sábado, 20 de fevereiro de 2016

Os Nomes Bárbaros de Evocação

 


Fernando Liguori


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.


Os nomes bárbaros de evocação não somente exaltam a consciência do magista, eles também vitalizam as zonas secretas de atividades erógenas das sacerdotisas escolhidas para o rito. A ciência das Rodas de Força, dos vórtices mágicos, não é peculiar aos tantras somente, embora os tantras — como os hindus e os budistas — sejam os repositórios principais sobreviventes da antiga ciência dos kālas, emanações sagradas.[1]


Os nomes bárbaros de evocação, sejam eles enochianos, goéticos, greco-egípcios, tântricos etc. têm o poder de deslacrar os portais do subconsciente. Sua potência reside principalmente no fato de que eles são inintelegiveis para a mente consciente. Inspirado, Crowley escreveu: Os longos cordeis das palavras formidáveis que rugem e gemem através de tantas conjurações tem um efeito real em exaltar a consciência do magista ao climax apropriado.[2]

Em 1999, eu ganhei de presente uma edição do recém-lançado livro de Kenneth Gerant em português, O Renascer da Magia. Esse livro mudou toda minha perspectiva sobre Thelema. Instigado por suas ideias, logo me debrucei com afinco no estudo e prática da magia greco-egípcia. O ponto que mais me chamou a atenção nessa obra foi esta passagem:

O conhecimento advindo da análise qabalística dos nomes de antigas deidades permitiu a Crowley restaurar rituais que eram de vital importância em sua própria iniciação. Sendo os nomes das deidades nada mais do que formulas mágicas, sua restauração fornece a chave para a invocação ou evocação, conforme seja o caso. O rito mais importante que Cowley restaurou á a Invocação Preliminar da Goécia, um rito medieval provindo de fases muito antigas da magia que Crowley teve sucesso em restaurar de forma inintelegivel, transformando-a numa poderosa máquina taumaturgica.
A invocação é baseada em uma tradução de C. W. Goodwin de um Trabalho sobre Magica Greco-Egípcia conhecido como a Invocação do Não-Nascido ou como Goodwin traduziu, o Sem Cabeça. (O Sem Cabeça era um nome dado pelos Gnósticos ao Sol no Amenta, isto é, a Luz no Submundo. Este conceito era representado antigamente por uma figura decapitada e é um paralelo a imagem egípcia da leoa ou leão sem juba, que representava o sol em sua fase «feminina» ou passividade e escuridão; o leão tosquiado de sua juba, ainda que feroz com sua forca e calor ocultos. Em outras palavras, o sem cabeça tipificava o deus escondido ou submerso abaixo do horizonte; nos termos da psicologia, o subconsciente, a Vontade subliminar). Crowley traduziu o termo  aceralon como O Não-Nascido para indicar o fato de que a Verdadeira Vontade não esta sujeita nem ao nascimento nem a morte, somente seus veiculos eram sujeitos a estas fases gemeas da atividade do mundo fenomenal. A invocação do Não-Nascido, portanto, forma a base prática para contatar o mais oculto de todos os deuses ou demônios – o Sagrado Anjo Guardião.[3]

Minhas pesquisas me levaram a desenvolver uma série de escritos sobre as técnicas greco-egípcias de magia. Alguns desses escritos estão sendo publicados nas edições de O Olho de Hoor.[4] No entanto, aqui estou mais interessado em explorar os recessos Tifonianos que encontrei ao estudar e praticar a magia greco-egípcia e o poder dos nomes bárbaros de evocação na abertura dos portais qliphóticos e a exploração dos Túneis de Seth.

Jâmblico (245-325 d.C.), teurgo e filósofo neoplatônico, escreveu que a teurgia – em egípcio-demótico paxer-neteri – requer a utilização de termos estrangeiros ou exóticos e de sinais mágicos para que o teurgo receba o poder dos deuses.

A expressão termos estrangeiros é uma herança da consciência sacerdotal egípcia, cuja cultura mágica e filosófica foi exportada para Grécia e outros países do Mediterrâneo. Para os egípcios, o Egito era considerado o centro da Ordem Cósmica. Se alguma peste ou calamidade acometece os egípcios, era considerado que a Ordem Cósmica estava em processo de desajuste. A melhor maneira para introduzir o caos na mente dos egípcios é, portanto, a magia estrangeira, quer dizer, que vem de fora do Egito. Nos Papiros Mágicos Greco-Egípcios, principalmente os Papiros Demóticos dos Sécs. III e IV d.C., encontramos a presença de inúmeras palavras estrangeiras, quer dizer, gregas e parece que os egípcios preferiam o idioma grego para escreverem suas conjurações. A deidade titânica conhecida como Tifon, que sempre conspira seu retorno ao centro do mundo para roubar o poder de Zeus foi considerada o símbolo perfeito dessa preferência multicultural. Nessa confluência de culturas nasceu o complexo Seth-Tifon, talvez, quem sabe, uma resposta irônica ao Culto de Serapis de Ptolomeu (90 d.C.).

Os autores dos papiros, sacerdotes que trabalhavam para deus (sems-neter) e agiam como deuses (paxer-neteri) procuravam estabelecer metas práticas, quer dizer, taumaturgia. Isso levou a construção de um intricado sistema de comunicação com inúmeras criaturas espirituais para os mais diversos fins. Seth-Tifon como um complexo divino de fora, estrangeiro, pode ter sido o primeiro exemplo de luciferianismo. A escolha consciente de uma figura antinomiana e a miscigenação cultural da época construíram um sistema de magia sem precedentes até então.[5]

O ritual que Crowley restaurou é conhecido por todos os thelemitas como Liber Samekh e trata da invocação do Sagrado Anjo Guardião ou daemon. Esse ritual apareceu primeiro em O Livro de Jeu, um compêndio de papiros mágicos gnósticos arranjados no Codex Brucianus, vendido ao Museu Real da Inglaterra em 1872. Jeu era uma figura bem conhecida entre os gnósticos e acredita-se que os ensinamentos de seu compêndio foram proferidos pela boca do próprio Jesus, após sua ressurreição.

O Ritual começa com a invocação do Sem Cabeça, identificado com Seth (mas também como Abraxas e Osíris). Em seguida, o magista torna-se o próprio deus e empoderado com o poder da deidade, executa o trabalho mágico. Os egípcios acreditavam que os mortos se submetiam a uma transformação no abismo ou submundo. Eles se transformaram em Asar-Un-Nefer. Em um recesso do mito, Osíris foi desmembrado por Seth, que tipificava a Noite, o Esquecimento. Ísis encontrou todas as partes do corpo de Osíris, com exceção do falo; foi Hórus quem supriu o membro perdido capacitando o defunto osirificado ascender a uma nova vida. A forma remembrada do deus simboliza o todo espiritual e perfeição. A deusa Ísis representa a operação espontânea da Natureza curando a quebra da consciência pela revelação da chave oculta para o subconsciente. Em outro recesso do mito, ela copula com o defunto de Osíris a fim de dar luz a Hórus. Este congresso acontece no Amenta, a terra oculta (subconsciente).

O sacerdote Egípcio se identificava com este deus assumindo internamente sua natureza sobre-humana e extremamente alguma parte, geralmente o rabo ou chifre do animal que representava aquela natureza. Identificando desta maneira sua consciência com a besta, o sacerdote se transformava em um talismã vivo. Ele era então lançado para dentro do Abismo quendo entrava cerimonialmente no submundo em uma embarcação consagrada; após o que ele era encerrado em um santuário lacrado até que o poder do deus se manifestasse. Certas indicações nos papiros sugerem que tal processo formava parte de uma investigação regular do submundo ou reinos ocultos.

Ainda em O Livro de Jeu, a continuação desse rito leva a uma exploração através dos aeons com a finalidade de aprender os mistérios da criação. O texto insiste que o ritual somente será efetivo quando a consciência do magista for tomada pela presença divina de Seth, que irá ancorar as forças necessárias para que a taumaturgia aconteça.

As implicações Tifonianas são óbvias. Na tradição egípcia ensina-se que o chumbo foi à matéria prima utilizada para construir o sarcófago de Osíris. O chumbo foi associado ao poder de confinamento atribuído ao deus Seth, o obstáculo que impede a dinâmica da ação, o silêncio que solapa o barulho. Do outro lado da fronteira, na Grécia, o chumbo é um metal associado à Kronos, o deus dos mortos que possui controle das ondas ou marés do oceano do espaço e tempo, o subconsciente e o espaço além. Trata-se, portanto, da manifestação silenciosa de um poder que está oculto. Seu culto não se dá através de preces e pedidos como os deuses mais populares, antes disso, é um impulso ou movimento de dentro para fora. Em seu sistema de magia, movido ou inspirado pelas descobertas de Crowley, Kenneth Grant associou o Culto de Seth com a fórmula mágico-sexual do XI° O.T.O. e o símbolo da fênix.[6]

É possível encontrar a existência de uma tradição comum nos Papiros Mágicos Greco-Egípcios. O Livro da Lei é claramente uma herança espiritual dessa corrente mágica. Os Papiros Demóticos, por exemplo, ensinam a utilizar substâncias como sangue menstrual, vinho e intoxicantes. Crowley frequentemente energizava a entoação dos nomes bárbaros de evocação com estimulantes a base de álcool, drogas e magia sexual. Tais metodos são indicados em O Livro da Lei e são básicos para o candidato a iniciação no Novo Aeon. O uso de técnicas como essas tem sua contraparte nos tantras. A Sacerdotisa é estimulada sexualmente para que sua vulva possa se tornar a Fonte do Sulco da Deusa, mas para isso, o Sacerdote deve vibrar no aethyr os nomes bárbaros de evocação de forma rítmica e hipnótica. Estes mesmos nomes são utilizados na prática da Goécia, por exemplo. Crowley observa em suas Confissões que Goécia é a palavra técnica empregada para cobrir todas as operacões daquela magia que lida com forças brutas, malignas ou sem luz. Goécia significa uivo. A entoação dos nomes bárbaros de evocação de fato sugerem muito fortemente o uivo dos lobos, os latidos dos chacais e o riso ulular e agudo das hienas, animais tradicionalmente associados com feitiçaria e o mundo oculto. O termo goécia neste ensaio é compreendido, portanto, não apenas como o tráfico com entidades telúricas como os 72 gênios, mas também com as criaturas ctonianas e titânicas dos Túneis de Seth.

O uso da magia sexual como um meio de se obter acesso aos mundos invisíveis ou outros planos de consciência não teve inicio, é obvio, com Crowley. Tais práticas retrocedem aos tempos pré-dinásticos no Egito, onde a Grande Deusa-Mãe – Taurt, o protótipo do Tarot, as revoluções estelares e, mais tarde, o Zodíaco – era adorada com ritos sexuais, a orgia ou trabalhos divinos dos mistérios greco-egípcios.

A expressão nomes barbaros evidentemente se refere ao discurso monstruoso ou o discurso dos monstros e esta é a chave para o significado da palavra goécia, uivante (como uma besta). Estes mistérios originam-se das fases primitivas da evolução quando ocorria a transformação da besta em homem. Durante este periodo foram lancadas as fundações da mitologia mundial e das grandes civilizações jamais conhecidas. Práticas tão remotas no tempo que foram quase totalmente esquecidas antes que a época monumental da historia egípcia.

O que se segue é a análise de uma técnica de magia greco-egípcia contida nos Papiros Demóticos da recessão tifoniana do antigo Egito e que foi utilizada em muitas operações qliphóticas ocorridas durante os rituais da Loja Shaitan-Aiwaz. A sacerdotisa era excitada através das técnicas sexuais do VIII° O.T.O., momento em que o sacerdote recitava o encantamento. Os kālas da noite, quer dizer, a secreção vaginal e fluídos menstruais eram então coletados em um recipiente apropriado, também sob encantamentos mágicos. O material coletado era usado para untar a imagem de do deus Seth construída em barro pela própria sacerdotisa.

Em uma múmia de barro cru, na forma de um asno, entalhe os encantamentos:
Na face: IAŌ IŌ.
No pescoço: ĒOĒOĒ.
Nas costas: LERTHEMINŌ.
No peito: SABAŌTH.
Nas patas: ABRASAX.
Unte a múmia com sangue de Tifon da união da Lua Cheia.
Na coleta do sangue, no que o encantamento deve lançar: IŌ ERBĒTH IŌ BOLCHOSĒTH IŌ BOLCHOSĒTH SABAOUM KOKLOTOM PATATHNAX, o agitador; IŌ ERBĒTH APOMPS IAŌTH IABAŌTH SEISAŌ PEUKRĒ, tu que é afortunado; TESCHŌ PATONAK PHENDE MIEPHEOR ABIRBOLONCHITI RŌPHTĒ EPERMA PAPELŌPS, o agitador do mundo; Eu te invoco, poderoso Tifon, IŌ ERBĒTH PAKERBĒTH IŌ BOLCHOSĒTH, pois eu estou aqui [nome mágico], escuta-me: LERTHEMINŌ AROUZORON BATHOU CHĒASMEPHIS. Ó grande Tifon, LETHERMINO, atenda o meu chamado nesta operação executada em seu nome: ABEREMENTŌU OUTHERLETEXANATHEXEREL THŌUMEPTH OU EM A BE.

O asno é um totem tifoniano de Seth-Tifon. Ele é identificado como IAŌ IŌ. IAŌ é considerado entre os Gnósticos o Absoluto. Ele nasceu de uma reinterpretação da deidade egípcia com cabeça de asno, IAA. O nome aparece extensivamente por toda coleção de papiros mágicos da magia greco-egípcia. IŌ, por outro lado, é uma palavra copta que significa asno e também é atribuída a Seth-Tifon.

LERTHEMINŌ trata-se de outro termo tifoniano conectado a constelação de Virgem. SABHAŌTH é compreendido como uma deidade gnóstica, precisamente o demiurgo, que como Seth-Tifon, é o Senhor do Mundo. SABHAŌTH é a versão egípcia do semítico Baal, outra deidade associada à Seth. Seth + Cho (palavra egípcia para ataque e contenda), quer dizer, Baal que como Seth cria contenda.

ABRASAX é outra deidade gnóstica com a cabeça de serpente, também, análoga a Tifon. É interessante notar que ABRASAX soma 365, o número total de dias do ano, o que simboliza que o feitiço atravessa o tempo. Isso é análogo à fórmula do Seth-Heh egípcio ou Seth Eterno ou o Seth das Inundações periódicas do Nilo (Sothis).

Sangue de Tifon refere-se ao sangue menstrual, obviamente. Mas a dinâmica da magia greco-egípcia é muito peculiar. Por exemplo, as palavras ERBĒTH e PAKERBĒTH são chaves para o número sete e nove. PAKERBĒTH é uma palavra encontrada em muitos papiros por causar ódio ou amor em quem é enfeitiçado e acreditava-se que o número nove, por algum motivo, regia influência sobre a mente dos homens.

Agitador é identificado como Tifon e no Egito era o nome dado a asnos e burros de carga. O asno foi um animal associado ao Seth primitivo ou a besta do destino, invocada como um poder de reversão da ordem natural do cosmos.


Amor é a lei, amor sob vontade.


© Fernando Liguori. Este texto é um trecho da obra «Gnose Tifoniana» (Vol. II), no prelo.




[1] Kenneth Grant, O Renascer da Magia, Madras, 1999.
[2] Aleister Crowley, Magick in Theory and Practice, p. 199.
[3] Kenneth Grant, O Renascer da Magia, Madras, 1999.
[4] A primeira parte dos escritos sobre técnicas de magia greco-egípcia foi publicada em O Olho de Hoor (Vol. I, No. 1).
[5] H.P. Lovecraft importou muito de sua mitologia dos Papiros Mágicos Demóticos em entidades como Yog-Sothoth e Nyarlatotep.
[6] Veja Kenneth Grant, O Renascer da Magia, Capítulo 1. Madras, 1999.

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