quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O Culto da Serpente Negra #2



Kennth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Cults of the Shadow, Capítulo 10. Frederick Muller, 1975.


MICHAEL BERTIAUX faz alusão à ‘um antigo provérbio Atlanteano que afirma que na hora do orgasmo o órgão sexual brilha como um espelho mágico’. Ele continua: ‘isto é indubitavelmente devido à radioatividade, uma vez que o brilho e a própria radioatividade são ambos formas da luz astral’.

A radioatividade sexual depende e pode ser produzida somente por um refulgir voluntário das energias sexuais em dimensões astrais. O coito realizado pelo não iniciado, portanto gera somente uma quantidade mínima de energia radioativa, e ela é rapidamente dispersada pela operação dos pensamentos descontrolados e caóticos e pela imaginação indisciplinada.

Em todas as formas de magick, a imaginação ou a faculdade de criar imagens é o fator mais importante. A imaginação plenamente treinada é capaz de visualização prolongada e vívida que se torna criativa somente após períodos de disciplina mágica intensa.[1] Na fórmula de Crowley a ‘lucidez erato-comatosa’[2], a prática de Spare de ‘sensação visualizada’, o poder de Fortune com seu ‘sonho lúcido’, a fórmula de Dali de sua ‘atividade crítico-paranóica obsessiva’, em meu próprio sistema de controle onírico, e aqui, no sistema de Bertiaux da ‘engenharia esotérica’, a imaginação – energizada pelas energias sexuais – é completamente estabelecida para funcionar em níveis astrais. É como se o magista fosse capaz de sonhar ainda desperto; e, a fim de se alcançar esta consecução, ele deve ‘viver’ em dois mundos simultaneamente, mas também entre estes mundos, transportando as energias sutis do plano astral para a atmosfera mais densa da consciência mundana onde a imagem onírica pode congelar e reificar-se no imediato ambiente físico do magista.

Energias radioativas liberadas pelos magistas que utilizam a Corrente Ofidiana são tão poderosas que quando funcionam em sua carga total de capacidade mágica, são poucas as pessoas que são capazes de agüentar sua presença. A aura de Crowley, p.e. era altamente carregada com esta energia; isso gerava em algumas pessoas um medo por ele completamente inexplicável. MacGregor Mathers descreveu este encontro com Altos Adeptos em termos, sugerindo apenas condições similares,[3] e é bem conhecido o fato em que Éliphas Lévi inspirou pânico no espírita e médium D.D. Home.[4]

Bertiaux faz alusão a uma passagem em que a energia radioativa é elevada de sua esfera para o Exterior via a quarta dimensão. Durante a ausência do magista seu escudo radioativo[5] permanece pairando sobre a área consagrada de sua operação mágica até que ele seja liberado. Ele é então projetado em um espaço ‘mais elevado’ onde atua como um veículo ou reservoir da energia do magista, um reservoir sobre o qual ele pode se retirar para operações em outras dimensões: ‘Tais esferas são freqüentemente avistadas pelos físicos que pensam serem Ufos ou discos voadores, ao passo que elas são na realidade suprimentos de radioatividade sexual em reserva’.

A Iniciação Sexual, de acordo com o sistema do Culto da Serpente Negra consiste na consagração do Alto Sacerdote enquanto tal. Ele é assim unido aos princípios ocultos ou leis[6] do universo através da união sexual com as doze influências zodiacais em sua incorporação humana. Diferentes mulheres são selecionadas de acordo com suas afinidades em relação a cada uma destas influências. As Sacerdotisas – ou ‘diabas’ como elas são chamadas no Culto – são as incorporações psico-sexuais das influências representadas pelos signos do zodíaco.

Para operações especificamente mágicas, mulheres consagradas aos signos da Terra e da Água[7] são escolhidas porque nestes signos as ‘forças e poderes são ricos e densos, como pesadas substâncias em calda, mel ou sirops-des-bon-bons, e a magie ou sourcellerie é mais tangível, e mais óbvio a percepção elemental’. Mulheres incorporando qualquer um dos outros seis signos são também admitidas ao Culto, mas os estereótipos que se relacionam a Terra e a Água são mais cobiçados, como também ‘aqueles signos do Ar e do Fogo[8] que são modificados pela a Água e Terra elementais [...]. Mas a união da Terra e da Água produzirá a mistura densa desejada’.[9] O Culto seleciona suas Sacerdotisas ao longo de linhas Astrosóficas. Na antiguidade a magick sexual fora fundamentada sob a absoluta ciência Astrosófica, i.e. o uso mágico do zodíaco. No Culto de Thelema de Crowley, p.e. a Mulher Escarlate é identificada ao signo de Capricórnio, o signo das forças telúricas elementais, ou ao Escorpião, o veículo das forças Uranianas.

Embora o macho possa ser o Alto Sacerdote em mais de um templo ou conven Vodu, a Alta Sacerdotisa opera somente em um templo, e este é sua mandala; a expressão, em termos das energias manifestas, de seus poderes mágicos. O Culto da Serpente Negra desenvolve o kali-kalas na mulher de forma que ela seja capaz de realizar sua Verdadeira Vontade como uma sacerdotisa das ‘forças profundas e negras do Espaço Infinito’.

Estes aspectos do Culto se aplicam também a relações sexuais mundanas:

Se existe uma ligação entre os seres humanos, deixe-a ser através da Lua nos signos da água,[10] pois esta é a base mais perfeita para as relações sexuais. Deixe que todos os amantes busquem primeiramente seus companheiros da Lua, e então o amor virá a partir desta realidade.

Porém tais considerações astrológicas não estão baseadas nas zonas de poder físico e suas influências:

Nós não aspiramos estar ensinando astrologia, que é dividida em várias escolas de métodos e reivindicações conflitantes. Nós nos preocupamos em dar os significados esotéricos da magia e da metafísica, que estão associadas com os símbolos do zodíaco, pois nós rejeitamos a possibilidade objetiva de qualquer método astrológico válido, e afirmamos que a influência das estrelas é não existente, pois existe realmente apenas a influência dos símbolos da consciência nos limites das esferas da experiência interior e exterior, que dirigem e integram as várias energias e estruturas da consciência em padrões significativos e mágicos. É isso que nos interessa.[11]

E novamente:

Não é verdade que se uma pessoa nascida em um certo dia ela é automaticamente do signo que a astrologia convencional diz que ela é. Ao contrário, o signo de cada pessoa é determinado inteiramente por fatores esotéricos apenas. Não existe método físico de astrologia que tenha validade para qualquer pessoa, muito menos para toda raça humana.[12]

Crowley possuía reservas similares e isso é notado em sua entrada em seu Diário Mágico datada de 21 de Novembro de 1914:

Se existe qualquer verdade na Astrologia, certamente o momento do nascimento do Elixir deveria determinar sua carreira. Portanto deixe-me invariavelmente erigir uma imagem genética para o logos ou sêmen no momento de sua criação a partir dos elementos que o compõem.

Os iniciados do Culto da Serpente Negra usam um símbolo especial como um trampolim para os aethyrs ou dimensões extraterrestres. Ele é conhecido como o ‘símbolo da liberação’ e é na forma de um cubo quadri-dimensional. A concentração mental neste símbolo induz a uma profunda auto-hipnose que libera o corpo astral e capacita-o a passar através do cubo para dentro de outras dimensões. É interessante notar que alguns Surrealistas experimentavam por este método de astralização por volta dos anos vinte e anteriormente – como no caso de Austin Osman Spare – experiências psíquicas de grande valor mágico. A experiência é comunicável. Muitos são os que olhando uma pintura ou escutando uma peça musical, têm compartilhado as sensações de ‘alteridade’ conferidas ao trabalho pelos artistas que o criaram.


Cubo Quadri-Dimensional.
Símbolo de Liberação usado por Adeptos da Serpente Negra

Justaposições incomuns de cores, uma massificação misteriosa de sombras, estranhas perspectivas tais como aquelas introduzidas por Delvaux, têm o poder de mergulhar a mente em abismos de pesadelos aeônicos. Os estranhos espectros de Max Ernst; os pavimentos de Dali assombrados pelas sombras alongadas do crepúsculo; os cubos quadri-dimensionais de Bertiaux e seus retratos astrais dos ‘Deep Ones’ a partir dos golfos do espaço, são todos elementos potentes para liberar a mente de suas mundanas limitações, permitindo assim o completo florescer do ideal obsessivo. Todos os mantras da magick e os encantamentos da feitiçaria são vibrados e emitidos com a intenção de liberar a consciência de sua escravidão do corpo físico.

O ponto de entrada em reinos desconhecidos difere no caso de cada individuo que faz do símbolo de liberação seu ponto de partida, porém, uma vez que este ponto seja descoberto o corpo astral passa através do portal com espantosa facilidade. Ele se encontra subitamente em um mundo completamente novo – contudo estranhamente familiar – e é somente após entradas e explorações repetidas que a maestria das novas condições é alcançada. Energizada pela magick sexual, a meditação gera uma energia propulsora que arremessa o Adepto profundamente para dentro do espaço interior.

É neste momento aespacial e atemporal da projeção através do ponto de entrada que o Adepto ‘sonda as profundezas e faz os alinhamentos sagrados’.[13] Este é o momento indescritível que celebra o nascimento da Verdadeira Imaginação, a contradição em termos que indica o poder (shakti) na raiz do ocultismo criativo conforme exemplificado por tais Adeptos como Lévi, Blavatsky, Crowley, Spare, Bertiaux, Grant e etc. O exercício constante desta Imaginação verdadeiramente mágica desenvolve uma nova faculdade de apreensão que se torna cósmica em escopo. Os maiores trabalhos de arte e, portanto a magick são formulados e projetados enquanto a mente habita estas dimensões desconhecidas. Esta é a verdadeira mística do Gênio, e é um dos objetivos do Culto da Serpente Negra engendrar este gênio pela vontade.

Michael Bertiaux encarnou em 21 de Janeiro de 1935, o Sol estando em Capricórnio e a Lua no signo do Escaravelho, ambos, Sol e Lua estando em conjunção mágica. Seu ascendente, Leão, completa a tríade dos signos bestiais que explica, quem sabe, sua afinidade com o mundo animal e com a fórmula da Resurgência Atávica que Spare tornou o pivô de seu sistema.

A fórmula de Spare é desenvolvida por Bertiaux no curioso Grau da Licantropia, que constitui um dos quatro Graus do Couleuvre Noire. Ela encontra expressão também no Conven de Lovecraft[14] que é conduzido por uma Sacerdotisa do Culto da Serpente Negra. O Conven é estruturado a partir das leis básicas de polaridade sexual. O principio feminino é representado pela besta dos oceanos, o bode marítimo cujo totem é Capricórnio. O mito de Cthulhu de Lovecraft é representado pela cidade chocadeira de Innsmouth.[15] A Sacerdotisa (Sol em Capricórnio, Lua em Escorpião) incorpora uma espécie de shakti-marítima, ou elixir fluído, tipificada por sua vez pelas deidades Atlanteanas das quais Dagon foi o chefe. Ela copula com o principio masculino como o Bode (besta-marítima) e ‘animais cabeludos ligados ao lobisomem’ que habitam a grande profundeza. O principio masculino é equiparado com o campo de Dunwich;[16] o terreno escuro cujos habitantes degenerados abandonaram de seu meio os atavismos mais nojentos e abomináveis. A corrente mágica é concentrada em Shub-Niggurath [17] que – no Conven de Bertiaux – representa a energia masculina em sua forma cega e bestial; o ‘Bode com mil anos’ sendo as shaktis ou veículos femininos de sua manifestação. Bertiaux, como Alto Sacerdote, promulga o rito de Licantropia pelo fechamento do círculo, janela, ou caverna através dos quais os Great Old Ones ingressam. Ele impregna a Sacerdotisa com a semente da besta-marítima, co-criando com ela o teratoma que manifesta os atavismos latentes nas profundezas.[18]

O Conven deriva-se do Vodu no sentido que ele utiliza os ritos do Caminho da Mão Esquerda combinados com a metafísica do mito de Cthulhu. Este estrato particular da corrente do Vodu gera poderes mágicos pela animação dos dezesseis centros genitais, as zonas de poder refletidas dentro da matéria pelos dezesseis cakras metafísicos do cerebelo. Assim refletidos, ou duplicados, estas são as trinta e duas zonas de poder[19] de Erzulie-Frieda, que no Vodu é equivalente a Kali. ‘Estes trinta e dois centros produzem certos acoplamentos de força,[20] sobre os quais o Tarot dos Ofidianos baseia seus poderes divinatórios.’[21] Certas zonas de poder vitais conhecidas como points-chauds (pontos quentes) projetam as shaktis ou energias representadas pelas cartas. Este Tarot resume em símbolos o mecanismo completo da engenharia esotérica de Bertiaux conforme refletido no Conven Licantrópico do Culto da Serpente Negra.

A corrente mágica que floresceu na fantástica arte de Michael Bertiaux produziu – nos dias de Lovecraft – as extraordinárias criações de Clark Ashton Smith,[22] e Austin O. Spare que contribuíram muito para o desenvolvimento da corrente. O Conven Lovecraft é o sétimo raio do Monastério dos Sete Raios. Este é o raio da magia cerimonial formando um corredor de espaço-tempo entre Yuggoth (Plutão) e os últimos planetas transnetunianos representados na Árvore da Vida por Kether e Chokmah respectivamente.

Em 1973, Bertiaux erigiu uma ‘Estação de Transmissão Trans-Yuggothiana’ em sua residência particular para capacitá-lo na aquisição de mais material para trabalhos futuros sobre os planetas e para estabelecer contato com os ‘adeptos do espaço Zothyrio, Genii, e os Espíritos Vodu Bön-Pa’ dos quais ele recebe comunicações incorporadas e as descreve em seus Papeis de Grau. Ele fora instruído no tráfego com estas entidades por Jean-Maine, seu ‘Mestre e Initiateur’.[23]

De acordo com August Derleth, o homem que continuou a tradição literária dos mitos de Cthulhu dos trabalhos de Lovecraft, certas partes de Wisconsin[24] contém zonas de poder específicas, cuja mais poderosa fica nas proximidades de um lago deserto. Um pequeno grupo de iniciados dirigidos por Bertiaux freqüentemente visita esta região com a intenção de evocar os Deep Ones, cujo portal de entrada para o plano terrestre fica nos limites do lago. O rito é efetivado quando o Sol se encontra em um dos Signos da Água no zodíaco: Câncer, Escorpião ou Peixes. Isso harmoniza os magistas com a natureza dos seres evocados, Câncer e Escorpião sendo os melhores signos para este tipo de operação; e se Júpiter, Lua e Plutão estão nestes signos, os resultados são espetacularmente bem sucedidos, pois as criaturas assumem uma substância quase tangível.

Antes que a Operação tome início, certas chamadas elementais são proferidas e imagens[25] mágicas são consagradas com os kalas especiais da Sacerdotisa-Marítima. O mais poderoso destas chamadas elementais é o encantamento Francês-Crioulo composto especialmente para ser utilizado no Culto dos Deep Ones. Nenhum instrumento musical acompanha o encantamento que em si mesmo é potente para realizar as forças requeridas.

O Culto dos Deep Ones floresce em uma atmosfera úmida e fria, o posto exato do calor extremamente quente gerado pela iniciação cerimonial que inclui os ritos licantrópicos que evocam os habitante do lago. Os participantes neste estágio se emergem na água gelada onde uma transferência da energia magico-sexual ocorre entre sacerdotes e sacerdotisas enquanto estão naquele elemento. Isso é muito comum na bruxaria Cigana onde ela combina com as práticas Vodu no qual a água fria é usada para despertar a positividade feminina ou o magnetismo. A manifestação positiva dos eflúvios femininos serve para invocar as manifestações positivas no macho. Dion Fortune elaborou os princípios deste dinamismo feminino-masculino em várias de suas novelas.[26]

A intensa pesquisa de Bertiaux sobre os mecanismos da magick sexual o capacitou a elaborar um diagnóstico particularmente criativo de certos tipos de inversão sexual baseados em um detalhado estudo dos cakras na região genital:

Muitos estudantes do oculto parecem pensar que a homossexualidade é devida haver uma alma feminina em um corpo masculino, ou o reverso. Isso não parece ser verdadeiro demonstrando que uma alma com uma disposição sexual encarnou em um corpo possuindo uma disposição sexual que não seja a da alma, pois a alma irradia sexualidade na morte. Contudo, o equilibrado desenvolvimento oculto dos centros de magnetismo, os chakras, não mostra nenhuma possibilidade de desequilíbrio sexual. Por exemplo, se certos chakras fossem mais desenvolvidos em uma pessoa do que outra de uma maneira sexual, Yesod I[27] sendo mais forte que Yesod II[28] no homem, ele seria levado a fazer práticas de um sodomita passivo. Se o seu chakra Kether II (garganta) tem um certo hiper desenvolvimento sexual, o homem em questão seria levado a praticar intercurso sexual oral passivamente. Em ambos os casos a homossexualidade passiva é o resultado, porque o centro de Câncer,[29] ou o chakra fálico do parceiro deve ser introduzido no centro Yesod I ou Kether II. Uma pessoa assim, assumindo ser basicamente um macho, é em comportamento sexual uma fêmea, tendo duas vaginas, Yesod I e Kether II.
Na análise sexual feminina, a vagina é regida por Lua em Escorpião, ao passo que nos homens essa é uma característica atribuída à base da espinha. O Sol em Câncer rege o falo, e nas mulheres, a base da espinha. Assim, a diferença sexual entre homem e mulher, é a diferença entre os regimentos designados entre Yesod I e II. Se fosse de outra maneira a atração magnética perfeita entre os sexos não seria possível sendo o corpo físico o instrumento de energias ocultas.[30]

O muladharacakra ou o centro basal no homem é o portal para o plano astral, para o reino habitado pelas entidades do espírito, cascões dos mortos e as criaturas dos Qliphoth. Os Adeptos da Serpente Negra às vezes empregam uma técnica Tibetana antiga para despertar a Kundalini adormecida. Eles aplicam na base da espinha um bastão eletro-magnético que galvaniza as zonas eróticas, evitando assim que o fogo liberado campeie para baixo (i.e. para fora) e se dissipe na conflagração da sexualidade autodestrutiva. O poder sexual deste cakra é relacionado diretamente ao plano astral através das quatro fases lunares básicas.[31] A Lua Nova representa o aspecto mais vital da corrente lunar; sua energia é ainda virgem, não desperta; sua vitalidade é potencial, latente, não patente. Esta fase é relacionada aos três Signos da Água, Escorpião, Peixes e Câncer, oculto, místico e criativo respectivamente. A Lua Crescente representa a construção e consolidação do poder que surge do estado potencial ou virgem. Esta fase é representada pelos Signos da Terra ou reificantes, Touro, Virgem e Capricórnio. Touro é o glifo astrológico da força bruta, e seu magnetismo correspondente é de um tipo sensual pesado. É o signo da paixão sexual não adulterada e luxúria; o signo que Crowley – como o Hierofante – adotou para seu Tarot particular.[32] O magnetismo sexual de virgem, por outro lado, é do tipo puramente humano, e como uma fórmula técnica com referência ao cakra genital, representa o exercício de controle do fluxo seminal; sua fórmula, portanto, é conhecida como Karezza: o orgasmo é suprimido ou atrasado a fim de desenvolver uma grande tensão elétrica. É na fase Capricorniana da Lua Crescente que o magnetismo sexual bruto é transformado em poder mágico real através dos processos rituais de iniciação. Quando Touro está no macho – Therion, a Besta – Capricórnio é o glifo da Mulher Escarlate com quem ele se acasala em uma ‘beatitude blasfema’.[33]

Nestas três formas de corrente lunar, o epítome do magnetismo astral coletivo pode ser usado para: (a) resurgência atávica; (b) o desenvolvimento da energia oculta via Karezza; e (c) transformação espiritual através da união sexual com entidades extraterrestres – ‘deuses’, ‘demônios’ ou ‘espíritos’, pois ‘as grandes escolas de Mistérios ensinam que o deus nasceu de uma Virgem tendo um pai divino. Isso significa que a mulher pura evita o sensualismo de Touro fugindo para o templo de Capricórnio, onde a concepção do salvador do mundo ocorreu’.[34]

A Lua Cheia é relacionada aos três Signos do Fogo: Sagitário, Áries e Leão. Esta fase da Lua se relaciona ao fenômeno da completude no sentido alquímico no qual Sagitário representa tanto a chuva quanto o arco-íris.[35]

A Lua Minguante é regida pelos Signos do Ar: Libra, Aquário e Gêmeos. Suas analogias no organismo humano provem a chave para o retorno do homem aos Deuses. Libra representa a Mulher Realizada;[36] Aquário é a Estrela,[37] o produto da Mulher que veio a terra para liberar a humanidade; Gêmeos representa a natureza gêmea da estrela sob o mito-glifo de Seth-Horus, os pólos negativo e positivo[38] que circundam a estrela.

Ao passo que através de Câncer, na Lua Nova, o homem aspira e alcança a divindade; através da Lua Minguante – regida pelos signos do Ar ou Espaço – os Deuses atingem o homem e se unem com ele nesta fase lunar.

Bertiaux traça conexões entre os Loas Vodu e os Tulkus[39] Tibetanos do Bön-Pas e Nigma-Pas, a Seita Negra do Lamaísmo. Ele equipara os Gelugpas com o Loa Arada do Vodu, e o Karma-Pas com o sistema Petro que exalta Erzulie Rouge et Noire, que é idêntica com a Mulher Escarlate e a Deusa Tântrica Kalika.

O Renascer da Magia, contém um retrato por Crowley de uma Inteligência extraterrestres chamada Lam. Enquanto trabalhando com a corrente Bön-Pa nos anos sessenta, Bertiaux contatou esta entidade. Em uma carta particular datada de 21 de Março de 2004 ele escreveu:

Sem dúvida alguma este é o mesmo ser que trabalhou com Lucien-Francois Jean Maine.[40] [...] quando ele organizara o trabalho da Couleuvre Noire nos anos vinte. Foi então que a teoria dos points-chauds tomou uma forma xamânica e tântrica oriental bastante forte, e o termo Les Siddhis foi empregado para representar um estágio no desenvolvimento dos points-chauds, tais como a Licantropia e etc. Estes ser, LAM,[41] de fato possui um sistema mágico interessante o qual ele deseja que nós façamos uso e é minha intenção devotar muito tempo a apresentá-lo em linhas gerais.

As pesquisas de Bertiaux estabelecem uma identidade prática, portanto, entre os Mistérios Tibetanos do Tantra Xamânico e o Vodu Haitiano.

Conforme previamente observado, em Agosto de 1973, o Monastério dos Sete Raios, e seu culto interno – La Couleuvre Noire – oficialmente aceitou a Lei de Thelema, assim se alinhado com a Corrente 93 conforme exemplificada por Crowley e pela O.T.O.

Em um artigo intitulado Aleister Crowley & os Gnósticos Haitianos,[42] Bertiaux, escrevendo sob o pseudônimo de Frater Joseph, observa que ‘já existia uma Ordem comparada a O.T.O. de Karl Kellner e Theodor Reuss. Eu me refiro a Ordem e o Rito criados por Toussaint-Louverture que formou-se através do cabalismo Francês, iluminismo, e as correntes Africanas Dahomeianas [...].’

Bertiaux vai mais além para dizer que os mistérios do Vodu ‘estão bem próximos aos trabalhos do Grau VIIIº e IXº O.T.O. [...] os mysteries de la solitude e marriage mystique’ e ele mostra como um acréscimo por Crowley de um XIº Grau comparou-se a certos mistérios altamente esotéricos do Vodu, ambos os quais provam que havia um desenvolvimento ou evolução das teorias da magick sexual que existiam Graus secretos de consecução não contemplados pelos fundadores desta Sociedade Oculta.

Em Aleister Crowley & o Deus Oculto[43] eu analisei o XIº Grau, tanto em relação à interpretação de Crowley (a qual eu questiono), e seu significado esotérico conforme sugerido por comparação de seus mistérios com várias tradições antigas. A analogia que se buscou fazer aqui é que ambos os sistemas, Vodu e Tantra, similarmente, i.e. as escolas arcanas Africanas e Orientais, aceitam e praticam os trabalhos sexuais mais desenvolvidos e representados pela O.T.O. de Crowley, não menos também que a O.T.O.A. fundada por Lucien-Francois Jean Maine em 1921-2 como uma dissidência da O.T.O. que incorpora elementos do Vodu Haitiano retirados do Culto da Serpente Negra.

À parte da similaridade – se não identidade real – das operações magico-sexuais realizadas na O.T.O. e na O.T.O.A., os ensinamentos do Monastério dos Sete Raios e do Culto da Serpente Negra tornaram claro que eles estão em concordância essencial com o ‘programa político Externo’ resumido por Crowley em Liber Oz vel LXXVII.[44] Bertiaux tem o seguinte a dizer no Curso de Segundo Ano do Monastério:

O novo Yoga ou presença imediata corpo a corpo, da pele se misturando com a pele, de corpos se derretendo para dentro de um órgão maravilhosamente muscular, de óleos, transpiração, e líquidos corporais alcançando essa modelagem física, essa muito natural e completamente desinibida modelagem física pelo gênio da arte cósmica – sim, esse novo yoga da nova matéria viva, sim, essa nova forma de gerar identidade física, sim, essa vulgarização dos ensinamentos mais internos da Fraternidade do Monastério dos Sete Raios, sim, isto servirá para salvar a humanidade daqueles que buscariam proibir e inibir, suprimir e reprimir, em resumo ‘vestir’ o impulso básico do gênio criativo o qual o homem compartilha com os animais, que nunca perderam sua força criativa porque seus corpos nunca foram sufocados na falta de naturalidade do vestir e do hábito.
A nova liberdade da juventude contemporânea é baseada em sua percepção inconsciente da verdade básica por trás do universo. Não deveria haver inibição, que serve somente para inibir o pensamento criativo. Já se pensou uma vez que por meio da prática da inibição, o gênio criativo se tornaria possível porque a energia sexual comumente gasta na atividade sexual poderia ser usada para um fim criativo na arte, ou literatura. Nós agora sabemos que isso é falso, já que os escritos e arte daqueles mais sexualmente ativos são os maiores trabalhos do gênio: Michaelangelo, Renoir, Moreau, Redon, Huysmans, des Goncourts, Baudelaire, Proust, etc. Portanto a velha noção de que a repressão é o prelúdio à genialidade é e sempre foi incorreta, para não dizer desesperançosamente perigosa.
O Monastério dos Sete Raios, portanto, se opõe à velha ética puritana, a qual era tão amplamente ensinada, e que ainda é ensinada pelas escolas ocultas de pensamento.





[1] Veja The Demchog Tantra (Shricakrasambharatantra, vol. VII, de Sir John Woodroffe, Tantrik Texts, para um particular exemplo).
[2] Uma fórmula baseada nos experimentos de Ida Nellidoff (uma irmã do IXº O.T.O.) que fora incorporada por Crowley em suas instruções ‘secretas’ para membros do Soberano Santuário da Ordem.
[3] O relato de Mathers é citado em Aleister Crowley & o Deus Oculto, Capítulo 1.
[4] Lévi relata o fato em A Chave dos Grandes Mistérios.
[5] Descrito no capítulo anterior.
[6] Bertiaux chama a atenção para o sinônimo entre os termos ‘leis’ e ‘loas’. Os loas ou ‘invisíveis’ são os princípios espirituais que operam atrás do universo fenomênico.
[7] I.e Touro, Virgem, Capricórnio e Escorpião, Peixes, Câncer respectivamente.
[8] Libra e sagitário; Aquário e Áries.
[9] Comunicação privada datada de Abril de 2004.
[10] Escorpião, Peixes e Câncer.
[11] Itálicos pelo presente autor.
[12] Itálicos pelo presente autor.
[13] Austin Osman Spare, O Grimório Zoético de Zos.
[14] O Conven de Lovecraft é inspirado nos escritos de H.P. Lovecraft (1890-1937), o escritor da Nova Inglaterra cujos contos de horror se igualam e às vezes até mesmo superam os contos de Poe, Machen, Blackwood, e outros. O maior tema dos trabalhos de Lovecraft é referente aos ‘Old Ones’, deuses que uma vez reinaram sobre a terra e foram banidos para distantes golfos do espaço muitos aeons atrás e que desde então buscam pela eternidade seu retorno, e que – como em alguns contos – estabelecem contato com seres humanos, o que faz com que sua ânsia de retorno aumente. Veja particularmente The Whisperer in Drakness em The Haunter of the Dark and other Tales of Horror.
[15] Veja The Shadow over Innsmouth de Lovecraft.
[16] De acordo com Lovecraft, Dunwich é um ambiente decadente de Massachusetts.
[17] O ‘Bode com mil anos’. Nos mitos de Lovecraft uma deidade feminina.
[18] I.e. o subconsciente.
[19] Com seus respectivos kalas.
[20] ‘Dos quais existem 16 cartas positivas e 16 negativas’.
[21] Michael Bertiaux nos papéis de Grau do Monastério dos Sete Raios.
[22] Clark Ashton Smith (1893-1961), um artista da Califórnia que fora um dos maiores interpretes visuais dos Mitos de Lovecraft. É clamado pelo Conven Lovecraft que Smith está agora trabalhando com Lês Ophites – uma Seita do Culto da Serpente Negra – do ‘outro lado’.
[23] Em outras palavras, seu Sagrado Anjo Guardião.
[24] Local onde Derleth estabeleceu a editora de suas publicações e das publicações de Lovecraft.
[25] Pinturas e esculturas (por Bertiaux) de monstros-marítimos, tartarugas, anfíbios e batráquios.
[26] Veja, particularmente, Lua Mágica, Ed. Pensamento, São Paulo.
[27] Base da espinha, muladharacakra.
[28] Genitália, suadisthanacakra.
[29] I.e. Yesod.
[30] Papeis de Grau do Monastério dos Sete Raios.
[31] A Lua Nova, Lua Crescente, Lua Cheia e a Lua Minguante.
[32] O Livro de Thoth, Atu V.
[33] Magick em Teoria & Prática, por Aleister Crowley.
[34] Bertiaux, instruções do Monastério dos Sete Raios.
[35] Para uma explicação apurada do simbolismo do arco-íris Aleister Crowley & o Deus Oculto, Capítulo 7.
[36] O Livro de Thoth, Atu VIII.
[37] O Livro de Thoth, Atu XVII.
[38] As serpentes Ob e Od; veja o diagrama no Capítulo 2.
[39] Os equivalentes Tibetanos do conceito Hindu de avatares.
[40] Lucien-Francois Jean Maine, nascido em 1869. Um Adepto Haitiano que conheceu Papus (Dr. Gerard Encause) em Paris. Lucien-Francois Jean Maine retornou ao Haiti em 1921 e no ano seguinte criou a Ordem Mágica conhecida como La Couleuvre Noire. Também em 1921 Lucien-Francois Jean Maine criou a Ordo Templi Orientis Antiqua (O.T.O.A.), que indubitavelmente surgiu de seu contato com Papus, que era o Gão-Mestre da O.T.O. na França, nomeado por Karl Kellner. Lucien-Francois Jean Maine morreu em Madri em 1960.
[41] Recentemente certos Adeptos da O.T.O. nos Estados Unidos conduzidos por Soror Tanith contataram esta entidade. Veja Mistérios Draconianos para o desenho de Lam por Aleister Crowley.
[42] O Oculto, vol. III, no. 1, Chicago, 1973. Revista de divulgação interna aos membros da O.T.O.A.
[43] Capítulo 7.
[44] Veja Capítulo 7.

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