domingo, 4 de janeiro de 2015

O Deus Moribundo & Auto-Imolado



Fernando Liguori


Estremecei, Ó Pilar do Universo, pois a Eternidade está parindo dolorosamente uma Terrível Criança; ela trará um Universo de Trevas, de onde saltará uma centelha que porá seu pai a revoar.

Liber 418, 30° Aethyr


O advento do Aeon de Horus e a recepção d’O Livro da Lei em 1904 assinalou o início de uma mudança fundamental na evolução da humanidade. O fim de um Aeon produz mudanças profundas na consciência. Esse tipo de mudança dinâmica é conhecida como «quebra» ou «mudança de paradigma». O paradigma quebrado em 1904 foi de escala universal e aqueles que aceitam a Lei de Thelema dizem que ele foi iniciado por Inteligências que regem este planeta e sua evolução. Ele anunciou o fim da era do Deus Moribundo e a supressão de IAO como a fórmula central de Iniciação.

Aleister Crowley (1875-1947), em sua função de Profeta do Novo Aeon e seguindo as admoestações de Aiwass n’O Livro da Lei, revogou algumas fórmulas e rituais do Aeon de Osíris:

Vede! os rituais do velho tempo estão negros. Que os maus sejam abandonados; que os bons sejam purgados pelo profeta! Então deixe este Conhecimento seguir de forma correta.[1]

Os aspirantes a iniciação thelêmica devem dar a devida atenção na distinção entre «abandonados» e «purgados». Muitas das doutrinas do Aeon passado estão claramente revogadas, abandonadas. Outras, embora válidas, foram purgadas. O entendimento sobre essa distinção é necessário para a compreensão do sistema de Iniciação do Aeon de Hórus. Portanto, este opúsculo de meditação examina a fórmula do Aeon de Osíris e a temática que envolve o Deus Moribundo.

O Deus Moribundo

A fórmula do Deus Moribundo pode ser encontrada na mitologia de muitas culturas. As lendas de Odin, Adônis, Átis, Osíris, Jesus etc. contém elementos deste tema central. O padrão mitológico do deus morto e ressurreto permanece como um dos arquétipos mais poderosos surgidos dos estratos profundos do inconsciente. O aparecimento deste arquétipo surgiu com o nascimento do Aeon patriarcal e resultou na convulsão social que levou a derrocada da estrutura dominante representada pela imagem da Grande Mãe.

A Mãe é personificada pela natureza com seus ciclos incessantes de Nascimento, Vida e Morte. A Deusa Mãe foi a mantenedora inquestionável destes mistérios, pois todas as coisas vêm de seu útero, são por Ela nutridas durante a vida e após a morte são engolidas pelo grande vazio, sobre o qual Ela reina dominante. Nos recessos mais antigos da mitologia egípcia, existente apenas em fragmentos que ecoam de fontes mais antigas, encontramos evidências deste tema. O símbolo da Grande Vaca que suporta o sol carregando-o através de sua jornada celestial é o eco de uma mitologia mais antiga que se perdeu na noite dos tempos, quando a Grande Mãe era a fonte de tudo. O usurpador de seus domínios veio na forma de um homem, ou homem-deus, que conquistou seu mais temido aspecto: a morte. Ele sofreu a perda da vida como todo homem mortal, mas ressuscitou dos mortos. Ele também trouxe para sua época o conhecimento do mistério que destituiu a supremacia da Mãe: a importância da semente masculina para criação da vida.

A conexão entre o homem-deus ressurreto e o nascimento da vegetação é da mesma maneira uma ligação arquetípica do mito. Quando o homem primitivo apreciava a generosidade da terra, ele estava a sua mercê. O alimento era colhido onde quer que fosse encontrado, crescendo de maneira natural e selvagem. A habilidade do cultivo era uma cultura desconhecida. Portanto, o alimento colhido era uma dádiva da Mãe Terra. O mito de Osíris nos diz que ele foi o pai da agricultura. O arado da terra e o plantio da semente eram atitudes associadas ao Pai. Ainda, como a imprevisibilidade da natureza ameaçava ou destruía a colheita, o sofrimento suportado pelo Pai-Herói é algo inseparável de sua conquista da morte. Ambos eram vistos, inconscientemente, como agentes da Mãe.[2] O Herói era em si mesmo o grão impregnado na Mãe Terra que brotava a nova vida. A gadanha que ceifa o grão maduro possui a forma de uma lua crescente.[3]

Na medida em que o nosso conhecimento acerca da ciência aumenta, também aumenta a fronteira de nossos mitos. Pode-se até suspeitar que o último preceda o primeiro. Provavelmente é por esta razão que o Cristianismo tem aversão a verdadeira ciência. Na época de Osíris, a ciência era deveras rudimentar e a emergência da agricultura e da colheita foi considerada um milagre. O homem do mundo antigo não possuía conhecimento de que a semente não perecia na terra, mas apenas permanecia dormente. Assim, Jesus disse:

Chegou a hora de ser glorificado o Filho do homem. Digo verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, o continuará só. Mas, se morrer, dará muitos frutos.[4]

A doutrina teológica de Jesus, o último homem-deus do Aeon de Osíris, exige que o homem sofra para que possa realizar o Absoluto. Deve ficar claro que o conceito de auto-sacrifício não é, de todo modo, uma ideia falsa. Em essência, não existe falha com a teoria de que o indivíduo possa optar por se sacrificar por um bem maior, do qual ele é um componente.[5] Em nossa sociedade, frequentemente existe a necessidade de garantir a sobrevivência. O poder da família e de toda a nação é construído sobre o ideal do auto-sacrifício. É o elemento adicional de se proclamar a glória do sofrimento que o vilipendia.

A purificação através do sofrimento

Uma característica do Aeon do Deus Moribundo e tema central a todas as expressões de sua teologia, independente da origem cultural, é a doutrina da Purificação através do Sofrimento. Ela se tornou o ordálio iniciático primordial do Aeon de Osíris e simboliza a suprema consecução, a união com o divino.

Essa doutrina foi nitidamente resumida na palavra IAO, que é interpretada como Ísis, Apófis e Osíris, quer dizer, Vida, Morte e Ressurreição. Nesta fórmula mágica, a vida ou a natureza é destruída pela catástrofe e depois restituída pelo deus ressurreto ou redentor.

A traição de Seth e o subsequente assassinato e desmembramento de Osíris são elementos indispensáveis da paixão egípcia, que culmina na ressurreição do deus. É incerto até que ponto o sacerdócio egípcio considerava o sofrimento de Osíris como essencial para sua divindade. Os antigos textos permanecem em silêncio sobre esse tema. O mito de Osíris parece ser o do homem que triunfa a despeito de seu sofrimento. O mito de Jesus, por outro lado, é absolutamente claro: ele exige o sofrimento para a realização do Absoluto. No Novo Testamento, quando Jesus revela seus planos a seus discípulos, ele diz:

Então ele começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas e [...] fosse morto e três dias depois ressuscitasse.[6]

Quando Pedro contestou a aceitação de seu mestre diante da fatalidade, Jesus respondeu:

Para trás de mim, Satanás! Você não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens.

As letras inscritas na placa acima da cabeça de Jesus na Cruz quer dizer: «Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus».[7] As iniciais dessa frase em latim, I.N.R.I.,[8] combinadas com a forma gnóstica do nome Jeová, I.A.O., produziu a palavra-chave do mistério central da Ordem Hermética da Aurora Dourada. Ela era usada para abrir a Cripta da Montanha Abiegnus.[9] A fórmula é proferida no Ritual de Adeptus Minor [Adepto Menor] da Ordem:

Deixe analisarmos a Palavra Chave.
I.N.R.I.
YOD, NUN, RESH, YOD.
Virgem, Ísis, Mãe Poderosa.
Escorpião, Apófis, Destruidor.
Sol, Osíris, Morto e Ressurreto.
Ísis, Apófis, Osíris – I.A.O.
Ê – O Sinal de Osíris Morto.
L – O Sinal de Ísis Enlutada.
V – O Sinal de Tifon e de Apófis.
X – O Sinal de Osíris Ressurreto.
LVX, Lux, A Luz da Cruz.[10]

O candidato a este Grau, antes de receber o juramento, era vestido em um «Robe de Luto» e envolto no «Cordão da Humildade.» Em seguida era atado a «Cruz do Sofrimento» sobre a qual ele exclamava: «o símbolo do sofrimento é o símbolo da força [...] Se somos crucificados com Cristo, também reinaremos com Ele».

Os que aspiram a real iniciação thelêmica devem repudiar o dogma do auto-sacrifício como um atributo de justiça e retidão. O símbolo e a função da Cruz do Sofrimento estão revogados. Esta fórmula não ocupa nenhum lugar no contexto thelêmico.[11] A fórmula do Deus Moribundo, divorciada da glorificação pelo sofrimento, não está revogada. Ela foi assimilada em uma compreensão mais ampla da natureza e consequentemente do psicossoma da humanidade.[12]


Fontes

CROWLEY, Aleister. Book Four – Liber Aba. Weiser Books, 2008.
_______________. The Best of Equinox, Vol. 1. Weiser Books, 2012.
ESHELMAN, James A. The Mystical & Magical System of AA. The College of Thelema, 2000.
GUNTHER, J. Daniel. Initiation in the Aeon of the Child: The Inward Journey. Ibis Press, 2014.
LEVENDA, Peter. The Dark Lord. Ibis Press, 2014.
REGARDIE, Israel. A Aurora Dourada. Madras, 2008.



[1] Liber Al vel Legis, II:5.
[2] Isso aparece como a expressão de um antagonismo natural na precessão das épocas, necessário para construir a ruptura com elementos previamente dominantes, considerados hostis ao desenvolvimento de um novo sistema de crenças.
[3] A gadanha combina o crescente e a cruz, o emblema de Saturno «7», assim, a Grande Mãe.
[4] João, 12:23-4.
[5] Por exemplo, pais que sacrificam suas vidas para salvarem os filhos.
[6] Marcos, 8:31.
[7] João, 19:19.
[8] Iesus Nazarenus Rex Iudeorum. Veja João, 19:19-22.
[9] Abiegnus é a Montanha Mística de Iniciação dos Irmãos Rosa Cruzes.
[10] Veja The Equinox, Vol. I, No. 3, p. 211-212.
[11] Não devemos confundir a Cruz do Sofrimento com a Cruz de Themis, que equilibra e transforma as forças internas do candidato. Veja o Ritual de Neófito em The Equinox, Vol. I, No. 2 e Liber Al vel Legis, III: 34.
[12] «A fórmula do Deus Moribundo não foi revogada. Ela foi absorvida em um entendimento mais amplo. Daí a conclusão de que cada ação é uma criança.» Aleister Crowley em The Heart of the Master & Other Papers, p. 7.

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