropriadamente. Crowley, por outro lado, conectou a terra sua Grande Obra e a Corrente que ele iniciou está agora, mais de cinquenta anos após a sua morte, inspirando multidões a se apegarem à liberdade individual desde que Adam Weishaupt e os Illuminati transmitiram a fagulha que deu início à conflagração que mudou a história da humanidade no séc. XVIII.

Em tempos mais recentes o ocultista Alemão Eugen Grosche também parece ter estado consciente da ciência dos kalas. Em seu Blätter für Lebenkunst privadamente circulado, ele mostrou como a polaridade sexual requerida pode ser induzida por passes manuais feitos sobre as zonas erógenas do corpo da mulher selecionada como um canal para transmissão de forças mágicas. Esses passes ou mudras, embora feitos manualmente ou com uma baqueta previamente carregada com ojas, pode – embora nem sempre precise – carregar a superfície do corpo da mulher. A idéia é despertar os pranas corpóreos causando sua convergência sobre o muladharacakra ou a yoni. Os pranas saturam a Kundalini, já inflamada pela respiração rítmica, mantra, dança que leva ao êxtase (especialmente a dança do ventre que provoca o fogo latente) e coito sexual no qual a mulher inibe seu orgasmo. Crowley frequentemente suplementava essas técnicas com álcool e drogas a fim de induzir um estado de tumescência. Quando a mulher tiver sido excitada ao grau máximo, e não antes, o magista começa os passes mágicos. As mudras coletam os ojas que são acumulados nas zonas erógenas2 até que o potencial mágico da mulher esteja completamente concentrado na yoni. O sucesso é indicado por um violento tremor na região genital e, em casos extremos, o corpo inteiro é convulsionado em paroxismos que marcam a retirada da energia dos vários cakras. Não se deve dar continuidade a este estado; se ele continua, é um sinal que a purificação das nadis3 não foi propriamente alcançada.

É neste estágio, após o corpo ter alcançado a quietude, que alguns operadores absorvem os kalas ou vibrações vaginais acumulados no cálice mágico. Eles aparecem na forma de fluidos sexuais, mas os kalas não são as secreções sexuais ordinárias como compreendido pelos fisiologistas; eles são fluidos carregados com energia mágica que representam o potencial total da Mulher como um agente ou veículo da Deusa que é poderosa no momento de dar a luz a qualquer coisa desejada.

Concernente a este estágio do rito, uma forte controvérsia surge em relação a uma maneira correta de se obter o Décimo Quinto Raio vital ou Kala; pois quando a mulher realmente se torna a Deusa Quinze ela se torna oracular, uma força sobre-humana capaz de salvar ou, se o rito foi apropriadamente desenvolvido, de fulminar qualquer pessoa que se aproxime dela. Daí os ferozes semblantes das dakinis (rainhas-bruxas) representadas nos sagrados emblemas Tibetanos. Em termos orientais, o procedimento errado neste estágio do rito é condenado como avedico, i.e. contrário aos Vedas e, portanto herético. Isso inclui a embebeção real dos fluidos pelo cunilíncuo, embora algumas seitas tântricas sigam a prática de exercitar regularmente a língua em um movimento de ordenha que a prolonga [o êxtase] suficientemente para permitir a exploração profunda da vagina. Os tipos mais elevados de cuni-líncuos são desenvolvidos sem o contato físico, mas este método é um segredo fortemente guardado nos círculos tântricos Hindus e Budistas. A Hathayogapradipika e a Shivasamhita, que Crowley menciona no Magick como famosos tratados Hindus de certas práticas físicas, descrevem um método conhecido como Vajrolimudra nos quais os fluidos são absorvidos via o pênis, que é utilizado como um cifão. A prática guiada por um guru experiente é requerida para que a utilização do pênis seja feita com precisão adequada. Não há registros que provem a utilização desta fórmula por Crowley. Este oli, como é chamado, parece ser Védico e, portanto aceitável como prática Hindu ortodoxa.i

A Grande Mudra (Mahamudra) do Culto Theriônico é exibida na Estela da Revelação.4 Ela mostra a Deusa estelar Nuit arqueada sobre o celebrante do Rito; e isto é precisamente a postura ou mudra conhecida como Kailasa Prastara do Shri Cakra,5 no qual uma folha de bhurja é colocada debaixo da vulva da Sacerdotisa para receber os kalas magnetizados. A folha é passada ao redor de um Círculo após o feitio da fórmula da Comunhão Sagrada, quando o Cálice de Caris é oferecido aos celebrantes do Ágape, a festa de amor dos Gnósticos. Foi o “sangue” de Caris, a fêmea salvadora, que precedeu o sangue de Cristo; daí sua eficácia quando comparada com seu mais recente substituto masculino. Que era um substituto e não uma contra-parte é provado pela falha na fórmula Cristã; os Gnósticos representavam a tradição anterior e genuína.6

Nesta situação é apontado, talvez mais vividamente do que em qualquer outro lugar, a luta eterna entre os elementos shaktas e shaivas. No Culto de Thelema o conflito é finalmente reconciliado pela exaltação da Criança, ou a essência combinada de ambos os cultos, mas Horus a Criança é a criança da Mãe solteira, e o componente masculino (bindu) que a engendrou, embora presente, é desconhecido. Como está escrito no AL: “No globo Eu sou, em qualquer lugar, o centro, enquanto Ela, a circunferência, é em parte alguma encontrada.” A concepção Romana da Mãe Virgem foi uma má interpretação deste simbolismo. Daí a definição de Crowley sobre a Trindade Thelêmica contendo a Besta, a Prostituta e o Bastardo. Eu expliquei completamente este conceito no meu livro anterior.7

Não existe em nenhuma parte dentro da Filosofia de Thelema o ascetismo praticado pelos Cristãos, cujos sacerdotes negam o próprio sacramento do qual eles mesmos devem sua existência! A fórmula de Thelemaamor sob vontade – está em concordância com as leis naturais, não a blasfêmia contra elas.

Tendo concentrado ojas no muladharacakra, o magista pode ou absorvê-los imediatamente ou proceder com o rito e, pela manipulação magnética, tomar a energia estágio por estágio, realizando em uma rota o potencial de cada cakra. Ou, ele pode despertar e dirigir a energia para um cakra específico como p.e. o ajnacakra e explorar os aethyrs.

A Mulher Escarlate é o Portal da Visão, e é neste estágio do rito que o controle onírico se torna possível, pois o operador estabelece contato direto com o estado swapnico enquanto permanece desperto; ele é capaz de controlar a visão da Vidente (i.e. a Mulher Escarlate) enquanto ela a desenvolve.

Crowley utilizou muitas videntes no curso de sua carreira; oito foram de importância fundamental. A lista dada no Capítulo Dois é datada do período de Cefalù-Tunísia (1920-3) quando ele compunha seu longo comentário sobre o AL. Seus Diários Mágicos posteriores mostram que muitas candidatas aspiraram ao ofício de Mulher Escarlate, a maioria delas sendo rejeitadas por uma razão ou outra.

Foi observado por vários críticos de Crowley que as mulheres que realmente se qualificavam para o papel de Mulher Escarlate quase sempre terminavam seu ofício em hospícios ou instituições similares. Isto pode ser verdade, mas não é uma critica válida aos métodos de Crowley, pois o que não é considerado é que um tipo especial de temperamento é requerido para se estabelecer contato com um estado onírico ainda em estado de vigília. As mulheres Ocidentais que possuem os traços requeridos são raras, e uma vez que elas não possuem a vantagem hereditária de iniciação nas técnicas ocultas – como possuem certas mulheres Africanas e Orientais – o impacto súbito da energia mágica na personalidade feminina Ocidental tende a causar distúrbios de insanidade. Tais mulheres, portanto facilmente astralizam; mas é a falta de preparação prévia nas mulheres Ocidentais que resulta na demência definitiva. Considere que – mesmo no Oriente – as atuais condições modernas tornam quase impossível encontrar mulheres com aptidão necessária; quantos problemas deve Crowley ter sofrido para encontrar parceiras mágicas após o colapso ocorrido na Abadia de Cefalù? Se as Experiências de Cefalù tivessem se sucedido de maneira promissora no exterior talvez nós tivéssemos hoje um núcleo Thelêmico poderoso capaz de transmitir a Corrente para nós, seus herdeiros e sucessores. Como se encontra, nós somente podemos preservar a fórmula, confiantes de que o atual renascer da magick trará genuínas Sacerdotisas para servir a Nossa Missa.

Deveria estar claro para qualquer pessoa com experiência na operação astral do controle onírico que existe na verdade nada senão um estado de vigília da consciência. Nós chamamos de estado onírico aquele estágio logo após os sonhos terem cessado; durante este estado nenhum sentido de ilusão é experimentado. Similarmente, o estado de sono com sonho é descrito como estado oblívio ou de esquecimento somente a partir de um estado de vigília. Enquanto o sushupti (sono sem sonho) esta sendo experienciado há, ao contrário, Consciência Total, Consciência Completa, não de nada – pois isso é impossível – mas do Self (Atman). Atman é Consciência Pura, i.e. Self sem qualquer mácula do ego. O pensamento não existe em sushupti, a própria mente, que é senão o funcionamento do pensamento, não existe neste estado; a mente não é uma entidade em si mesma. Portanto, durante os três estados existe presente somente consciência desperta, i.e. vívida, consciência imediata. No jagrat (estado de vigília) a realidade é mascarada por objetos, que são pensamentos cristalizados; no estado de sonho (swapna) a realidade é obscurecida por pensamentos que aparecem tão reais para o sonhador quanto os “objetos” no estado de vigília. No estado de sushupti (sono profundo e sem sonho) a realidade é mascarada pela ausência de pensamento, e este estado é confundido pelos não-iluminados como inconsciência ou vazio. A ausência de mentação é tomada para subentender a ausência do Self; na verdade ela indica a presença do Self em seu puro estado, destituído de todos os atributos, i.e. pensamentos. A Consciência Pura é a única realidade porque ela é o único fator comum a todos os três estados. Não existe sonho ou sonhador; existe somente Realidade, i.e. Consciência não fragmentada por sujeito e objeto. Se este substrato é realizado ele brilhará, totalmente não obscurecido, e o organismo automaticamente funcionará com espontaneidade perfeita em todos os estados.

Por que então usar sexo, álcool, drogas, mantras, dança e etc.? A utilização deles é somente um auxiliar para aqueles que não realizaram a Unidade dos Três Mundos (ou Estados). Pela utilização destes auxiliares, é despertada e mais tarde controlada, a consciência primeva que está adormecida como Kundalini Shakti. Ela que deve ser despertada a fim de vitalizar e integrar os três estados de consciência é representada por uma serpente de três voltas e meia “dormindo” na base da espinha. O meio representa um número entre os números, o espaço entre espaços onde a eternidade habita e transcende os três estados; onde todo sonho, todo pensamento, toda atividade, funde-se na Clara Luz.

Shakti é o espelho de Shiva, portanto o despertar do Fogo Primevo na Sacerdotisa meramente segue a ascensão da energia em Shiva (o Sacerdote);8 não sendo desta maneira, o processo não alcançará os resultados mais elevados, embora seja extenso em escopo ou potencial seus efeitos colaterais possam ser.

Os resultados mais elevados são místicos; eles concentram a Graça da Suprema Shakti (Kali) que concede Kaivalya.9 Todos os resultados menores são de um caráter mágico; eles levam por ou em graus a última Realidade. A sensibilidade aumentada, a consciência exaltada, a consciência total, é o objetivo do rito. O evitar do embotamento da sensibilidade e a consequente inércia produzida por uma sobre-irritação dos “vasos da terra”10 é uma grande preocupação das Sacerdotisas. No The Zoetic Grimoire of Zos,11 Austin Osman Spare se refere às Rainhas-Bruxas que punem aqueles que se submergem na sensualidade como resultado da inércia produzida por sobre-estimulação. O método de Crowley para despertar a Serpente de Fogo é contido em um trabalho intitulado Da Lucidez Erato-Comatosa baseado nos experimentos de Ida Nellidoff do Nono Grau, O.T.O.12

Existem muitas referências nos Tantras do poder investido nas Sacerdotisas para corrigir pela punição os erros de procedimentos nos rituais. A Deusa ritual “deveria ser jovem, bem desenvolvida, sem filhos, saudável e celibatária; ela deveria ser treinada no pranava mantra13 e sua utilização; ela deveria ser capaz de usar todas as setas dos sentidos em suas reversões,14 e deveria ser capaz de governar e punir aqueles que erram durante o ritual”.15

A consciência total deve ser mantida durante o processo de absorção do mundo onírico,16 e daí para frente para o Mundo Criativo de Briah.

Como Spare demonstrou, o verdadeiro Sabbath das Bruxas possuía como objetivo (e ainda possui) a “reificação do sonho inerente”, que é outra maneira de se dizer que se tornar consciente ou realizar o sonho deve ser uma capacidade idêntica à experiência de vigília. Na terminologia de Crowley o “sonho inerente” é a Verdadeira Vontade, que é o objetivo do magista para encarnar.

O Sabbath de superstição popular é uma caricatura grotesca, quando ele não é uma paródia deliberada do rito secreto que visava despertar a Mulher Serpente pelo uso positivo da Corrente Sexual. O coven dos treze representa o verdadeiro cakra ou Círculo Kaula. Treze é um número lunar par excellence, o número da fêmea e suas manifestações periódicas. Isso porque o número treze foi considerado amaldiçoado pelos aderentes dos cultos solares. Mas existe outra implicação qabalística no sentido de que 13 é 31 ao inverso, e 31 é o número do AL (Horus), de LA (Nuit) e de ShT (Seth), a soma destes três 31s constitui a Corrente 93 representada por Shaitan-Aiwaz cuja a fórmula é amor17 sob vontade.18



Figura 5: O Oráculo Ofidiano por Austin Osman Spare (1951)


No O Livro da Lei uma alusão direta é feita a esta fórmula de reversão: “Está um Deus a viver em um cão? Não! mas os altíssimos são nossos.”ii Nos primeiros Sabbaths um “deus” aparecia na forma de um grande cão; ou seja, o Grão-Mestre ou Chefe-Celebrante assumia a forma divina do típico cão do fogo estelar que era identificado no antigo Egito com Sothis e com o calor feroz dos dias de cão.

A doutrina da reversão dos sentidos é tão antiga que nós encontramos referência a ela como uma tradição já decadente nos Tantras muito anterior a era Cristã. Os Siddhas de Tâmil, em particular, referem-se a práticas nas quais a absorção da urina feminina e esterco incinerado19 formavam partes de um rito de purificação praticado por aqueles que adoravam a Deusa na forma de uma mulher viva. Em um comentárioiii secreto sobre estas práticas aparecem as seguintes observações interessantes:

O Vama Marga leva a retroversão das funções; o ritmo é também retrovertido; morte, o acompanhamento da vida, deixa de ser o que é; ela é um tipo de Viparita Karani (permanecendo de cabeça para baixo) que é aconselhada como uma assistência na prática do Yoga; as coisas que provocam nojo são analisadas, tornadas puras, e o valor delas sendo extraído, são utilizados na Perfeição do Homem. A urina da fêmea jovem e saudável que contém as secreções internas de vários órgãos de valor terapêutico e de grande importância para saúde é utilizada como um veículo para absorção de tônicos e etc. As fezes, oxidadas como orientado na Kalagnirudra Upanishad, são misturadas com a urina e assimiladas conforme requerido. A ciência antiga da organoterapia do Oriente20 diz que estes produtos são de valor muito potente e não imaginado; estes antigos não obtinham seus extratos de glândulas endócrinas de gatos, cães ou porcos sem cérebro ou mortos (dos quais a ciência “pura” dos tempos modernos os obtém), mas dos excrementos dos seres humanos vivos nos quais existem substâncias de muito maior valor do que pode ser encontrado em animais mortos.

E em outro lugar do mesmo comentário:

No Tantra Shakta, viparita karani consiste na absorção habitual de coisas repulsivas tais como urina, fezes – sendo de vaca ou humana é somente um detalhe – mênstruo e bindu; mais além, alguns (Adeptos) tiravam seus nutrientes do anus e bebiam em seus próprios órgãos sexuais [...]. Enquanto os Hatha Yogins também absorviam os fluidos das fêmeas da maneira explicada acima, o Tantra Shakta refere-se somente aqueles atos de viparita e vamon que são descritos quando o contato físico é desaprovado. Viparita é o exercício de abolir o nojo através da absorção de coisas repulsivas que são úteis; através da apreciação da presença do feio em mulheres horrorosas, mas bem dotadas; através da prática de atitudes não convencionais e nojentas, de maneira intencional que traga vantagens espirituais; o viver uma vida melhor do que em um ambiente de puritanismo e falsa modéstia. Esta atitude é uma consequência natural, afetando a mente cuja atitude muda quando a Kundalini começa a tomar seu curso de viparita (retorno) [...].

Austin Spare, um genuíno expoente destes Mistérios, diz a respeito do verdadeiro Sabbath:

A Bruxa usualmente engajada é velha, grotesca, mundana e libidinosamente inclinada, e é tão sexualmente atraente quanto um cadáver: contudo ela se torna um veículo de total consumação. Isso é necessário para a transformação da cultura estética pessoal, que é a partir daí destruída. A perversão é utilizada meramente para superar o preconceito moral ou a conformidade. Pela persistência, a mente e o desejo se tornam amorais, focalizados e tornados inteiramente receptivos, assim a força de vida do Id está livre de inibições anteriores ao controle final.

Spare similarmente acreditava que a “cultura estética pessoal como o valor tem destruído uma afinidade mais carinhosa do que qualquer outra crença; mas aquele que transmuta o feio tradicionalmente em outro valor estético tem novos prazeres além do medo”.

A mais recente caricatura destas antigas doutrinas nos ritos revoltantes do Sabbath Negro, que consistia em uma mera inversão das práticas Cristãs,21 são os ecos distorcidos de uma doutrina que possuía em seu coração o verdadeiro samadrishti, o que caracteriza os níveis mais exaltados de espiritualidade.

O Alquimista medieval talvez tenha chegado o mais próximo possível da doutrina pura com sua análise de substâncias popularmente consideradas sujas. Ele sabia que entulho era uma forma externa do Deus Oculto; que o ouro resplandecente de valor inestimável ficava nos minérios e metais que repeliam aqueles que não conseguiam distinguir entre o que possui valor e o que não possui.

Nesta conexão, uma das principais formas divinas consideradas sagradas nos cultos primevos era o porco, consagrado a Tifon, o senhor das trevas na Tradição Draconiana. O porco fora considerado um animal sujo pelos cultos posteriores, pois ele era o único animal conhecido a comer os excrementos humanos. É significante que os Judeus o rejeitaram como animal abominável quando eles mudaram o culto de adoração estelar do El Shaddai (Al-Shaitan) para o culto do Jeová paternalista e solar. Mas o porco era originalmente um glifo de suma santidade, por conta de uma doutrina que envolvia a absorção de substâncias que os não-iniciados rejeitavam como repelentes; o que, na verdade, elas são, em sua forma não regenerada e não sacramental. Quando purificadas e consagradas ao serviço da Deusa, elas se tornam auxiliares de sumo valor para o despertar da Serpente de Fogo. “Toda comida é intencionada para alimentar não o corpo, mas a Kundalini, daí os extratos da urina, fezes e fluidos menstruais. Não é necessário submeter-se a qualquer ginástica ou exercícios fatigantes durante o treino da Kundalini – o mais leve exercício a afeta; e tudo é alegria a partir daí, sendo a atenção e a visão devotadas a ela.”22

O famoso ou talvez infame Rito dos Cinco Ms (Panchamakaras)23 envolve o uso de substâncias que o indivíduo dos tempos atuais, educado com falsos valores Cristãos, vê como repulsivo. Existe uma referência a este Rito em Liber VII.24 Crowley traduz a doutrina em termos de afinidade química e repulsão, ambos sendo aspectos do Ágape que significa “amor” em seu sentido total de atração-repulsão, amor-ódio. Em Liber Aleph Crowley explica que o montante de energia e êxtase desengajados pela união com elementos novos e frequentemente contrários é mais profunda, mais feroz e mais significativa do que a união de similares:

[...] através de repetidos Casamentos vem Tolerância, de forma que o Êxtase não mais aparece. Assim, seu meio grão de Morfina, que a princípio lhe abria as Portas do Céu, de nada vale ao auto-envenenador após um Ano de Prática diária. Também o Amante não encontra mais Alegria em União com sua Amante, tão cedo a Atração original entre eles é satisfeita por repetidas Conjunções. Pois esta Atração é um Antagonismo; e quanto maior a Antinomia, mais forte a Pujança do Magnetismo, e a Quantidade de Energia liberada pelo Coito. Assim, na União de Semelhantes, como a de Alógenos uns com os outros, não existe grande Paixão ou Força explosiva; e o Amor entre duas Pessoas de Semelhante Caráter e Gosto é plácido, e sem Transmutação a Planos mais elevados.

[...] toda Oposição é em sua Natureza um Sofrimento, e a Alegria consiste na Destruição da Díada. Portanto, tu deves sempre procurar aquelas Coisas que te são venenosas, e isto no mais algo Grau, e fazê-las tuas pelo Amor. Aquilo que repele, aquilo que desgosta, tu deves assimilar nesta Senda de Complecção. Porém, não descanses na Alegria da Destruição de todo Complexo em tua Natureza, mas avança àquele ultimal Casamento com o Universo cuja consumação te destruirá por completo, deixando somente aquele Nada que era antes no Princípio [...].25

O celebrado devoto Bengali de Kali, Shri Ramakrishna, observa também – com maior apresso – a habilidade do iluminado em fazer nenhuma distinção do conteúdo de uma lata de lixo e um prato preparado por um gourmet. Esta suprema atitude ou mudra é exemplificada pelo devoto de Kali que desenvolve seus ritos misteriosos no solo de cremação iluminado pela radiação maligna de uma lua minguante manchada de sangue na escuridão da noite; circundado pelos corpos decadentes dos mortos, seus murmúrios mântricos são acompanhados pelas ululações da hiena. Contudo, este smashanam (solo de cremação) é para o devoto não mais do que a yoni semeada de flores da Deusa, onde todos os desejos atingem a satisfação final e a última extinção na pira funerária:

Tu és a coisa mais bela, mais branca que uma mulher na coluna desta vibração.
Eu me lanço verticalmente como uma flecha e me torno aquilo acima.
Mas isso é morte, e a flama da pira.
Ascende na flama da pira, Ó minha alma! Teu Deus é como o frio vazio do mais extremo céu, no qual tu irradias tua pequena luz.
Quando tu me conheceres, Ó Deus vazio, minha chama expirará completamente em Teu grande N.O.X.26

A palavra Nox ou Noite, contém a chave para esta passagem assim como contém a chave para fórmula de Nuit arqueada sobre o celebrante derramando seus kalas sobre ele. Isso pode ser explicado qabalisticamente bem como literariamente por N.O.X., NOTz = 210, que é o número de uma fórmula secreta chamada Ompedha,27 uma palavra que contém 3x70 (i.e. 210), as Três Fases do Nada; Nada ou Nuit nos três mundos ou estados de consciência desperta, consciência com sonho e sono profundo ou estado de vazio. 210 também é o número da reversão, confusão, portanto, a reversão dos sentidos já descrita acima. No comentário de Crowley sobre Nox, o ‘N’ é equiparado com Mentu (o falo), o ‘O’ com Amoun (o Deus Oculto), o ‘X’ com Isis (como virgem, i.e. adormecida, não-desperta).




Figura 6: Hermafrodita por Austin Osman Spare


Em outras palavras, agora é prontamente compreensível que àquilo que é sonhando (sendo o sonho magicamente controlado) é mais real do que a experiência desperta.

O Livro dos Mortos Egípcio é o Grimório mais antigo e detalhado para aqueles que querem “sair para luz” na luz da consciência total além dos três estados. Similarmente, o AL é para aqueles que, como Austin Spare parafraseou “reificarão o sonho inerente”. No AL também existe ênfase no elemento “sujo” da Gnose pré-Cristã: “O melhor sangue é da lua, mensalmente: em seguida o sangue fresco de uma criança, ou destilando da hoste do céu: em seguida de inimigos; em seguida do sacerdote ou dos adoradores: finalmente de alguma besta, não importa qual. Isto queimai: disto fazei bolos & comei para mim.”28

A reversão dos sentidos ao ponto onde a repulsão e a atração negam-se um ao outro em um orgasmo supremo constitui o ágape, ou a “festa do amor dos super-sensualistas”. Esta festa foi referida por Spare no seu The Book of Pleasure, “festa do amor dos super-sensualistas” sendo o título de uma ilustração que infelizmente fora omitida do livro. É fácil imaginar o que ele teria retratado se nós considerarmos a natureza da refeição em termos dos Rituais dos Tantras Shaktas do Vama Marga. Spare fazia questão de coabitar sexualmente com os tipos mais inimagináveis de mulheres repulsivas. Isso me faz lembrar de um anúncio para modelos que Crowley compôs durante sua estadia no Greenwich Village, Nova Iorque:

PROCURA-SE
Anões, Corcundas, Mulheres tatuadas, Mulheres muito feias, Aleijões de todos os tipos, Mulheres de cor, somente se excepcionalmente feias ou deformadas, para pousar para artista. Se candidatar por carta com uma fotografia.

A predileção de Spare por mulheres feias, especialmente monstros de todos os tipos aqui ilustrados, com clitóris hipertrofiados, foi baseado na doutrina da reversão dos sentidos. Mas um comentador contemporâneo de uma das formas mais secretas de adoração tântrica enfatiza a não-necessidade de buscar mulheres incomuns:

Bhagavati, vós cuja importância principal na adoração é o bhaga, a saída genital. Vossa natureza é sempre nova; sempre fresca é sua secreção [...]. Todo dia o néctar das mulheres é fresco, sem pecado; ele é o Sadharana em mulheres comuns e normais [...] não há a necessidade de caçar mulheres extraordinárias. O que quer que saia das mulheres como o sesha e o seshee, a forma dual de natureza, o bindu e o rajas, e sua mistura no shivambhu, ou urina, sai das belas fêmeas. Esta é a ciência dos Bhairavas, as deificações com face de cão que existem desde os tempos remotos de uma nação Egípcia; cão, por assim dizer, porque eles valorizavam suas excreções, o sesha do metabolismo humano; cão, porque os participantes não conheciam o Medo, Bhairava [...].

A técnica para cultivar a inversão dos sentidos é descrita pelo mesmo comentador, e ela é de importância vital para a compreensão do Culto de Crowley, bem como o de Spare e outros, eu o coloco a disposição por completo:

Tanto quanto possível, e para se obter os melhores resultados, deveria haver um cultivo dos elementos exteriores para com os internos. Existe a reversão do sentido do paladar ao virar a ponta da língua de forma a fazer a úvula voltar para cima, e, por sua vez, fechar o buraco do palato; existe a reversão do sentido de tato por ser negativo a qualquer coisa com que se possa travar contato mantendo um tipo de intocabilidade interior através da repulsão de si mesmo; existe a reversão do sentido do olfato através da extração do prazer por coisas nojentas, mas valiosas, tais como a urina e fezes, e através da busca por odores potentes, como nos sulcos e secreções das mulheres. Fazendo esta busca de maneira sistemática, profunda e científica será compreendido que o processo de envelhecimento pode ser detido e invertido pelo uso do nojo e a utilização de fêmeas jovens como já era feito há tempos pelo Rei Davi e Salomão.

A Corrente Shaitan-Aiwass de Crowley, O Culto Zos Kia de Spare, o Culto de Cthulu de Lovecraft, são diferentes manifestações de uma fórmula idêntica – aquela do controle onírico. Cada um destes magistas viveu suas vidas dentro dos limites do contexto dos mitos do sonho cósmico que, de alguma forma eles retransmitiram ou transmitiram para o homem de ouras dimensões. A fórmula do controle onírico é em um sentido usada pelos artistas criativos, embora poucos sucederam em trazer a consciência humana para tal forte proximidade com outras esferas.

Embora as pessoas não estejam geralmente conscientes das influencias sutis que Crowley recebia e transmitia, no entanto o colapso de fórmulas religiosas obsoletas, a mudança abrupta de valores e a habilidade presente de certos tipos de mente para reagir a Corrente mostram claramente que Crowley, Spare, Lovecraft, Grosche, Fortune e etc. não são os originadores de tal Corrente, mas meramente seus transmissores. Esta é a pedra de toque do real valor e grandeza da arte: age ela como um canal para tais influências cósmicas ou, como tanto da assim chamada arte “moderna”, ela é meramente a expressão de uma psique privada e deslocada, defeituosamente conectada ou mesmo inteiramente cortada de suas fontes extradimensionais de Energia criativa que inspira todos os artistas verdadeiros?

Não é fácil e às vezes é excessivamente difícil distinguir entre duas formas de expressão, que podem ser divididas neste exemplo – e este exemplo somente – em atos de ‘magia’ branca e negra. A arte de Lovecraft teria sido negra na verdade caso tivesse ela sido engendrada, como ele supôs, das profundezas de sua própria psique desconectada. Se este não foi o caso, creio ter demonstrado.


Figura 7: Atu XVII: A Estrela. Concebida por Crowley e pintada por Lady Harris



Notas

1. Veja O Touro Alado, O Deus com Pé de Bode, e etc.

2. As localizações precisas destes marmas são sempre mantidas em segredo.

3. A complexa rede de filamentos nervosos que transportam os ojas para diferentes partes do corpo – tais como os mamilos das mamas – para causar ereção no início do intenso excitamento sexual.

4. Veja Figura 3.

5. Veja Figura 2.

6. Veja The Natural Genesis (Massey), Vol. II, pág. 355, 365.

7. O Renascer da Magia, Capítulo 3.

8. Compare Liber A’ash vel Capricorni Pneumatici, versículo 16: “[...] Compreende que a rendição da Yoni é una com o alongamento do Lingam.”

9. “É no vazio de Kali que se é concedido o Kaivalya” (i.e. a liberação final da existência condicionada). Kâmadhenu Tantra.

10. “Vem! irritemos os vasos da terra: eles destilarão vinho estranho.” Liber Liberi vel Lapidis Lazuli, III:24.

11. Texto não publicado de Austin Osman Spare.

12. Veja Capítulo 9.

13. O pranava mantra é OM. Aqui ele se refere à vibração criativa básica que é o mantra peculiar da Serpente de Fogo.

14. Veja abaixo.

15. Comentário tântrico de um Iniciado contemporâneo.

16. Swapna, ou, em terminologia qabalística, Yetzirah, o Mundo da Formação.

17. Ágape=93.

18. Thelema=93.

19. O termo esterco de vaca, como empregado nos Tantras, é um eufemismo para sua contra parte humana.

20. Também conhecida antigamente no Ocidente como Alquimia ou Arte Hermética.

21. Tais como a retroversão da oração do “Pai Nosso”; o beijo obsceno aplicado ao ânus da besta; o ato de sujar o crucifixo com a urina da prostituta e assim por diante.

22. De um comentário secreto. Cf. Liber Astarté vel Berylli.

23. Os cinco makaras são madya (vinho), mamsa (carne), meena (peixe), mudra (atitudes) e maithuna (congresso sexual).

24. Liber Liberi vel Lapidis Lazuli, III:37.

25. Liber Aleph. Extratos dos Capítulos 22 e 23.

26. Liber Liberi vel Lapidis Lazuli, I:36-40.

27. AL III:34.

28. AL III:24-25.



Notas de Fernando Liguori

i. A vajrolī-mudrā é um procedimento haṭha-yogī (tântrico) onde o sêmen, carregado com os fluídos vaginais, é sugado através da uretra do pênis. O processo é descrito com precisão na Haṭhapradīpikā e leva anos de treinamento para sua perfeição. A intenção é não desperdiçar nem o material bruto que fora perdido, embora já não carregado com tanta energia (ojas). Mestres modernos adaptaram essa prática a sociedade, de modo que qualquer um possa fazê-la sem maiores restrições. Trata-se da contração voluntária da uretra combinada com prāṇa-nigraha e prāṇāyāma, isolando os esfíncteres do ânus e o assoalho pélvico.

ii. Em inglês Deus = God (AL) é o reverso de Cão = Dog (LA).

iii. O comentário tântrico referido por Grant aqui é O Comentário Anandalahari, escrito por David Curwen, um eminente membro do Soberano Santuário da Gnose, IX° O.T.O., conhecido na Ordem como Frater Ani Abthilal. Fora este Adepto o responsável pela iniciação de Grant no Círculo Kaula.




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