sábado, 12 de março de 2016

Liber AL & a Grande Obra #1




Fernando Liguori


PARTE . I .


Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei.


Para Priscila, com amor sob vontade.


No ano de 1904, enquanto esteve no Cairo, Egito, Aleister Crowley e sua esposa, Rose, involuntariamente canalizaram uma transmissão mágica de conteúdo profético conhecida como Liber AL vel Legis, popularmente identificada como O Livro da Lei. O livro pode ser rastreado a antiga tradição greco-egípcia da magia e revela a Grande Obra do sacerdote egípcio Ankh-af-na-Khonsu, um alto-iniciado tebano que adquiriu o título de ma-kheru, quer dizer, aquele cuja palavra é feita perfeita através de Maat. A Grande Obra de Ankh-af-na-Khonsu foi a transformação mágica da alma e o conhecimento das leis espirituais e naturais que governam essa operação. A fórmula mágica utilizada por ele foi registrada em sua tábua funerária, conhecida como Estela da Revelação, cujo Liber AL vel Legis é a ativação teúrgica.[1]

O livro contém três capítulos arranjados em duzentos e vinte versos que transmitem ao aspirante thelêmico através de uma linguagem hermética chaves acerca do conhecimento concernente a união da alma com o Absoluto Sagrado além e fora da personalidade humana. A alma é velada sob o simbolismo da Mulher Escarlate transfigurada pela Lei de Thelema. A cor da alma é de sangue e fogo. Sua natureza é lunar e, portanto, mágica e elemental. Através de sua união com o fogo solar da Besta que transmite ou emite a Corrente Vontade (Corrente 93), ela conquista Hadit, o transmissor de sua Verdadeira Vontade. Através de Thelema ou amor sob vontade a alma se torna plenamente realizada como uma Estrela no corpo infinito de Nuit.

Para conquistar Hadit – o agente mágico de manifestação de Nuit – a alma deve introverter seus poderes, retornando no tempo em si mesma. Trata-se do trabalho da iniciação e a chave para o autoconhecimento. Somente através dessa fórmula mágica, que implica em um processo de reversão nas crenças individuais e ações convencionais, que o iniciado é capaz de proporcionar a si mesmo uma completa realização espiritual através da união com o Sagrado Anjo Guardião. Em sua conjunção com a Besta, a Mulher Escarlate representa a autopolarização do iniciado. Sua consciência é magicamente dirigida através da união do fogo solar e do magnetismo lunar. A Criança dessa União Sagrada é progênie de Nuit e Hadit, comunicada através da Besta e da Mulher Escarlate, do Profeta e sua Noiva. Trata-se de Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada e Conquistadora.

Liber AL vel Legis abre os olhos da alma para os mistérios da imortalidade. Nessa direção, o livro traz um novo significado e novas possibilidades a encarnação, liberando a alma dos grilhões que lhe confinam, provocando a experiência da dor e da morte. Liber AL fala de uma eternidade que reside no relacionamento: a existência individual definindo a si mesma pelo contraste com outra existência através do qual ela pode se conhecer. O um só pode se conhecer através de sua comparação com o menos um, seu oposto: aquilo que é não ou aquilo que não é.

As infinitas possibilidades que nascem desse relacionamento são as chaves que abrem os portais da eternidade. Ankh-af-na-Khonsu, o sacerdote tebano mencionado no Liber AL vel Legis, assumiu o símbolo egípcio conhecido como ankh, quer dizer, a chave da vida como sua identidade mágica, seu nome. O livro ainda resume uma fórmula mágica de sete palavras: amor é a lei, amor sob vontade.

Cada um dos três capítulos do livro revela um nível de iniciação. Sob o ponto de vista da magia prática, o livro se inicia no capítulo três, não no primeiro. A sabedoria deve ser buscada em sua fonte. Ra-Hoor-Khuit, o Lúcifer Solar Hermético, impera no terceiro capítulo do Liber AL, pois sua ação na alma é prepará-la para iniciação. Suas instruções ensinam operações de feitiçaria na intenção de aniquilar a existência de qualquer obstáculo encontrado na jornada da Grande Obra. Para alma, trata-se de uma preparação para guerra. Essa preparação requer um arranjo inteligente de procedimentos mágicos que movimentam uma força interior marcial capaz de aniquilar todos os inimigos impingidos a alma pelas forças cegas do universo material.

O estabelecimento do reino de Ra-Hoor-Khuit no centro da alma a leva conhecer Hadit, o doador da vida que fala através do capítulo dois. Este encontro confere ao iniciado as chaves para o conhecimento da vida que somente podem ser desvendados através do conhecimento da morte.[2] Através de seu encontro com Hadit, a alma se contrai. Ela se recolhe da volatilidade das percepções sensoriais para se estabilizar ou se fixar como uma Estrela no corpo de Nuit. Nesse momento, os caminhos estão abertos para a alma para participar das delícias de Nuit, infinitamente expandida em êxtase e amor. O capítulo um, a voz de Nuit, revela o significado secreto do desfrutar sem restrição o verdadeiro relacionamento mágico com o universo: o relacionamento entre a alma individual e a infinidade universal.

Ser um iniciado nos Mistérios de Thelema é ser um iniciado nos mistérios da vida, do amor e da morte. O significado da vida é amor, como dito na voz de Nuit:

Pois Eu estou dividida pela causa do amor, durante a chance de união. Esta é a criação do mundo, que o tormento da divisão é conforme nada, e o prazer da inteira dissolução.[3]

O conhecimento da vida e do amor vem através da morte, o meio de transformação. Somente quando esse eclipse ocorrer no interior da alma, aquilo que permanece é a Verdadeira Vontade, Thelema:

Recordai todos vós que existência é puro prazer; que todos os sofrimentos são senão como sombras; eles passam & estão feitos; mas existe aquilo que permanece.[4]

O mundo foi criado através do amor pela divisão da alma e seu espírito. Portanto, ele foi criado pela chance de união para que alma e espírito gozem novamente da eternidade. A morte veio ao mundo para que o homem pudesse receber o conhecimento da Verdadeira Vontade, a flama de amor que incendeia o coração, a verdadeira identidade:

Eu sou o ardor que queima em cada coração de homem, e dentro do núcleo de cada estrela. Eu sou Vida, e o doador de Vida, todavia por esta razão é o meu conhecimento, o conhecimento da morte.[5]

A Lei de Thelema, o amor sob vontade, é o meio pelo qual pode-se adquirir o conhecimento da vida. Liber AL vel Legis instrui o iniciado sobre a verdadeira natureza do amor, que deve ser sempre em direção a Nuit, uma vez que ela é a fonte de tudo. No livro ela repetidamente fala que o amor deve ser dirigido a seus domínios:

Existem quatro portais para um palácio; o chão daquele palácio é de prata e ouro; lápis-lazúli & jaspe lá estão; e todas as raras fragrâncias; jasmim & rosas, e os emblemas da morte. Deixai-o entrar em turno ou imediatamente nos quatro portões; deixai-o resistir sobre o chão do palácio. Ele não sucumbirá? Amn. Ho! guerreiro, se teu servidor sucumbir? Mas existem meios e meios. Sejais graciosos portanto: vesti-vos todos em fino traje; comei saborosos alimentos e bebei doces vinhos e vinhos que espumam! Também, tomai vossa fartura e vontade de amar como vós quereis, quando, onde e com quem vós quereis! Mas continuamente para mim.
Se isto não estiver acertadamente; se vós confundis os símbolos-do-espaço, dizendo: Eles são um; ou dizendo, Eles são muitos; se os rituais não forem sempre para mim: logo aguardai os terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit!
Isto deverá regenerar o mundo, o pequeno mundo minha irmã, meu coração & minha língua, para quem Eu enviei este beijo. Também, ó escriba e profeta, ainda que tu sejas dos príncipes, isto não deverá aliviar a ti e absolver-te. Mas seja teu êxtase e prazer da terra: sempre Para mim! Para mim!
Mas amar-me é melhor do que todas as coisas: se sob as estrelas-da-noite, no deserto, tu dali a pouco queimas meu incenso perante mim, invocando-me com um coração puro, e a Serpente ardendo aí, tu deverás chegar-se um pouco para repousar em meu seio. Por um beijo tu queres, em seguida, estar disposto a dar tudo; mas aquele que oferece uma partícula de pó, deverá perder tudo nesta hora. Vós devereis reunir bens e grande quantidade de mulheres e especiarias, vós devereis exibir ricas jóias; vós devereis exceder as nações da terra em esplendor & orgulho; mas continuamente no meu amor, e portanto, vós vireis para o meu prazer. Eu vos exorto sinceramente a vir perante mim em um simples robe, e coberto com um rico toucado. Eu vos amo! Eu anseio por vós! Pálida ou púrpura, velada ou voluptuosa, Eu que sou toda prazer e púrpura, e embriaguez do mais íntimo sentido, vos desejo. Vista as asas, e desperte o espiralado esplendor dentro de vós: venha para mim!
Em todos meus encontros convosco, deverá a sacerdotisa dizer - e seus olhos deverão queimar com desejo conforme ela se erguer, de pé, nua e regozijante em meu secreto templo - Para mim! Para mim! fazendo nascer a chama dos corações de todos em seu canto-de-amor.
Cantai a arrebatadora canção-de-amor para mim! Queimai perfumes para mim! Exibi jóias para mim! Bebei para mim, pois Eu vos amo! Eu vos amo!
Para mim! para mim![6]

Para cumprir essa tarefa, o feitiço de todos os feitiços, a alma deve conhecer Nuit verdadeiramente. Ela deve compreender que todas as flechas de amor são pela chance de união.[7] Sobre si mesma Nuit diz: Eu sou Infinito Espaço, e as Infinitas Estrelas.[8] Mas o que são essas estrelas? Ela mesma respnde: Cada homem e cada mulher é uma estrela.[9]

Através da Qabalah Grega, Thelema (vontade) e Ágape (amor), somam 93. O thelemita, portanto, deve compreender que amor sob vontade é o amor dirigido a Nuit pela chance de união. Em outras palavras, desfrutar de seu amor é gozar na dissolução. A natureza desse amor transcende os feitiços da morte, pois ele não atrela à alma as criaturas que ela ama. Ao invés disso ela conquista Hadit, seu manifestador mágico que criou a existência separada pela chance de união.

O Amante de Thelema é livre de si mesmo. Energizada pela Corrente 93 (amor sob vontade), sua alma é capaz de jornar pela eternidade transformada. Tomar vossa fartura e vontade de amar como vós quereis, quando, onde e com quem vós quereis significa receber e comunicar[10] a Corrente 93 através de um amor sempre dirigido a Nuit: Mas continuamente para mim.[11]

Sabedoria consiste em diferenciar a Verdadeira Vontade dos desejos pessoais. Nos termos do amor, a sabedoria consiste em optar pelo amor a Nuit ao invés do amor sensorial e desmedido dos desejos chamado de Eros pelos gregos. A noção grega de Eros é inseparável de Thanatos, quer dizer, a morte. Eros, nesse contexto, trata-se de um amor essencialmente narciso e egoísta, apaixonadamente sexual. A flecha do desejo lançada pelo arco de Eros é inseparável da noção de fatalidade e consequentemente morte. Este amor fatal de Eros é alimentado pela lascívia do desejo apenas. O hedonismo que alimanta a satisfação de Eros é coroado pela morte, pois ele cega e atrela a força de vida da alma ao corpo físico, perecível e transitório. Thanatos, a sombra negra de Eros, refere-se não apenas a mortalidade, mas metaforicamente a perda da vida espiritual. Ele incorpora a ideia de angústia e tormenta da alma corrompida pelo desejo que começa na encarnação na legião dos vivos e permanece após a morte no inferno ou submundo. E em um sentido mais amplo, trata-se de uma alusão a uma tragédia muito maior que essa.

Em Liber AL vel Legis Nuit diz: Atai-vos de modo algum! Não deixai ter diferença feita no meio de vós entre qualquer uma coisa & qualquer outra coisa; em consequência disto aproxima-se o prejuízo.[12] A injução atai-vos de modo algum é um aviso contra a tendência natural da alma de prender coisas a si mesma, criando a partir desse processo a percepção dualista da diferença entre as coisas. Mas a flecha do amor lançada pelo arco de Ágape não prende nada a alma, evitando a dor e sofrimento causada pela noção equivocada de diferença entre as coisas. Quer dizer, a flecha do amor enviada pelo arco de Ágape une a alma àquilo que está além da natureza visível.

O propósito da Grande Obra é, conforme exposta no Liber AL vel Legis, transformar Eros, o amor natural da Mulher Escarlate (a alma) em um veículo capaz de transcender os poderes de Thanatos. Thelema (93) ou amor sob vontade é identica a Ágape (93). Ágape é aquilo que permanece após a morte do veículo físico, diferente de Eros que, em oposição, é percível e impermanente como o corpo físico. O que permanece após a morte, quando algo permanece após ela, é o amor que une a alma a Nuit, um laço que permanece para sempre, muito além da morte. Isto é Ágape, o feitiço que une a alma a Nuit. E embora esse amor não seja medida de barganha, é a própria Nuit que escolhe seus amantes.

Quando Ágape ou amor sob vontade é induzido no caminho da alma, ela se transfigura. Trata-se da transfiguração da alma através da Lei de Thelema, como indicado no início do texto. Mas se apenas Eros alimenta a alma, ela irá sofrer os feitiços de Thanatos. Ela aleija a si mesma da Corrente 93, degradando-se e perdendo substância.

Mas isso não pode ser confundido com uma suposta consequência moral. Não há nenhuma moral na maçã que cai da árvore em uma tempestada. Thelema, portanto, é a declaração de um fato da vida. Não se trata de uma cultura estruturada a partir de leis, regras ou condições arbitrárias que devem ser vivivas. A alma, a prima materia, deve ser coagulada pelas volições da Corrente 93. Apenas através do amor sob vontade é possível transcender o véu de separação entre todas as coisas, pois não há laço que possa unir o dividido senão o amor.[13] A Lei de Thelema convoca a alma ao silêncio do vazio para que possa contemplar a infinitude de Nuit: Também por causa da beleza e do amor![14]

O amor e adoração a Nuit é noturno. Quer dizer, ele não acontece no estado normal da consciência de vigília atribuída ao lado diurno, mas no fulgaz e tênue reino das sombras da noite onde o real e o imaginário não se contradizem. Embora a consciência diurna e solar da corrente-vontade tenha um papel fundamental nesse processo, Nuit não é conhecida apenas discernindo quando, onde e com quem amar, mas como amar.

Invoca-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob vontade. Nem permita os tolos não entenderem o amor; pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem![15]

Mas a escolha deve ser sábia. Supressão não é melhor que autoindulgência em nada. Nesse processo a alma silencia a carne por um ato de violência. Para revidar, a carne se vinga da alma infectando-a com o espírito da lascívia, uma adumbração qliphótica de Yesod. É um erro supor que o espírito deve ser alimentado pela negação do mundo. Através da magia thelêmica é possível oferecer tudo – mente, corpo e alma – a Grande Obra através da Corrente 93 ou amor sob vontade. Nesse processo, a corrente de vida salta além da natureza humana. Hadit, o doador de vida, permanece no mundo amando todas as coisas sem distinção, em perfeita liberdade. Ele proclama: Não seja animal; refine teu arrebatamento![16] Ele convida a alma a desfrutar dos prazeres da encarnação, apontando a luxúria do homem como um mecanismo para inebriar a alma:

Eu sou a Cobra que confere Conhecimento & Deleite e resplandecente glória, e excito os corações dos homens com embriaguez. Para reverenciar-me tomai vinho e estranhas drogas, das quais eu direi ao meu profeta, & embriagai-vos destes. Eles não deverão fazer-vos mal absolutamente. Isto é uma mentira, esta tolice contra vós mesmos. O aspecto de inocência é uma mentira. Seja forte, ó homem! deseje, desfrute todas as coisas do sentido e êxtase: não receie que qualquer Deus deverá renegar a ti por isto.[17]

Essa embriaguez é a própria Nuit, que clama por seu amor:

Eu vos amo! Eu anseio por vós! Pálida ou púrpura, velada ou voluptuosa, Eu que sou toda prazer e púrpura, e embriaguez do mais íntimo sentido, vos desejo. Vista as asas, e desperte o espiralado esplendor dentro de vós: venha para mim![18]

O thelemita anseia pelo amor que liberta a alma, transmutando sua substância. O vinho que embriaga a alma é a Corrente 93 ou amor sob vontade.


Amor é a lei, amor sob vontade.


© Fernando Liguori. Este texto é um extrato do livro Gnose Tifoniana (Vol. II), a ser lançado em breve pela SETh, Sociedade de Estudos Thelêmicos.



[1] Para uma imagem da Estela 718 ou Estela da Revelação veja o ensaio A Magia Sexual de Kenneth Grant.
[2] O Mestre Magistas iniciados no III° Grau da Ordo Templi Orientis deverão desvendar esse mistério.
[3] Liber AL, I:29-30.
[4] Liber AL, II:9.
[5] Liber AL, II:6.
[6] Liber AL, I:51-53, 61-63 e 65.
[7] Liber AL, I:29.
[8] Liber AL, I:22.
[9] Liber AL, I:3.
[10] Liber AL, I:51.
[11] Idem.
[12] Liber AL, I:22.
[13] Liber AL, I:41.
[14] Liber AL, III:56.
[15] Liber AL, I:57.
[16] Liber AL, II:70.
[17] Liber AL, II:22.
[18] Liber AL, I:61.

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