quinta-feira, 10 de março de 2016

Yoga & Magia




Fernando Liguori


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.


Este não é um livro popular sobre o movimento do yoga contemporâneo.[1] Tão pouco é um tratado tradicional sobre Yoga e sua filosofia. O que nos interessa aqui é rasgar o véu acerca do treinamento mágico e místico do magista. É sabido em todas as escolas tradicionais de mistérios, modernas e antigas, que a Arte dos Magi se faz através de um treinamento sistemático e disciplinado de certas práticas ocultas, não reveladas aos profanos. Este livro trata destas práticas ocultas, mas de um enfoque diferente. Isso significa que encontraremos aqui não somente a visão do ocultista, mas do ocultista yogī,[2] e embora isso possa parecer apenas um jogo de palavras, a diferença é definitivamente colossal.

Aleister Crowley (1875-1947), o mais celebrado Ocultista do Séc. XX, inicia sua magna obra, Magick in Theory and Practic [Magia em Teoria e Prática],[3] com aquilo que ele denominou de misticismo. Era a tentativa de provar a necessidade de um treinamento rigoroso através do Yoga para se conquistar as siddhis (poderes psíquicos) tão importantes para que a Vontade dirigida do magista seja registrada nos campos mórficos do astral e se manifeste nos planos dos discos.

A maioria das práticas yogīs de Aleister Crowley datam de 1901. Enquanto fazia suas viagens ao Himalaia para praticar alpinismo se deteve no Ceilão para visitar seu antigo mentor, Allan Bennett.[4] Juntos, experimentaram e aprenderam as disciplinas do Yoga sob a supervisão de Śrī Parānanda. O primeiro triunfo culminou na obtenção de dhyāna (meditação), um incrível orgasmo no interior da mente. Nos anos seguintes, ele retomou as práticas de Yoga e com base nestas experiências ele escreveu Livro Quatro, parte 1. Bennette como o guru Ānanda Metteya, treinou Crowley nas seguintes disciplinas: mahā-sattipaṭhana,[5] svecchā-saṃmasātī,[6] ātma-vicara[7] e samāveśa.[8] Juntos eles executaram inúmeras operações mágicas durante os primeiros anos do treinamento mágico de Crowley em Chancery Lane, onde ele estabeleceu um templo completamente equipado. Regularmente eles evocavam espíritos a forma visível e às vezes a experiência era tão intensa que estes se manifestavam em aparências bem tangíveis.

A técnica do misticismo se subdivide naturalmente em duas grandes classes. Uma é a Magia[9] e a outra é o Yoga. E aqui é necessário registrar um veemente protesto contra os críticos que, em oposição ao misticismo – por cujo termo se compreende tal processo como o Yoga –, posicionam a Magia como algo completamente à parte, não-espiritual, mundano e grosseiro. Julgo essa classificação contrária às implicações de ambos os sistemas e inteiramente incorreta. Yoga e Magia, os métodos de discernimento e de exaltação, respectivamente, são ambos fases distintas compreendidas no único termo misticismo. Apesar de frequentemente empregado de maneira indevida e errônea, o termo misticismo é utilizado ao longo de todo este ensaio porque é o termo correto para designar aquela relação mística ou estática do Sagrado Anjo Guardião com o universo. Expressa a relação do indivíduo com uma consciência mais ampla ou no interior ou exterior de si mesmo quando, indo além de suas próprias necessidade pessoais, ele descobre sua predisposição a finalidades mais abrangentes e mais harmoniosas. Se essa definição estiver em consonância com nossos pontos de vista, então será óbvio que a Magia é igualmente concebida para executar essa mesma necessária relação, porquanto mediante diferentes métodos, não pode satisfatoriamente ser colocada em oposição ao misticismo e às vantagens de um sistema laudatoriamente celebradas em oposição às impropriedades do outro, pois os melhores aspectos da Magia constituem uma parte, tal como o melhor do Yoga constitui também uma parte daquele sistema completo, o misticismo.

Tem-se escrito muito sobre Yoga, de tolices a algo digno de nota. Mas todo o segredo do Caminho Real está contido no segundo aforismo dos sūtras de Patañjali: yoga-citta-vṛtti-nirodha, quer dizer, o yoga é a estabilidade das ondas da consciência. O Yoga busca atingir a realidade solapando as bases da consciência ordinária, de maneira que no mar tranquilo da mente que sucede a cessação de todo pensamento, o eterno sol interior de esplendor espiritual possa brilhar para derramar raios de luz, vida e imortalidade, intensificando todo o significado humano. Nos termos do Ocultismo, todas as práticas e técnicas ocultas do sistema do Yoga são estágios científicos com o objetivo comum de suspender completamente todo pensamento e sob vontade dirigi-lo a uma determinada finalidade. A mente precisa estar inteiramente purificada para ser dirigida sob vontade. A Magia, por outro lado, é um sistema mnemônico de psicologia no qual as minúcias cerimoniais quase intermináveis, as circumbulações, conjurações e fumigações visam deliberadamente exaltar a consciência, com a plena transcendência do estado normal de vigília. No primeiro caso, o machado espiritual é aplicado à raiz da árvore, e o esforço é feito conscientemente para minar toda a estrutura da consciência com a finalidade de revelar a alma abaixo. O método mágico, ao contrário, consiste no empenho de ascender completamente além do plano de existência de árvores, raízes e machados. O resultado em ambos os casos – êxtase e um maravilhoso transbordamento de alegria, furiosamente arrebatador e incomparavelmente santo – é idêntico. Pode-se compreender facilmente então que o meio ideal de encontrar a pérola perfeita, a joia sem preço, através da qual pode-se ver a cidade santa de Deus, é uma judiciosa combinação de ambas as técnicas. Em todos os casos, a Magia se revela mais eficiente e poderosa quando combinada ao controle da mente, que é o primeiro objetivo a ser atingido no Yoga. E, da mesma forma, o êxtase do Yoga adquire certo matiz rosado de romantismo e inspirado significado quando é associado à arte da Magia.

O misticismo – Magia e Yoga – é o veículo, portanto, para uma nova vida universal, mais rica, mais grandiosa e mais plena de recursos do que jamais se foi, tão livre como a luz do sol, tão graciosa quanto o desabrochar de um botão de rosa.

Nesta obra introdutória, vamos tratar de temas básicos e urgentes que devem ser desenvolvidos pelo magista, necessidades primordiais sem as quais nenhum ato mágico funciona: 1. o adestramento da vontade; e 2. o controle do corpo astral. Através de uma série de práticas conhecidas como prāṇa-vidyā estas duas necessidades urgentes podem ser conquistadas. O corpo astral pode ser manipulado e a vontade adestrada.

Vamos abordar o tema não apenas do ponto de vista do ocultista, mas do yogī. Dessa maneira, certas etapas não serão negligenciadas e pontos importantes não passarão despercebidos; poderemos caminhar em um campo seguro de experimentação. Este volume intercala a teoria e a prática para uma fácil assimilação de todo conteúdo. Em uma obra como essa é impossível não utilizar termos técnicos. Mas para facilitar a compreensão, a tradução sempre estará em seguida, entre parênteses. Foi incluído um glossário com os termos principais no fim do livro.


Amor é a lei, amor sob vontade.


© Fernando Liguori. Texto do livro Yoga para Magistas a ser publicado em breve pela SETh, Sociedade de Estudos Thelêmicos.



[1] Este termo, movimento do yoga contemporâneo, se aplica as inúmeras escolas e tradições que ensinam yoga na atualidade. Mas este yoga não é, nem de longe, o verdadeiro Yoga. O que se ensina aos ocidentais hoje é algo conhecido pela tradição como yoga-sukṣma-vyāyāma (veja glossário), uma série de exercícios de purificação que servem como preparação para as verdadeiras técnicas do Yoga.
[2] Utilizei essa expressão, ocultista yogī porque ela denota não apenas o estudioso e até mesmo praticante sincero de técnicas ocultas, mas o Adepto que se aprofundou nos mistérios de onde essas técnicas foram retiradas, quer dizer, da tradição do Yoga, Tantra e outras escolas Hindus.
[3] Obra editada e anotada por Fernando Liguori. Satvsnvs Publicações Ltda. Esgotada.
[4] Foi Allan Bennettt (Frater Iehi Aour) quem iniciou Crowley na utilização de substâncias que alteram a consciência para fins espirituais durante os anos de 1898 e 1899. Crowley o chamava de Cavaleiro Banco de Alice no Espelho. Certa vez anotou em seu diário: Nunca existiu alguém tão branco.
[5] Literalmente, grande limpeza da casa interior. Trata-se de uma purificação do corpo astral por meio de duas disciplinas: cakra-śuddhi, uma purificação dos cakras (vórtices de poder) e nāḍīs (canais sutis) e tattva-śuddhi, uma purificação dos elementos brutos da constituição psíquica e prática preliminar essencial a qualquer técnica tântrica.
[6] A expressão significa: treinamento da própria vontade de Śiva. A palavra svecchā significa vontade. É uma expressão Śaiva muito utilizada pelos Nāthas, tradição que deu origem ao haṭha-yoga. A palavra designa verdadeira vontade. É a equivalente tântrica para fórmula de Crowley. No Śaivismo da Caxemira, ela também é sinônimo de svātantrya, liberdade absoluta da vontade e svacchanda, o ser absolutamente livre em sua própria vontade. Em nota de seu diário mágico da época Crowley diz: Fico à vontade com filosofia destes adoradores de Shiva.
[7] Inquirição profunda no ser.
[8] Possessão pela divindade ou, mais propriamente dito, absorção da consciência individual na divindade.
[9] Nesta obra preferimos não utilizar o anglicismo magick. Preferimos manter o termo magia, pois no Brasil ele é muito diferente da palavra mágica, o que não ocorre na língua inglesa. Por conta desta dúbia interpretação na língua inglesa, Crowley preferiu utilizar o termo magick, com k no final. Mas este não é um neologismo. O termo magick já aparece no inglês arcaico para denominar as artes teúrgicas. Mas também existem outras implicações qabbalísticas.

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