sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Universo Imerso nas Trevas




Fernando Liguori


Notamos a maciça falta de precisão pelo qual aspirantes a iniciação thelêmica tratam certos termos técnicos importantes. A pouco tempo vi uma passagem, escrita por um suposto thelemita, que deturpava as Fórmulas de L.V.X. e N.O.X., fazendo uma comparação irreal entre L.V.X. e I.N.R.I. A presente nota tem a intenção de esclarecer essas fórmulas.

Uma das características principais do Aeon de Osíris é a preferência por símbolos da «luz». A Fórmula de L.V.X.[1] através do qual adeptos expressavam seu entendimento dos fatos da natureza e os meios para superá-los, embora eficaz, representa uma percepção incorreta do universo. A representação solar do Absoluto não mais requer o antagonismo entre luz e trevas como premissa básica. Apenas a perspectiva geocêntrica considera o «nascer» e o «por do sol» tendo a terra como um ponto fixo. O sol brilha radiante no ponto mais extremo do planeta a meia noite. O por do sol é apenas um «evento»; do ponto de vista do sol essa é uma perspectiva incorreta.

Nossos ancestrais, temendo que o sol não retornasse, elaboraram rituais que garantissem o retorno do sol no amanhecer. Diferente de nossos ancestrais primitivos, nós não tememos que o sol possa ser devorado por alguma criatura ctônica das trevas. Portanto, da perspectiva do sol, existe apenas distantes pontos de luz de outras estrelas. O sol se encontra perpetuamente imerso em trevas.

A psicologia moderna já demonstrou que os aspectos sombrios da psique humana não podem ser ignorados sem perigo – pois desequilíbrios grosseiros são um convite para intrusão de «entidades» qliphóticas adversas que ameaçam a estabilidade da personalidade propiciando as mais diversas doenças mentais. Os incautos que buscam praticar magia e ignoram os aspectos sombrios da mente humana flertam com o desastre. Certas admoestações, como estas de Liber Tzaddi, provêm uma interpretação prática do mistério:

Muitos se ergueram, sendo sábios. Eles disseram «Buscai a Imagem brilhante no lugar sempre dourado e uni-vos com Ela.»
Muitos se ergueram, sendo tolos. Eles disseram «Descei até o esplêndido mundo sombriamente escuro e desposai-vos com aquela Criatura Cega do Lodo.»
Eu que estou além da Sabedoria e da Tolice me ergo e vos digo: realizai ambas as núpcias! Uni-vos com ambos!
Cuidado, cuidado, eu digo, a fim de que não busques a um e perdas o outro!
Meus adeptos se mantêm em pé; sua cabeça acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos.[2]

No Aeon de Hórus, a fórmula central não é L.V.X., mas N.O.X.[3] Muito mais do que o equilíbrio dos opostos da Fórmula de L.V.X., a Fórmula de N.O.X. é a fórmula da Mãe «h», enquanto que a Fórmula de L.V.X. foi a fórmula do Filho «]». L.V.X abria a Cripta de Abiegnus, N.O.X. abre os Portais da Cidade das Pirâmides.[4]

Note o uso do pretérito na Fórmula de L.V.X., pois ela não abre mais a Cripta da Montanha dos Adeptos. No presente, ela abre os Quatro Portais do Palácio no sopé da Montanha. Portanto, ela não mais representa a palavra do Filho Tiphereth, mas da Filha Malkuth que margeia o Mundo dos Cascões. A Fórmula I.N.R.I. não possui conexão com L.V.X. e é utilizada por aqueles que não aceitam a Lei de Thelema.[5]

Estes são termos técnicos para aqueles que aspiram a verdadeira iniciação thelêmica.



[1] Do latim Lux, que significa «luz». A Fórmula de L.V.X. significa «A Luz da Cruz». Veja 777 and the Other Qabalistic Writings of Aleister Crowley, «Gematria», p. 23.
[2] Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus, 36-40. Aleister Crowley.
[3] Do latim Nox e do grego Nux, que significa «noite». As letras N.O.X. são interpretadas como a «Noite de Pã». Veja O Livro das Mentiras, caps. 1, 11 e 29.
[4] Este é um termo técnico que define a Sephira Binah. Veja Liber 418, 12º Aethyr. É o Templo da Iniciação e a Tumba dos Mestres do Templo.
[5] Veja O Livro de Thoth, Crowley: «esta doutrina é para os irmãos mais débeis, para aqueles que sofrem da ilusão da imperfeição; ela os capacita a abrir seu caminho para a Luz ilimitável.»

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