domingo, 22 de fevereiro de 2015

Gnose Tifoniana em Foco #3



Fernando Liguori


Essa é a primeira parte do artigo intitulado A Besta na Caverna[1], a ser publicado na íntegra na Revista Stella Lucis, Orgão Oficial de Divulgação da Ordo Tifoniana Occulta.


Uma pericorese[2] interessante parece ter ocorrido no ano de 1907 nas vidas de Aleister Crowley e H.P. Lovecraft. Este foi o ano em que Crowley, investido da autoridade de Messias do Novo Aeon[3] como V.V.V.V.V.,[4] recebeu alguns escritos que se tornaram seminais no desenvolvimento da doutrina de Thelema, conhecidos como os Livros Sagrados. Estes incluem Liber Liberi vel Lapidus Lazuli «Liber VII», Liber Cordis Cinti Serpente «Liber LXV» e outros escritos entre 30 de outubro e 1 de novembro. Naquele mesmo ano, entre 5 e 14 de dezembro, ele recebeu Liber Arcanorum e Liber Carcerorum «Liber CCXXXI». Naquela época, H.P. Lovecraft que – aparentemente não possuía qualquer conhecimento das investidas espirituais de Crowley – tinha apenas dezessete anos de idade e morava na Angel Street, Providence, Rhode Island, sonhava com as estrelas.

Em 1926, o ano em que Frater Achad[5] recebeu a Palavra do Aeon,[6] H.P. Lovecraft descreveu um ritual orgiastico que acontecia no mesmo dia em que Crowley recebeu os Livros Sagrados. A história em que Lovecraft descreveu este ritual ficou conhecida como O Chamado de Cthulhu. Mas qual a relevância dessa pericorese?

Lovecraft descreve um ritual dedicado a um alto sacerdote dos Poderosos Antigos[7] no Culto de Cthulhu e a descoberta de uma estatueta mágica pelas autoridades de Nova Orleans. Estes eventos supostamente aconteceram em 1907, no mesmo dia que Crowley recebia os Livros Sagrados. É interessante notar que no Liber Liberi vel Lapidus Lazuli, Crowley cita a palavra «Tutulu» pela primeira vez. Ele afirmava não saber o que significa essa palavra ou de onde ela vem. Como o nome do deus alienígena de Lovecraft pode ser pronunciado «Kutulu», parece mais do que coincidência.

Mas essa é só a ponta do iceberg.

No Liber Cordis Cinti Serpente «O Livro do Coração Cingido pela Serpente», existem inúmeras referências ao «Abismo da Grande Profundeza», «tentáculos de demônio», «Tifon» etc., imagens que descrevem Cthulhu e seu culto perfeitamente. Vamos as passagens relevantes:

Liber Liberi vel Lapidus Lazuli, Capítulo VII, versos 1-8:

Pela queima do incenso foi a Palavra revelada, e pela droga distante.
Ó refeição e mel e óleo! Ó belo estandarte da lua, que ela estende no centro do êxtase!
Estes soltam as ataduras do cadáver; estes soltam os pés de Osíris, de modo que o Deus flamejante possa se enfurecer através do firmamento com a sua lança fantástica.
Mas a triste estátua é puro mármore preto, e a dor imutável dos olhos é amarga para o cego.
Nós compreendemos o arrebatamento daquele mármore estremecido, despedaçado pelos espasmos da criança coroada, o bastão dourado do Deus dourado.
Nós sabemos porque tudo está ocultado na pedra, dentro do ataúde, dentro do poderoso sepulcro, e nós também respondemos Olalám! Imál! Tutulu! Como está escrito no antigo livro.
Três palavras daquele livro são como vida para um novo aeon; nenhum deus leu por inteiro.
Mas tu e eu, Ó Deus, o escrevemos página por página.

Note que o verso seis cita Tutulu «como está escrito no antigo livro». Este livro poderia ser o Necronomicon? Em Liber Cordis Cinti Serpente temos:

Então o Adepto estava alegre, e ergueu seu braço.
Vede! Um terremoto, e praga, e terror sobre a terra!
Uma queda daqueles que se assentam nos lugares altos; uma fome sobre a multidão![8]

Vede! O Abismo da Grande Profundeza.
Lá existe um poderoso delfim, agitando seus flancos com a força das ondas.[9]

Tu és Sebek o crocodilo contra Asar; tu és Mati, o Matador no Abismo. Tu és Tifon, a Fúria dos Elementos, Ó Tu que transcendes as Forças na sua Conjunção e Coesão, na sua Morte e na sua Ruptura. Tu és Píton, a terrível serpente junto ao fim de todas as coisas![10]

Eu tremi na Tua chegada, Ó meu Deus, pois o Teu mensageiro era mais terrível do que a Estrela da Morte.
Na soleira permaneceu a fulminante figura do Mal, o Horror da vacuidade, com seus olhos sinistros como poços venenosos. Ele permaneceu, e a câmara estava corrompida; o ar estava pestilento. Ele era um peixe velho e enrugado mais medonho do que as conchas de Abaddon.
Ele me envolveu com seus tentáculos de demônio; sim, os oito terrores se apoderaram de mim.[11]

No Liber Liberi vel Lapidus Lazuli Crowley se refere a várias imagens utilizadas por Lovecraft em suas histórias, especialmente em O Chamado de Cthulhu. Na instrução de Crowley encontramos a descrição do deus enterrado que é desperto através de uma pedra em um caixão dentro de um sepulcro protegido por misteriosas palavras descritas no antigo livro, incluindo Tutulu. E no Capítulo VII, verso 4, encontramos: «mas a triste estátua é puro mármore preto», o que ressoa com a pedra negra da qual a estátua de Cthulhu é feira.

Já no Liber Cordis Cinti Serpente nós encontramos a expansão desse tema, começando pelo terremoto,[12] se estendendo ao Abismo da Grande Profundeza, a estrela da morte, o matador das profundezas e a figura fulminante do mal (uma criatura pútrida com tentáculos). Essa criatura é um mensageiro dos Deuses e Cthulhu, de fato, não é apenas um deus, mas um sacerdote dos Poderosos Antigos que retornarão «quando as estrelas estiverem alinhadas». Um olhar atento a máxima do AL, «todo homem e toda mulher é uma estrela»[13] pode ser uma decodificação da frase de Lovecraft, «quando as estrelas estiverem alinhadas». Isso poderia implicar que quando os seguidores de Thelema (as «estrelas») forem poderosos ou numerosos o suficiente, os Poderosos Antigos retornarão.

Este era certamente o objetivo de Crowley, de acordo com o entendimento de Kenneth Grant (1924-2011) e por essas passagens citadas dos Livros Sagrados. Crowley acreditava que Liber Liberi vel Lapidus Lazuli e Liber Cordis Cinti Serpente não eram obras dele, mas escritos inspirados ditados por seu Sagrado Anjo Guardião, uma antiga deidade sumeriana conhecida como Aiwass,[14] após ele ter experienciado o samādhi no curso dos rituais que executou com seu amigo magista George Cecil Jones (1873-1960),[15] na Inglaterra.[16] Até mesmo a indecifrável linguagem «Olalam Imal Tutulu» pode estar associada aos enigmáticos hieróglifos na estatueta de Cthulhu e aos gritos em êxtase dos adoradores nos pântanos de Louisiana.[17] Ambos, Crowley e Lovecraft estavam lidando com os Poderosos Antigos nessa estranha pericorese?

Isso nós iremos explorar na sequência...




[1] Durante a recepção de Liber AL vel Legis por Crowley no Cairo em 1904, um jovem rapaz americano cursando o Ensino Médio escrevia um conto que refletia os acontecimentos ocorridos no Egito a milhares de quilômetros de distância. Essa coincidência é, no mínimo, misteriosa. O escritor era H.P. Lovecraft (1890-1937), considerado por muitos o pai da moderna literatura gótica de terror. O conto em questão foi intitulado A Besta na Caverna. Como é de nosso conhecimento, Crowley identificava a si mesmo como a Besta, uma máscara da Besta do Apocalipse no Livro das Revelações. No conto de Lovecraft, a Besta era algum tipo de monstro que vivia nas entranhas da terra, mas que se revelava como ser humano, um homem. As histórias de Lovecraft envolvem comunicações oníricas e transmissão de informações através do psiquismo ou através das visões de artistas e outras almas sensitivas. É possível que Lovecraft tenha «captado» os acontecimentos mágicos que ocorriam no Cairo naquele momento enquanto escrevia o conto da Besta que se apresentava como homem? Este artigo foi inspirados em eventos como este.
[2] Pericorese «perichoresis» ou interpenetração é um termo que surgiu na teologia cristã que aparece pela primeira vez em Gregório de Nazianzo. Do grego Peri «à volta» e chorein «conter». Kenneth Grant em Hecate's Fountain define o termo de maneira mais precisa como interpenetração de dimensões.
[3] Crowley tinha a tendência de interpretar os Livros Sagrados da perspectiva individual de seu grau de iniciação, o que é compreensível. Como escriba dos Livros Sagrados e avátar do Novo Aeon, suas interpretações são particularmente válidas. Contudo, seus comentários às vezes falham em capturar o ponto de vista transpessoal do mundo ou da humanidade como um todo. Senão, falham muitas vezes na distinção entre 666, V.V.V.V.V. e o escriba. Veja por exemplo seu comentário ao verso três do capítulo V de Liber LXV, onde Crowley vaidosamente interpreta a «cidade cinzenta» como Londres, perdendo completamente o fio da meada na interpretação do verso. Mas neste caso, ele mesmo teve a sabedoria de questionar a validade de sua interpretação, mas infelizmente ele não conseguiu ver a floresta além das árvores.
[4] V.V.V.V.V. são as iniciais do nome de um Adepto Exaltado ao Grau de Mestre do Templo, 8°=3 AA, cujos ensinamentos estão contidos nos Livros Sagrados de Thelema. Estas também são as iniciais do nome mágico de Aleister Crowley como Mestre do Templo da AA: Vi Veri Vniversum Vivus Vice «pela força da verdade, eu, enquanto vivo, conquistei o Universo».
[5] Charles Robert John Stansfeld Jones, 1886-1950.
[6] Achad sustentava que Crowley, no posto de Magus da AA, havia falhado em receber a Palavra do Aeon. Esta Palavra, segundo Achad, não era Thelema, pois essa seria a «Palavra da Lei». Também, ela não poderia ser Abrahadabra, pois essa seria a «Chave dos Rituais». Foi quando Achad, ainda no ano de 1926, período em que proclamou ter atingido o Grau de Magus, vibrou a Palavra ALLALA, suplantando a falha de Crowley. Esta palavra ascendeu seu entusiasmo, pois ela era três vezes o valor da Chave do AL que ele mesmo descobriu. ALLALA soma 93 (3x31), o mesmo número das fórmulas mágicas da Corrente Theriônica: Vontade «Thelema» e Amor «Ágape». Aiwaz, o transmissor do AL, também soma 93. Portanto, além de ser a «Verdadeira Palavra do Aeon», ALLALA elucidava muitos dos mistérios contidos no AL, mas nem todos. Para maiores detalhes veja Kennet Grant: Cults of Shadow, Capítulo 8 e Outside Circles of Time, Capítulo 9.
[7] Great Old Ones.
[8] Liber LXV, I:57. O terremoto é um elemento importante na história de Lovecraft.
[9] Liber LXV, II:37. Cthulhu é o monstro do Abismo da Grande Profundeza.
[10] Liber LXV, III:30.
[11] Liber LXV, IV:33-35. Estes versos descrevem bem Cthulhu.
[12] A história de Lovecraft é centrada em um terremoto ocorrido em 1925.
[13] Liber AL vel Legis, I:3.
[14] «O ministro de Hoor-paar-Kraat» ou Seth e o canal da energia extraterrestre que está permeando a atmosfera da terra durante o presente Aeon de Horus. Crowley declarava que Aiwass (var. Aiwaz) era seu Sagrado Anjo Guardião e o equivalente de Shaitan, o Deus dos Yezidis.
[15] George Cecil Jones foi iniciado como Neófito, 0°=0 na Ordem Hermética da Aurora Dourada em 12 de julho de 1895, tomando como nome de aspiração Volo Noscere «V.N.: Eu Saberei». Dezoito meses depois, em 11 de janeiro de 1897, tinha concluído o curso da Primeira Ordem e foi promovido para o 5°=6, Adepto Menor. Seu nome mágico na Segunda Ordem foram as iniciais D.D.S. Foi Jones que, quase dois anos depois, em outubro de 1898, recomendou o ingresso de Crowley na Ordem Hermética da Aurora Dourada e patrocinou-lhe a sua iniciação de Neófito. Para esta iniciação, Frater V.N. serviu como Kerux, um oficial que, em muitos aspectos, corresponde ao Eremita do Tarot e ao deus Mercúrio ou Hermes. Junto com Allan Bennett (1872-1923), conhecido como V.H. Frater Jehi Aur, Jones foi um dos dois principais mentores de Crowley e seu tutor durante seus dias inicial de treinamento mágico.
[16] «Após retornar de Marrocos, o espírito veio até a mim e eu escrevi uma série de livros de uma maneira que eu não sei descrever [...]. A prosa destes livros, dos quais Liber Cordis Cinti Serpente, O Livro do Coração Cingido pela Serpente e Liber Liberi vel Lapidus Lazuli são os principais, é completamente diferente de tudo o que eu já escrevi. Eu não tenho dúvidas de que estes livros são o trabalho de uma inteligência completamente independente de mim.» Crowley em The Confessios of Aleister Crowley, Capítulo 62, PP. 558.
[17] Em 1908 a palavra Tutulu voltou a aparecer nos escritos de Crowley enquanto ele invocava o 27° Aethyr do sistema Enochiano no Norte da África. Posteriormente ele confessou que a palavra era intraduzível. Veja The Vision and the Voice, suplemento no The Equinox, Vol. I, No. 5.

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